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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"Dark Corners", de Ruth Rendell: a sua última história

 
Ruth Rendell (1930 - 2015), baronesa, Lady Rendell of Babergh, simpatizante do Partido Trabalhista e autora de mais de 50 romances e diversos livros de contos e que a certa altura usou também o pseudónimo Barbara Vine, foi uma das melhores autoras de histórias policiais, se não mesmo a melhor, conjugando todas as tradições do género uma extensa e multifacetada descrição do quotidiano inglês em vários domínios.
Não há Agatha Christie, P. D. James ou outra, que a suplantem em Inglaterra e, no universo anglo-americano, só a americana Karin Slaughter merece encómios quase à medida.
Em Portugal, Ruth Rendell foi publicada com algum êxito mas, por motivos que terão a ver com algumas peculiaridades pouco recomendáveis do mundo editorial nacional, desapareceu do mercado português.
"Dark Corners", que só agora li, é o seu último romance, pertencente à fase em que o seu herói,  Wexford, se reformou, e em que começou a usar o seu próprio nome (já não Barbara Vine) para escrever histórias admiráveis que são verdadeiras crónicas sobre o quotidiano da sociedade inglesa num estilo descritivo com menos diálogos do que é habitual.
"Dark Corners" tem um herói sombrio e psicótico no meio de uma teia de gente falhada: um escritor também falhado que nem senhorio de parte do seu prédio consegue ser. E que, sendo responsável pela morte de uma actriz também falhada, assassina o inquilino que lhe descobriu a sua má acção. 
Sendo o seu último romance, "Dark Corners" faz pensar que a autora poderia não o ter dado por completo. Talvez lhe façam falta algumas particularidades do seu estilo, que mais se notam na descrição de ambientes.
A dúvida não invalida, no entanto, a qualidade (a sempre habitual qualidade) da escrita de Ruth Rendell e o que parece ser, aqui e ali, uma imperfeição não corrigida só torna mais sentida a sua ausência, que nem uma releitura das suas melhores obras compensa. 


 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"Crime Scene": Sherlock Cumberbatch, novos livros, séries de TV e... James Ellroy





A empresa inglesa Future, que edita a revista de cinema "Total Film", acaba de lançar uma revista inteiramente dedicada ao "thriller", sobretudo na ficção literária, na não ficção e na televisão.
O número inaugural da "Crime Scene", no habitual formato grande da "Total Film", é dedicado ao Sherlock Holmes do actor Benedict Cumberbatch (que é uma glória britânica) mas há mais: livros novos, séries de televisão, "true crime", entrevistas e, entre estas, uma entrevista breve ao autor norte-americano James Ellroy.
E, com a devida vénia, vale a pena registar duas frases do grande Ellroy dessa entrevista, em tradução do original inglês:
 
- "Não gosto da literatura 'mainstream', estou-me a cagar. Se quiserem torturar-me até à morte, ponham-me um livro do Faulkner à frente. Ponham-me um livro do Jonathan Franzen à frente. Ou um livro do Raymond Carver. Não me interessa. Gosto das merdas com crimes e gosto da merda histórica."
 
- "Bem, mas eu sou mesmo um grande escritor policial americano, Jack, e isso não é treta. Ouça, para dizer a verdade, foi Deus quem me emprestou o talento. Deus tem sido muito bom para mim. Tenho um coração vigoroso, tenho uma forte vontade de sobreviver e adoro escrever." 

domingo, 27 de setembro de 2015

John Grisham: o melhor e o pior

 
John Grisham é um bom contador de histórias e, de certa forma, cabe-lhe a fama (e o proveito) de ter sido o grande aperfeiçoador do "legal thriller", as histórias de crime(s) com advogados como principais protagonistas.
 
 
 
 
 
"Sycamore Row" ("A Herança", Bertrand Editora, 2014) talvez seja uma das suas melhores obras e, escrita com o desembaraço de quem sabe construir um mistério capaz de prender o leitor até um desfecho que só se revela nas últimas páginas, conta a história de um milionário branco do Sul que, suicidando-se, deixa tudo o que possui à empregada (negra, anda por cima), deserdando os filhos. Com um testamento de última hora, manuscrito e... que não parece ter uma explicação lógica, a não ser aquela em que toda a gente pensa: foi a empregada que o influenciou. E foi?
"Sycamore Row" não tem, no decorrer da narrativa, um crime ou uma acção ilegal (embora tenha havido um acontecimento histórico questionável...), mas a sua fluidez é simples e directa. E tem um advogado independente e ousado como herói.
 
 
 
 
 
Já "Gray Mountain" ("Os Segredos de Gray Mountain", Bertrand Editora, 2015) fica nos antípodas.
A história começa com uma jovem advogada despedida da grande empresa de advogados onde trabalha e que é atingida pela crise económica e financeira e que vai parar uma minúscula cidade da Virgínia, no coração das explorações de carvão.
Conhece casos de miséria e depois a destruição (da natureza e de seres humanos) levada a cabo pelas grandes empresas mineiras com o apoio das grandes firmes de advogados, um advogado morre numa estranha queda de avioneta e... Samantha Kofer fica em Brady ou volta para Manhattan?
O dilema da jovem Samantha é o que faz mover a narrativa mas Grisham não tem muito jeito para intimismos e perde as várias pontas de um novelo de crime e de mistério que verdadeira nunca se desata.
Se "Sycamore Row" é do melhor que já escreveu, "Grayu Mountain" não. Combinados os dois romances, fica o retrato de um romancista na sua encruzilhada.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A criatividade ausente em parte incerta: a propósito de "Em Parte Incerta/Gone Girl"

 
"Em Parte Incerta" ("Gone Girl", realização de David Fincher, romance e argumento de Gillian Flynn, visto ontem à noite): durante uma hora temos Nick (Ben Affleck ) às voltas com o desaparecimento da sua mulher, Amy (Rosamund Pike); de repente passamos a ter Amy, que nos diz logo estar viva; nos 83 minutos (quase hora e meia) de filme que se seguem temos a explicação do que aconteceu e, de certa forma, uma recriação de "Atracção Fatal". Sem o coelho.
Foi nessa transição de 60 minutos de filme para os restantes 83 minutos (como se fossem dois filmes diferentes) que deixei de gostar de "Em Parte Incerta".
Foi esse o momento em que um "thriller" aceitável (Amy desapareceu, Nick é o inevitável suspeito) se transformou num "thriller" à procura da respeitabilidade "normal": Amy está viva e bem viva, maquinou tudo para se vingar de Nick, mata um antigo pretendente sem sombra de hesitação (Desi Collings é o coelho, de certa maneira, regressa para junto de Nick, os dois vão fazer-se mutuamente a vida negra e... às 2 horas e 23 minutos de filme, cai o pano.
O "thriller", estilo que na literatura e no audiovisual só permite a isenção em caso de obras-primas inquestionáveis, tem regras.
E essas regras, por conservadoras que pareçam, destinam-se a dar ao leitor e/ao espectador quase todas as armas para poder entrar no jogo. A criatividade não está na destruição das regras (o que, em geral, permite fins frouxos e indecisos como acontece em "Gone Girl") mas na invenção de novas histórias que, respeitando as regras, consigam sempre suscitar o interesse renovado do leitor/espectador.
Não é o que acontece com "Em Parte Incerta". E David Fincher, o David Fincher de "Seven" e de "House of Carda" até sabe fazer melhor.



A versão francesa do cartaz de "Gone Girl": Amy e Nick tinham ouvido falar
 em "Atracção Fatal 2" e foram ao engano

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"Fraturado", de Karin Slaughter: Will Trent parte 2

 E aí está o segundo andamento da história de Will Trent, o dinâmico mas complexado (e agora perceber-se-á um pouco melhor) agente federal das histórias de Karin Slaughter, uma das grandes autoras de "thrillers" dos nossos dias.
"Fraturado" (ed. Topseller, tradução minha) segue-se a "Tríptico" e cria uma nova, e estranha, cena de crime para Will Trent investigar: uma mulher chega a casa, encontra-a arrombada, vê a filha morta e o homem que deve ser o assassino atira-se a ela.
Mas a autora, que desta vez é menos exuberante em matéria de revelações espectaculares, baralha a história, os acontecimentos e as personagens e a intriga desenrola-se talvez mais calmamente, em passos seguros, construindo uma teia sugestiva entre as várias personagens e, não menos importante, a ligação entre Will Trent, a sua nova colega Faith e a terrível Amanda... e a mãe de Faith (relação que será mais desenvolvida nas próximas histórias de Will Trent.
Com a tendência de muitas editoras para só apostarem em autores (e autoras) mais recentes, perdem-se outros nomes, às vezes. Karin Slaughter, que já anda nisto há bastante tempo, merece toda a nossa atenção, graças à dinâmica Topseller.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A limitação castradora dos "thrillers" clericais


Onze anos antes de "O Código Da Vinci" o ser,
 já "O Quinto Evangelho" o era
 
Imaginemos que a sociedade humana, tal como a conhecemos, era composta por seres humanos possuidores de um factor de cura que os tornava imunes a qualquer tipo de agressão física como, por exemplo, a personagem de BD Wolverine, com a possibilidade extra de se regenerarem a partir de uma simples fragmento de ADN. Não haveria bala, lâmina afiada, explosão, veneno, pancada, fosse o que fosse, capaz de matar alguém.
E onde os seres humanos não pudessem ser mortos, morreria outro elemento da vida humana, o "thriller". O homicídio, o tabu supremo, desapareceria e, com ele, a literatura policial.
Porque ela nunca poderia viver de histórias em que uma pessoa fosse morta para depois regressar à vida, inviabilizando tudo, inclusivamente a descoberta do assassino, que o deixaria de ser.
Os "thrillers" históricos de temática clerical têm esse problema: qual é o mistério? Bom, verdadeiramente nenhum.
Os textos bíblicos, oficiais e apócrifos, e os textos sagrados de outras religiões já têm mistérios suficientes para construir histórias enigmáticas mas no domínio da ficção científica.
Esse foi um dos aspectos que mais me irritou quando li (em 2005 ou em 2006) "O Código Da Vinci": qual era o mistério em torno do Santo Graal que deveria esclarecer-se no fim da história? Nenhum. O Santo Graal existe ou não existe. E daqui não se pode sair.
O que pode ser interessante é imaginar uma origem extraterrestre, por exemplo. Mas isso já empurraria a história para o domínio da ficção científica.
O problema dos "thrillers" clericais é este: a sua limitação castradora de ficarem prisioneiros nos limites das convenções religiosas, das interpretações bíblicas (mas mais do Novo Testamento, mais "normalizado") às particularidades do Vaticano em versão Kremlin.
Os seus seguidores, que tiveram desde pequeninos alguma educação cristã, devem delirar com a sugestão de pecado que as especulações do género lhes trazem.
Tendo lido "O Código Da Vinci", traduzi um romance alemão interessante em 2007, intitulado "Das fünfte Evangelium", de Phillipp Vandenberg ("O Quinto Evangelho", ed. Quid Novi).
Publicado em 1993, "Das fünfte Evangelium" era demasiado parecido com "O Código Da Vinci" (que saiu em 1994). A literatura e a cultura alemãs são mal conhecidas fora da Alemanha e é natural que as semelhanças não tenham sido muito notadas.
E se não posso falar em plágio (compreendendo, coitados, que os autores do género também não têm muito por onde escolher), o caso de "Das fünfte Evangelium" só confirmou a péssima opinião que me deixou "O Código Da Vinci". E foi o suficiente para me vacinar contra o género e contra os imitadores de Dan Brown que pela sua vacuidade, verdade seja dita, também não consegue ser imitado senão por quem também nunca teve estilo.



A demanda do Santo Graal é muito mais interessante
quando é conduzida por Indiana Jones





quarta-feira, 9 de abril de 2014

"What Dies in Summer", de Tom Wright: crimes com castigo



Há histórias habilidosamente bem contadas, que parecem incertas quanto ao terreno que pisam mas que depois revelam as opções deliberadas do autor e que são pequenos triunfos. É o caso de "What Dies in Summer", o romance de estreia de Tom Wright, psicólogo, artista e escritor norte-americano.
"What Dies in Summer" é a história de um verão em que Biscoito, ("Biscuit", a alcunha do jovem narrador), exilado da casa materna e de um proto-padrasto violento na casa da avó materna com uma jovem prima por companhia, descobre os horrores e as belezas da vida humana.
"What Dies in Summer" é, simultaneamente, uma narrativa de transição e de entrada plena na adolescência e um "thriller" muito bem construído, com algumas sequências em ambientes de - literalmente - cortar à faca e picos de tensão e de expectativa que puxam pela atenção do leitor. Quem espera por uma revisitação da adolescência é conduzido a um "thriller" e quem espera por um "thriller" é convidado a conhecer o mundo destes adolescentes com segredos mas a harmonia é completa.
"What Dies in Summer" foi publicado em português no ano passado ("O Que Morre no Verão", Bertrand) e a segunda obra de Tom Wright, "Blackbird", será publicada nos EUA em Julho deste ano.
Mais pormenores sobre o autor e as suas obras podem ser encontrados em Tom Wright Presents.
 

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Braquo", de Olivier Marchal: tudo e mais alguma coisa


aqui escrevi sobre "Engrenages", uma série policial francesa que mostrou que não é só nos EUA que se fazem séries de alta qualidade. "Braquo" é outro exemplo interessante, a vários níveis.
Assentando no modelo de um grupo de polícias que, neste caso, andam mais pelo lado errado da lei do que pelo lado certo, "Braquo" é da autoria de Olivier Marchal (ex-polícia, argumentista e actor) e desenvolveu-se em três andamentos: a primeira temporada em 2009, a segunda em 2011 e a terceira já este ano.
Há uma diferença assinalável de tom entre as duas primeiras temporadas (as únicas que se podem ver em DVD) e essa diferença ilustra todas as opções do "thriller" televisivo e das vantagens que a televisão oferece (ambas as temporadas têm oito episódios, com cerca de 50 minutos cada).
Na primeira temporada, a história é mais intensa e mais contida, menos movimentada mais de uma violência interior e sombria que a torna quase deprimente. Mas na segunda tudo muda e irrompe uma história de política e ex-militares, com uma cobiçada super-arma e até o presidente de Angola (com o sugestivo apelido de Luisiadas) e desenvolvimentos que a tornam confusa.
O contraste entre as duas temporadas ilustra bem o que pode ser uma opção mais intelectual por oposição a uma opção mais popular e a primeira sai distintamente a ganhar.
De qualquer modo, e na dúvida (sem conhecer a temporada 3), recomendo-a. A quem gosta do género e a quem, na televisão portuguesa, teria a obrigação de procurar outras inspirações...
 

Quatro polícias quem sempre parecem sê-lo

domingo, 9 de março de 2014

Reflexões sobre a literatura "policial" (13): o falso culpado e o falso inocente

A assassina B. A Polícia detém A, reúne as provas que mostram ser ele o assassino e (no caso português) o Ministério Público acusa A de assassínio de acordo com os preceitos legais. A é levado a julgamento. É declarado culpado... ou inocente. Esta é a situação da vida real.
Na ficção policial (consideremos a literatura e o cinema), como é que se transforma isto numa boa história?
Não há muito por onde escolher, segundo as regras do "thriller":
(a) a descrição pormenorizada e emocionante do julgamento, aceitando a bondade da acusação;
(b) a revelação, por uma nova investigação e recolha de provas, de que A estava inocente (é muito mais raro o contrário);
(c) introduzir uma reviravolta à vigésima quinta hora, onde fica demonstrado que o acusado é mesmo culpado - passado o julgamento (e transitado em julgado o acórdão, de tribunal colectivo, no caso português, embora ficcionalmente haja pouco tempo para os prazos processuais), ter A, que foi absolvido, a confessar ao advogado de defesa que afinal foi ele o assassino, ou a cometer uma distracção que leva o seu advogado de defesa a perceber isso mesmo: A matou, é culpado mas foi absolvido porque conseguiu arranjar maneira de o tribunal acreditar na sua inocência.
No caso do falso culpado e do falso inocente, a a tendência, à falta de melhor, é, repetindo as soluções se não há imaginação para mais, pôr-lhes roupagens bonitas ou diferentes. Perde-se a originalidade mas, claro, não há plágio. Será, mais bondosamente, uma espécie de "déja vu" literário. Quem não conhecer os antecedentes tende a ficar em estado de maravilhamento.
Em 1996 o filme "A Raiz do Medo" ("Primal Fear") definiu tudo o que havia para definir nesta matéria. Eu, como autor de "thrillers", nunca exploraria (nem explorarei) o tema do falso inocente, apesar de já pouca gente se lembrar do filme. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"As Cinquenta Sombras do Inspector Joel Franco"?...

Às vezes interrogo-me se não deveria ter tentado transformar a minha série Não Matarás ("A Cidade do Medo", "Vermelho da Cor do Sangue" e "Triângulo", 2010-2012) numa série porno-thriller (deve existir, com certeza) para excitar a editora Asa, tipo, sei lá, "As Cinquenta Sombras do inspector Joel Franco"... ou algo parecido.
Mas se o tivesse feito também não teria conhecido a Topseller (e as pessoas que nela trabalham, e que tão bem me acolheram), e não teria havido "Morte com Vista para o Mar", "Morte na Arena" e "Morte nas Trevas", pelo menos.
A vida tem destas coisas...

domingo, 20 de outubro de 2013

"Tríptico", de Karin Slaughter: um "thriller" perfeito

 
 
 
 
 
"Tríptico", da norte-americana Karin Slaughter, que acaba de ser editado em Portugal, é de certa forma uma dupla estreia.
É-o, em primeiro lugar, por ser o regresso de uma das melhores e mais profícuas autoras de "thrillers" à edição portuguesa e com uma das suas melhores obras; e é-o, depois, por ser o livro que marca a entrada em cena do seu herói Will Trent, que parece ter-se sobreposto à sua personagem inicial, a médica Sara Línton, nas histórias mais recentes.
"Tríptico" é uma obra excepcional, pelo menos por dois motivos. Por um lado, pelas suas personagens, habilmente caracterizadas, das quais três  regressarão noutras histórias.
Will Trent, Angie Polaski e Amanda Wagner, a chefe de Trent, têm vidas interligadas, cujos pormenores vão surpreender os leitores, desde logo neste livro até outra obra mais recente, em que se fica a conhecer a origem do relacionamento contraditório de Trent e de Amanda ("Criminal"). 
E, por outro, pelo modo como a história é narrada - há um "serial killer" e a revelação da sua identidade, que pode parecer descoroçoante, é um momento extraordinário de uma narrativa aliciante que nunca perde o dinamismo ou a capacidade de impressionar.
Ponham de lado por um momento, leitoras e leitores, as muitas autoras estrangeiras que vão aparecendo no mercado português e prestem toda a vossa atenção a este "thriller" perfeito.
A dinâmica Topseller já tem em carteira mais obras de Karin Slaughter (da série que começou com Will Trent e onde entrará mais tarde a traumatizada Sara Línton) e a próxima respeita a sequência original: "Fractured".
 
Karin Slaughter
Informações sobre a autora
e as suas obras
em www.karinslaughter.com

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(A tradução de "Tríptico" é da minha autoria e este pormenor e o facto de a Topseller estar a editar actualmente as minhas obras pode tornar recomendável esta "declaração de interesses", que não me coíbe de, com toda a liberdade, acrescentar um aplauso muito especial para a opção dos seus editores de trazer Karin Slaughter à convivência com o público português.)




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reflexões sobre a literatura "policial" (12): os leitores

Os leitores que apreciam o "thriller" são, simultaneamente, os mais inteligentes e os mais exigentes de todos os leitores: aceitam um género literário que tem regras mas têm uma abertura de espírito, de raciocínio e de discernimento que, esperando o cumprimento de pelo menos algumas dessas regras pelos autores, que lhes permite encarar sem preconceito histórias capazes de emocionar, inquietar e assustar, mas a que exigem rigor de construção e de desenvolvimento. Talvez não haja outro género em prosa (além da literatura confessional, caída em desuso), capaz de criar um diálogo tão grande entre o autor e o leitor.

sábado, 10 de agosto de 2013

Reflexões sobre a literatura "policial" (11): os estereótipos portugueses

Um dos problemas, talvez o principal, do "policial" português é o estereótipo.
Os seus "heróis" são quase todos estereótipos, pastiches ou caricaturas pretensamente sérias de dezenas de outros "heróis" que vêm mais da memória de coisas vistas ou lidas do que da capacidade criativa de quem escreve as suas histórias.
Num género literário que exige, nas suas características mais comuns, uma personagem principal suficientemente interessante, apelativa e original, passamos a ter histórias que podem estar bem contadas mas que são conduzidas por caricaturas.
O mais natural é que na origem desse equívoco esteja o desinteresse desses autores pelo género literário onde querem aventurar-se, alheando-se dos seus padrões e daquilo que o público nacional efectivamente deseja ler.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Reflexões sobre a literatura "policial" (10): a ofensiva do "nordic noir"

Talvez haja quem pense que o êxito dos "policiais" nórdicos em Portugal e noutros países tem motivo exclusivamente intrínsecos: as pessoas compram-nos e lêem-nos pelo seu mérito e recusariam os "thrillers" de outras nacionalidades (mesmo a portuguesa).
Penso que a explicação não passa por aqui, independentemente dos muitos méritos da literatura do Norte e do Leste gelado da Europa.
O que existe é um fenómeno - que também converge a ausência de alternativas por deliberada falta de comparência - mais simples, tão simples como uma ofensiva organizada por uma mente militar a partir de ensinamentos básicos: conquista-se o espaço porque está vago e ocupa-se.
Onde isso se pode ver de forma exemplar é no caso da televisão. Acompanhando o vigor da literatura "policial" nos seus países, as televisões nórdicas apressaram-se a adaptá-la ao pequeno ecrã. E fizeram-no não com a exuberância que a maior parte dos produtores americanos julgam ser essencial para o negócio mas com a "gravitas" britânica.
Para as televisões inglesas, onde houve um impressionante decréscimo da ficção de qualidade, foi um presente divino que os seus espectadores acarinharam e os êxitos das várias séries originais ´(e "Forbrydelsen/The Killing" deve ser a melhor de todas) abriram rapidamente o mercado britânico aos produtores do "nordic noir" televisivo.
Quanto ao mercado norte-americano, a conquista assentou nos habituais "remakes" que dispensam legendas, embora com resultados contraditórios (como o mostram a débil adaptação de "Forbrydelsen/The Killing" e o êxito relativo do "remake" "Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres", de David Fincher, que não tem continuação assegurada).
Em reumo, a influência televisiva ajudou a solidificar a literatura, numa combinação de esforços objectivamente triunfante.
Os mercados gostaram, os editores e os produtores alargaram a oferta do produto.
A lição está bem à vista para quem a quiser perceber.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Reflexões sobre a literatura "policial" (9): a televisão portuguesa

 
É difícil perceber o motivo da ausência de histórias "policiais" na televisão portuguesa mas é natural que haja, pelo menos, três explicações: o fracasso de uma experiência desastrosa recente da televisão dita "de serviço público"; o temor de enveredar por temas que "parecem mal"; e a inexistência de histórias originais e de quem saiba adaptar as que já existem.
Isto não justifica a falta, como é evidente. 
Não tendo a perspectiva de que é obrigatório haver histórias "policiais" em todos os países, vejo, no entanto, como elas fazem naturalmente parte da sociedade e da criação cultural e estão associadas às várias realidades sociais. Além disso, a proliferação de tantas séries do género nos vários canais de televisão (num leque de qualidade que vai do muito mau ao muito bom... às vezes) sugere - como nos livros - que os detentores e os programadores televisivos sabem que há um público interessado na matéria, achando que lhes basta atirarem o que vão encontrando por aí como quem acha que basta dar ração seca da mais baratinha aos cães porque isso para eles chega.
O anúncio de uma produção da TVI de uma série de polícias e ladrões escrita por Moita Flores pode ser um primeiro passo para um encontro produtivo entre o "policial" e a televisão portuguesa... se os produtores tiverem coragem para tanto.   

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Reflexões sobre a literatura "policial" (8): o mistério da literatura escandinava

 
Arrisquemos uma tese: a literatura escandinava (de países como a Dinamarca, a Suécia e a Dinamarca, pelo menos) não tem um número significativo de fãs em Portugal. Com excepção dos "thrillers" que vêm desses países, claro, e é aí que está a questão.
Os "policiais" escandinavos tornaram-se uma moda que dá dinheiro aos editores, que ignoram praticamente tudo o resto e vivem dessa literatura sem procurarem alternativas ao dia em que a moda se esgotar e sem se perguntarem se a apetência demonstrada pelo público provém do interesse pela literatura desses países ou do interesse pelo "thriller".
Porque - partindo do princípio de que há em Portugal um público comprador de livros com interesse pelo "policial" - a minha tese é esta: os compradores dos "thrillers" escandinavos não os compram, na sua maioria, por serem histórias desses países mas porque querem ler "thrillers" e pouco mais encontram do que essas obras.
Se os editores investissem (em vontade e promoção e das mais variadas maneiras) no "policial", haveria mais livros a serem comprados e de certeza que não apenas os escandinavos mas, muito em especial, os portugueses.
Aliás, a explicação para a ausência de uma forte literatura "policial" portuguesa - domínio em que julgo ser o único autor regular, com um título por ano - só pode estar no campo dos editores, que por tradição e preconceito, olham para este género literário como uma coisa de que estranhamente se envergonham quando não se envergonham nada, por exemplo, de promover a pornografia chique...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Uma estreia interessante: James Patterson e Janet Evanovich

James Patterson e Janet Evanovich são dos mais populares autores norte-americanos de "thrillers", com uma produção impressionante e recordes de vendas não menos impressionantes.
James Patterson ganhou maior notoriedade com o seu herói Alex Cross (personificado por Morgan Freeman nos filmes "A Conspiração da Aranha", de 2001, e "Beijos que Matam", de 1997, e agora regressado ao cinema no filme "Alex Cross"). Do que li deste autor guardei boas impressões e fiquei bastante curioso quanto ao seu recente "Zoo", que vou ler em breve.
Muito apreciadas pelo público feminino, Janet Evanovich e a sua heroína, Stephanie Plum, serão o equivalente do nosso tempo à Sue Grafton que, nos anos oitenta, criou a investigadora Kinsey Millhone e uma série de histórias com títulos que percorriam todo o alfabeto.
Os três primeiros lançamentos da Topseller
Foram estes os dois autores escolhidos pela editora Topseller para se lançar no mercado português e a iniciativa é de louvar.
James Patterson e Janet Evanovich poderão ser depreciativamente considerados por editores para quem os "best sellers" são um pecado mortal e o "thriller" é um género literário menor que "parece mal" editar (salvo se a moda assim o decretar) mas são capazes de fixar leitores e de, por essa via, abrir uma porta à literatura "policial" anglo-americana, que merece todas as atenções e que infelizmente está longe de ser uma área literária bem tratada pela generalidade dos editores.
Esta opção da Topseller, a ser bem sucedida, não será apenas positiva para a editora mas será também um contributo significativo para afirmar a importância e a dignidade da literatura "policial" e dos seus leitores.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Reflexões sobre a literatura "policial" (7)

A destruição do avião em que seguia Sá Carneiro foi causada por um acidente ou por um atentado? O ex-deputado português Duarte Lima assassinou, ou não, a milionária portuguesa Rosalinda Ribeiro no Brasil? O que aconteceu realmente nos bastidores do "caso Casa Pia" e qual foi (ou é, ainda) a dimensão da exploração sexual e da prostituição de menores e do seu impacto social e político?
Estes enigmas com implicações políticas, e que incluem crimes (ou suspeitas de crimes) violentos, já teriam dado origerm, noutro país ocidental, a várias obras de ficção, escritas ou filmadas (para cinema ou televisão). Por cá, houve um filme (o estimulante "Camarate", de Luís Filipe Rocha, de 2001) e um romance (o meu "O Clube de Macau", de 2007, sobre o "processo Casa Pia").
Produzir um filme é caro, um telefilme (ou mesmo uma mini-série) sê-lo-á menos e editar um livro custa bastante menos e tem receitas mais garantidas. Mas o certo é que nada mais existe no domínio da ficção. E é pena.
É impossível não pensar que o "pântano" político-cultural português (e, a propósito, o primeiro-ministro que fugiu ao "pântano" tê-lo-á feito por causa do "processo Casa Pia"?) faz germinar muitos temores que limitam, de uma maneira ou de outra, a liberdade de criação e de expressão.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Reflexões sobre a literatura "policial" (6)

O "policial" esgotou-se no cinema por não precisar de efeitos especiais, para lá da representação de mortes variadas e de cenas de acção, como o mostram os grandes filmes do género da fase final do século passado, como "O Padrinho" (1972-1990), "Viver e Morrer em Los Angeles" (1985), "O Silêncio dos Inocentes" (1991), "Heat" e "Os Suspeitos do Costume" (1995).
Neste quadro, a televisão tornou-se o meio audiovisual de excelência onde o "policial" melhor se pôde desenvolver e explorar novos rumos.
"Hill Street Blues" (1981-1987), "The Wire" (2002-2008), "The Killing/Forbrydelsen" (2007) e "Boardwalk Empire" (2010) demonstraram, e demonstram, como o "thriller" beneficia não apenas com mais tempo de narrativa (a multiplicação de episódios entre os 40 e os 60 minutos, em média, em vez dos 90 ou 100 minutos únicos das longas-metragens) mas também com a possibilidade de forçar os limites das fronteiras temáticas.
A prolongada cena de incesto mãe-filho na segunda temporada de "Boardwalk Empire" e o realismo político-social de "The Wire" enfrentariam problemas muito complexos no cinema, pelo menos a nível da classificação etária e da correspondente circulação em termos de público.
O facto de as televisões e os produtores audiovisuais nacionais se manterem gloriosamente alheados desta tendência, explorando "ad nauseam" as telenovelas de intrigas amorosas, só revela o seu desajustamento em termos de ficção contemporânea, a sua falta de ousadia e o "parece mal" que amedrontam o sector livreiro.

sábado, 20 de outubro de 2012

Reflexões sobre a literatura "policial" (5)

Em geral, os editores portugueses não gostam do "policial", receiam que pareça mal publicarem histórias com crimes, não percebem o género e não arranjam quem lhes explique.
Preferem as modas e têm horror às preferências dos públicos plebeus de língua inglesa.
Arriscam pouco, não inovam, perdem oportunidades e desdenham as lições do audiovisual, meio com o qual também têm uma convivência problemática.
A sobrevivência do "policial" português, quando ele existe, é extremamente difícil nestas circunstâncias e, como tal, não gera receitas, não estimula outros autores e dá uma ideia errada da falta de interesse do público que compra e lê livros.
Ou seja, cometem-se verdadeiros homicídios intelectuais.