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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Caça à asneira

Foi por um simples acaso que fui ter há poucos anos ao blogue Linguagista. Num dos meus livros usava uma palavra de uma maneira menos feliz e o seu autor fez-lhe uma referência. Não conhecendo substantivo em português para a máquina citada, optara por aquela solução, que podia realmente ter sido diferente. A chamada de atenção tinha sido correcta.
A partir daí comecei a visitar regularmente o Linguagista. Não conhecia, julgo eu, o seu autor, Hélder Guégués. É revisor de profissão mas dele também se poderá dizer, pelos seus comentários e críticas, que é caçador e de pontaria certeira e vagamente irónica. E não só de "gralhas" mas de asneiras, em livros e no fértil terreno da comunicação social portuguesa, que é uma verdadeira "reserva de caça".
Lendo-o, sei que estou a aprender a escrever melhor mas também a compreender o triste estado da língua portuguesa, que "só um mal tem, e é pelo pouco que lhe querem os seus naturais, a trazem mais remendada do que capa de pedinte". Esta frase de Francisco Rodrigues Lobo serve a Hélder Guégués de mote para o livro que agora publicou, "Em Português, Se Faz Favor", e cuja leitura é capaz de ser tão ilustrativa e também tão útil como o seu Linguagista.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"Crime Scene": Sherlock Cumberbatch, novos livros, séries de TV e... James Ellroy





A empresa inglesa Future, que edita a revista de cinema "Total Film", acaba de lançar uma revista inteiramente dedicada ao "thriller", sobretudo na ficção literária, na não ficção e na televisão.
O número inaugural da "Crime Scene", no habitual formato grande da "Total Film", é dedicado ao Sherlock Holmes do actor Benedict Cumberbatch (que é uma glória britânica) mas há mais: livros novos, séries de televisão, "true crime", entrevistas e, entre estas, uma entrevista breve ao autor norte-americano James Ellroy.
E, com a devida vénia, vale a pena registar duas frases do grande Ellroy dessa entrevista, em tradução do original inglês:
 
- "Não gosto da literatura 'mainstream', estou-me a cagar. Se quiserem torturar-me até à morte, ponham-me um livro do Faulkner à frente. Ponham-me um livro do Jonathan Franzen à frente. Ou um livro do Raymond Carver. Não me interessa. Gosto das merdas com crimes e gosto da merda histórica."
 
- "Bem, mas eu sou mesmo um grande escritor policial americano, Jack, e isso não é treta. Ouça, para dizer a verdade, foi Deus quem me emprestou o talento. Deus tem sido muito bom para mim. Tenho um coração vigoroso, tenho uma forte vontade de sobreviver e adoro escrever." 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O "bicho-papão" do Acordo Ortográfico e eu

 
Não consigo defender a nova ortografia do Acordo Ortográfico e não a pratico neste espaço de relativa liberdade onde escrevo.
Não lhe compreendo a lógica e até acho mais confortável escrever da maneira a que me habituei a escrever durante tantos anos.
Como tradutor e autor, no entanto, sigo a orientação que me é solicitada pelas editoras com que trabalho e compreendo a sua lógica de utilização da nova ortografia.
Nos dois casos, tento escrever sem erros e, no caso de ter alguma dúvida sobre a forma mais correcta de escrever uma palavra ou uma expressão qualquer, procuro elucidar-me.
Dito isto, e sempre com a reserva cada vez maior que tenho em alinhar em movimentos que se regem por uma lógica de manada, não caio na histeria de me pôr a proclamar agora (lá por hoje ou amanhã ser o dia em que o Estado adopta oficialmente a nova ortografia) que não quero o Acordo Ortográfico... quanto mais não seja porque, queira ou não, me é solicitado que o use em determinadas circunstâncias que fazem parte da minha vida.
E, por outro lado, continuo a ficar estupefacto por muitas das pessoas que berram contra o Acordo Ortográfico nem sequer se preocuparem em escreverem sem erros, revelando a sua manifesta incompatibilidade com a palavra escrita.
Devia haver uma espécie de Prova Geral de Acesso para validar certo tipo de combatentes contra o Acordo Ortográfico...

quinta-feira, 12 de março de 2015

Entrevista no blogue Marcas de Leitura

 
Entrevista ao blogue Marcas de Leitura, sobre mim, a minha obra e algumas particularidades, entre as quais a importância dos blogues literários e da situação actual do mercado livreiro e dos autores portugueses. Pode ser lida na íntegra aqui.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sessão sobre literatura, e outros temas, na Escola Raul Proença


Literatura (incluindo "Os Maias" e Aquilino Ribeiro), o romance policial, a minha experiência de autor e as minhas histórias, passando por alguns apontamentos sobre cinema e jornalismo, foram os temas predominantes de uma conversa bastante animada com estudantes da Escola Secundária Raul Proença (Caldas da Rainha), ontem de manhã, a convite do professor João Daniel Pereira no âmbito da Semana Raul Proença.





 
 
 
 
As fotografias foram tiradas pelo professor Edgar Ximenes.


sábado, 31 de janeiro de 2015

Estrangeirismos idiotas

 
Não sou um purista da língua portuguesa e, pesando todas as diferenças, li com gosto Aquilino Ribeiro e José Saramago e as suas inovações em matéria de "conteúdo" e "forma". (E convém sempre dizer, até por ser verdade, que não concordo com o Acordo Ortográfico e que, nos meus escritos pessoais, não o aplico.)
Há coisas, no entanto, que continuo a achar idiotas, sobretudo por serem adaptações mal digeridas do inglês, preterirem palavras ou expressões portugueses até mais elegantes e resultarem, de certa forma, de fenómenos de moda (como o foram, nas suas épocas, expressões como "na medida em que" ou "é assim").
É o caso de "resiliência" (resistência, ou capacidade de resistência), "alegadamente" (pode sempre usar-se, por um exemplo, um cauteloso "terá", coisa com que nunca nenhum jornalista se deu mal), "detalhar" (pormenorizar) e do mais horrendo "panicar" que parece significar "entrar em pânico".
Há uma tendência portuguesa para "comer" bocados de palavras (que terá sido explicada por Agostinho da Silva pelo medo de falar abertamente, que foi uma das tristes heranças da Inquisição e do Estado Novo, e que parece ser característica do falar lisboeta) mas esta tendência pacóvia de adoptar estrangeirismos a esmo terá mais a ver com o facilitismo e com algum défice de discernimento.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"Vermelho como o Sangue" é, como quem diz, "Vermelho da Cor do Sangue", não é?









Quando escolho um título para um livro meu, tenho o cuidado de tentar saber se ele já existe como título de livro ou de filme em Portugal ou no Brasil.
Pode ser sempre útil ir à boleia de outro título mas há, no mínimo, uma questão de honestidade que é básica. Quanto mais não seja, esta: se alguém se apropria, literalmente ou aproximadamente, de um título, não estará a apropriar-se também do conteúdo da obra?
"Vermelho da Cor do Sangue" foi publicado em 2011 na Asa (Leya) e foi o meu sexto "thriller". Para Janeiro de 2015 está anunciado "Vermelho como o Sangue", na Presença, que não é meu.
Mais facilmente se falará aqui de apropriação do que de honestidade.
Mas pode ser que quem procure um vá ter ao outro, porque "Vermelho da Cor do Sangue" ainda está à venda e, pelas críticas como sempre favoráveis que teve, até pode ser de leitura mais proveitosa do que a incursão encarnada da Presença.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"Gazeta das Caldas": o Acordo Ortográfico é mau, a asneira é que é boa (2)




... E inaugura o quê? Ou seja: o que é que o parque de estacionamento vai inaugurar?
A pergunta é legítima porque os objectos (que eu saiba...) não inauguram nada, nem se inauguram a eles próprios. Portanto, um parque de estacionamento (mesmo que seja a maravilhosa obra que vai imortalizar a capital do concelho de Caldas da Rainha) não "inaugura" coisa nenhuma. 
Um título correcto (sem erro, asneira ou burrice) só poderia ser neste caso (e havia espaço na segunda linha!): "é inaugurado" ou "será inaugurado".
É melhor repetir e só em caixa alta, para perceberem melhor: "É INAUGURADO" ou "SERÁ INAUGURADO".

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Três palavras idiotas


Há três palavras com que especialmente embirro.
"Degustação" é uma delas. Não significa mais do que "provar" ou "saborear" e vem do francês "dégoûter".
É uma parolice, usada como se "saborear" ou "provar" fosse algo de pecaminoso.
Ou seja, as pessoas civilizadas não "provam", "degustam". Acho ridículo e fico sem vontade nenhuma de provar os produtos que parece serem apenas para a "degustação".
"Requalificação" é outra.
Não há cão nem gato, dos presidentes de câmaras municipais mais grunhos aos jornalistas snobes, passando pelos políticos, que não use o palavrão para significar uma coisa muito simples: "obras".
E fala-se por isso da "requalificação" de uma rua em vez de falar das "obras" na rua. Suponho que a origem é nacional, com a mudança de qualidade ("requalificação") de qualquer coisa porque nela foram feitas obras, ou qualquer tipo de arranjo.
"Resiliência" é a terceira.
Vem do inglês "resilience" e não significa mais do que "resistência" ou "capacidade de resistência". Não vejo vantagem nenhuma no seu uso e é mais uma manifestação de snobismo. "Resistência" deve ser chão de mais para quem acha fino ficar-se pela "resiliência".
Infelizmente, o uso de todas elas também revela dificuldades de raciocínio ou de vocabulário de quem as pronuncia ou escreve.
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A limitação castradora dos "thrillers" clericais


Onze anos antes de "O Código Da Vinci" o ser,
 já "O Quinto Evangelho" o era
 
Imaginemos que a sociedade humana, tal como a conhecemos, era composta por seres humanos possuidores de um factor de cura que os tornava imunes a qualquer tipo de agressão física como, por exemplo, a personagem de BD Wolverine, com a possibilidade extra de se regenerarem a partir de uma simples fragmento de ADN. Não haveria bala, lâmina afiada, explosão, veneno, pancada, fosse o que fosse, capaz de matar alguém.
E onde os seres humanos não pudessem ser mortos, morreria outro elemento da vida humana, o "thriller". O homicídio, o tabu supremo, desapareceria e, com ele, a literatura policial.
Porque ela nunca poderia viver de histórias em que uma pessoa fosse morta para depois regressar à vida, inviabilizando tudo, inclusivamente a descoberta do assassino, que o deixaria de ser.
Os "thrillers" históricos de temática clerical têm esse problema: qual é o mistério? Bom, verdadeiramente nenhum.
Os textos bíblicos, oficiais e apócrifos, e os textos sagrados de outras religiões já têm mistérios suficientes para construir histórias enigmáticas mas no domínio da ficção científica.
Esse foi um dos aspectos que mais me irritou quando li (em 2005 ou em 2006) "O Código Da Vinci": qual era o mistério em torno do Santo Graal que deveria esclarecer-se no fim da história? Nenhum. O Santo Graal existe ou não existe. E daqui não se pode sair.
O que pode ser interessante é imaginar uma origem extraterrestre, por exemplo. Mas isso já empurraria a história para o domínio da ficção científica.
O problema dos "thrillers" clericais é este: a sua limitação castradora de ficarem prisioneiros nos limites das convenções religiosas, das interpretações bíblicas (mas mais do Novo Testamento, mais "normalizado") às particularidades do Vaticano em versão Kremlin.
Os seus seguidores, que tiveram desde pequeninos alguma educação cristã, devem delirar com a sugestão de pecado que as especulações do género lhes trazem.
Tendo lido "O Código Da Vinci", traduzi um romance alemão interessante em 2007, intitulado "Das fünfte Evangelium", de Phillipp Vandenberg ("O Quinto Evangelho", ed. Quid Novi).
Publicado em 1993, "Das fünfte Evangelium" era demasiado parecido com "O Código Da Vinci" (que saiu em 1994). A literatura e a cultura alemãs são mal conhecidas fora da Alemanha e é natural que as semelhanças não tenham sido muito notadas.
E se não posso falar em plágio (compreendendo, coitados, que os autores do género também não têm muito por onde escolher), o caso de "Das fünfte Evangelium" só confirmou a péssima opinião que me deixou "O Código Da Vinci". E foi o suficiente para me vacinar contra o género e contra os imitadores de Dan Brown que pela sua vacuidade, verdade seja dita, também não consegue ser imitado senão por quem também nunca teve estilo.



A demanda do Santo Graal é muito mais interessante
quando é conduzida por Indiana Jones





sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"Gazeta das Caldas": o Acordo Ortográfico é mau, a asneira é que é boa (1)

 
A "Gazeta das Caldas" não gosta do Acordo Ortográfico e está no seu direito (e neste blogue também não é aplicado, já agora) mas, pelos vistos, também não gosta da língua portuguesa, nem da gramática, nem sequer do bom senso.
Na edição desta semana, aderiu à moda de os verbos reflexivos deixarem de usar o "se" (aplica-se o que aqui escrevi) e escreveu:
- "virou moda [um brasileirismo...] os comboios partirem atrasados porque têm de abastecer de combustível";
- "o comboio (...) pára para abastecer";
-"os comboios continuam a abastecer". 
Como se costumava dizer na escola, quem abastece... abastece alguma coisa; e, que se saiba, os comboios não têm mãozinhas para se irem abastecer de combustível sozinhos, embora até não fosse impossível usar "abastecer-se" nestas frases.
O mais correcto, e de acordo com o bom senso, seria usar a forma passiva, como (na primeira frase) "têm de ser abastecidos".
Porque o que fica é a ideia de que os comboios dessa coisa bizarra em que foi transformada a Linha do Oeste abastecem... alguém, ou outro veículo, de combustível ou outra coisa qualquer.
Mas talvez para a "Gazeta" esteja bem assim...

terça-feira, 24 de junho de 2014

Sábado, dia 28, às 16 horas, na Biblioteca Municipal de Caldas da Rainha






Neste sábado, dia 28 de Junho, às 16h00, na Biblioteca Municipal de Caldas da Rainha, apresentarei "Morte nas Trevas", o meu mais recente romance, e falarei dos meus livros.
A sessão é organizada pela Comunidade de Leitores e de Cinéfilos de Caldas da Rainha, com o apoio do blogue Crónicas de uma Leitora.
"Morte nas Trevas", o terceiro título da série "As investigações de Gabriel Ponte" passa-se na zona de Salir do Porto, no concelho de Caldas da Rainha, que adoptei como residência.
Está toda a gente convidada, incluindo quem não gosta do género (o "thriller")... nem do autor.









E que tal uma "Rota Criminal"? - sugere Cláudia Lé

"O Município de Caldas da Rainha bem que poderia promover o turismo naquela zona realizando um tour pelos diversos locais de assassinatos ocorridos nos livros deste autor! A Rota Criminal, terminando claro está, na já famosa Lagoa de Óbidos! O que acham?" - a sugestão é de Cláudia Lé, do blogue Crónicas de uma Leitora, que participou nesta sessão.
O relato de Cláudia Lé, a quem agradeço muito a participação, pode ser lido na íntegra aqui.
A fotografia foi cedida pela Biblioteca Municipal.




 
Cláudia Lé, Palmira Gaspar (Comunidade de Leitores e de Cinéfilos de Caldas da Rainha) e o autor



sexta-feira, 21 de março de 2014

Reflexões sobre a literatura "policial" (14): a viagem do leitor com o autor

O "policial" é um género literário conservador por excelência.
Ao contrário dos restantes géneros literários (e mesmo do fantástico onde, como escreveu Stephen King no seu primeiro ensaio, "Danse Macabre", o leitor espera ver restabelecida a ordem do universo no fim de cada história), as variantes são poucas. O tema central é sempre o mesmo e uma das mais velhas histórias da humanidade: A matou B e C descobre que foi A o homicida.
É também por isso que se pode dizer da literatura policial que ela é como uma viagem: o leitor quer ir do ponto de partida para o seu ponto de chegada numa estrada com algumas opções (desvios para descansar ou ver esta ou aquela paisagem, conhecer melhor esta povoação ou aquela, parar para comer, etc) mas sem grandes obstáculos.
Dessa viagem faz parte o diálogo intelectual com o autor e um jogo que, se for perfeito, incluirá pistas para o leitor poder acompanhar a própria viagem de C na busca de A.
A arte do autor consiste em criar variantes suficientemente aliciantes na narrativa e/ou inovar na sua estrutura sem afastar o leitor da estrada e sem o obrigar a seguir por desvios inusitados.
A vertente lúdica do "policial" assusta e enerva muita gente que, talvez por insegurança, se refugia às vezes no formalismo de outros géneros literários aos quais, e de pleno direito, se aplica a apreciação de Stephen King.

domingo, 9 de março de 2014

Reflexões sobre a literatura "policial" (13): o falso culpado e o falso inocente

A assassina B. A Polícia detém A, reúne as provas que mostram ser ele o assassino e (no caso português) o Ministério Público acusa A de assassínio de acordo com os preceitos legais. A é levado a julgamento. É declarado culpado... ou inocente. Esta é a situação da vida real.
Na ficção policial (consideremos a literatura e o cinema), como é que se transforma isto numa boa história?
Não há muito por onde escolher, segundo as regras do "thriller":
(a) a descrição pormenorizada e emocionante do julgamento, aceitando a bondade da acusação;
(b) a revelação, por uma nova investigação e recolha de provas, de que A estava inocente (é muito mais raro o contrário);
(c) introduzir uma reviravolta à vigésima quinta hora, onde fica demonstrado que o acusado é mesmo culpado - passado o julgamento (e transitado em julgado o acórdão, de tribunal colectivo, no caso português, embora ficcionalmente haja pouco tempo para os prazos processuais), ter A, que foi absolvido, a confessar ao advogado de defesa que afinal foi ele o assassino, ou a cometer uma distracção que leva o seu advogado de defesa a perceber isso mesmo: A matou, é culpado mas foi absolvido porque conseguiu arranjar maneira de o tribunal acreditar na sua inocência.
No caso do falso culpado e do falso inocente, a a tendência, à falta de melhor, é, repetindo as soluções se não há imaginação para mais, pôr-lhes roupagens bonitas ou diferentes. Perde-se a originalidade mas, claro, não há plágio. Será, mais bondosamente, uma espécie de "déja vu" literário. Quem não conhecer os antecedentes tende a ficar em estado de maravilhamento.
Em 1996 o filme "A Raiz do Medo" ("Primal Fear") definiu tudo o que havia para definir nesta matéria. Eu, como autor de "thrillers", nunca exploraria (nem explorarei) o tema do falso inocente, apesar de já pouca gente se lembrar do filme. 

domingo, 24 de novembro de 2013

O duplo homicídio quase perfeito... ligeiramente imperfeito

A morte de uma mulher em Telheiras, à porta de casa, e de um homem em Oeiras, no estacionamento de um centro comercial, ambos a tiro e com a mesma pistola e na mesma noite de Fevereiro de 2008, podia ter sido o homicídio perfeito - nada havia que ligasse as duas vítimas, nada havia de comum entre elas a não ser as balas, seria quase impossível encontrar o autor... se é que era a mesma pessoa. E a investigação, na prática, deve ter mesmo parado.
Foi quando o homicida agora se entregou, a braços com os remorsos e com a arma utilizada nos dois crimes, que o caso ficou explicado: matou num lado, foi matar no outro e, pelo caminho, ainda andou aos tiros na rua.
As duas vítimas estavam, como se costuma dizer, nos locais errados nos momentos errados. Foram aquelas como podiam ter sido outras.
Estas circunstâncias e a quase impossibilidade de os crimes serem explicados sem suspeito e sem a arma foram suficientemente interessantes para eu utilizar este duplo homicídio na "vida anterior" (às duas histórias) de duas personagens dos meus livros "Morte com Vista para o Mar" e "Morte na Arena". 
Na vida real, os homicídios raramente parecem depender das maquinações muito complexas que ainda fazem as delícias de alguns autores de "thrillers".
Acontecem num momento e os culpados, até então pessoas normalíssimas, acabam muitas vezes por se entregar. É menos aliciante mas... é a vida. E até pode ser um crime perfeito. Este duplo homicídio tê-lo-ia sido se o criminoso, um homem aparentemente normal com algumas perturbações psicológias não fosse, como dizer?, um homicida pouco convicto. 
Este tipo de crime não deixa, no entanto, de ser um dos domínios onde o "thriller" contemporâneo tem avançado: as motivações, a transformação individual, o que leva alguém a infringir o mandamento social, religioso e político que decreta o "não matarás", a passar essa "linha vermelha", porque é mesmo necessário para a sua sobrevivência, porque houve qualquer outra coisa que lhe limitou as inibições, porque é um risco que se justifica quando os fins podem ser tão aliciantes.
É uma vertente da ficção "policial" que hoje se vai afirmando cada vez mais, o que também só demonstra a vitalidade do género, tanto na literatura como na televisão e no cinema.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"As Cinquenta Sombras do Inspector Joel Franco"?...

Às vezes interrogo-me se não deveria ter tentado transformar a minha série Não Matarás ("A Cidade do Medo", "Vermelho da Cor do Sangue" e "Triângulo", 2010-2012) numa série porno-thriller (deve existir, com certeza) para excitar a editora Asa, tipo, sei lá, "As Cinquenta Sombras do inspector Joel Franco"... ou algo parecido.
Mas se o tivesse feito também não teria conhecido a Topseller (e as pessoas que nela trabalham, e que tão bem me acolheram), e não teria havido "Morte com Vista para o Mar", "Morte na Arena" e "Morte nas Trevas", pelo menos.
A vida tem destas coisas...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Wall of fame




Nove livros (e uma edição espanhola). O décimo, "Morte nas Trevas", sai na Primavera de 2014.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

A génese de "Morte na Arena" - os subterrâneos de Lisboa

 
A primeira vez que tive contacto directo com as ruínas romanas da Baixa de Lisboa foi quando visitei o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, no âmbito de uma reportagem sobre a Fundação BCP, julgo que em 2004.
O cenário era ideal para uma história de mistério com um toque de aventura e a conversa que tive no local, sobre os perigos que ameaça Lisboa a partir do subsolo, levaram-me a considerar a hipótese de utilizar a ideia. Parte dela materializou-se em "Ulianov e o Diabo" (publicado em 2006).
Por essa altura lancei-me a escrever uma história de ficção científica sobre Lisboa no futuro, com o seu centro histórico dominado por uma elite poderosa que fazia festas privadas muito... enfim, liberais. A história começou a parecer-me mais adequada a um filme-catástrofe (sobretudo pelo final previsto) do que para um livro e eu desisti dela, recuperando alguns dos seus elementos para "A Guerra de Gil" (2007) e para "A Cidade do Medo" (2010).
Quando, no início deste ano, "Morte com Vista para o Mar" entrou na sua fase final e a Topseller acolheu a ideia de anunciar logo a história que se seguiria, decidi que chegara o momento de dar vida à ideia de um mundo subterrâneo onde se podiam cometer impunemente alguns crimes.
Se o sem-abrigo conhecido por Diabo e a sua noção de um reino subterrâneo já vinha de "Ulianov e o Diabo", com uma alusão em "A Cidade do Medo", a ideia dos jogos romanos na arena subterrânea foi, finalmente, a concretização dessa minha inspiração inicial de há nove anos.
O cenário de "Morte na Arena" ficou assim criado.
Para a reprodução dos usos romanos (mais na perspectiva de "Roma" do que do "Spartacus" televisivo) eram necessárias figuras de autoridade. Como homens de leis, por exemplo.
E com isso entravam em cena os criminosos, partindo depois de uma simples constatação para explorar uma vertente política da problemática da Justiça que é pouco aludida...
 
 
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

"Morte com Vista para o Mar": a mão invisível




Quando há três meses, em Novembro do ano passado, foi posta em causa a continuação da série que tem por protagonista Joel Neto ("A Cidade do Medo", "Vermelho da Cor do Sangue" e "Triângulo", os três títulos da série "Não Matarás"), resolvi ir "aos mercados" com a história que nessa altura comecei a escrever com o título de "Crimes em Família", e que já tinha Gabriel Ponte e Patrícia Ponte por protagonistas, embora como pai e filha.
O meu primeiro contacto foi Manuel de Freitas (da editora 20|20), que acabara de lançar James Patterson e com quem troquei algumas impressões. Manuel de Freitas remeteu-me para Ana Afonso, a editora, a quem apresentei o meu projecto.
Numa conversa longa, Ana Afonso levantou duas dúvidas, fundadas, sobre o grau de parentesco dos dois protagonistas e sobre o título. Nessa altura alterei o grau de parentesco de Gabriel e de Patrícia (ex-cônjuges) e, com o tempo, percebi que a simples alteração desse paradigma permitia novas possibilidades de desenvolvimento de outros arcos narrativos na série que nasceria com este livro. O título foi alterado mais tarde.
Em Dezembro e Janeiro houve mais algumas trocas de impressões, abrindo-se então, e simpaticamente, outras portas. Mas a raiz estava lançada: se o futuro "Morte com Vista para o Mar" ia ganhar outra dinâmica era com base nessa primeira conversa. A resposta positiva veio um pouco mais tarde: Ana Afonso transmitiu-me o interesse da 20|20 e começámos quase imediatamente a trabalhar.
Desde muito cedo que percebi - sobretudo nas obras de alguns dos melhores autores - a importância dos editores (precisando: não das empresas que publicam mas dos seus quadros que trabalham com os autores na fase final dos seus livros). E percebi-o ainda melhor como autor e, com essa experiência, como leitor de muitas histórias reveladoras da falta dessa mão mais atenta.
O texto escrito beneficia sempre de uma última visão externa e o autor só fica mal se o que escreveu for mau.
O trabalho do editor, discreto mas fundamental, ajuda a melhorar o texto final e os leitores e os autores só ganham com isso.
"Morte com Vista para o Mar" beneficiou, desde o início, dessa mão invisível. O trabalho com Ana Afonso, num período recorde e na concretização rápida de uma decisão ponderadamente tomada, foi enriquecedor e agradável, pontuado pela atenção e pela ironia.
Todos os escritores precisam de um(a) editor(a) e eu posso dizer que tenho sido bafejado pela sorte.
Ana Afonso é a melhor editora que um projecto como este pode ter. As coisas são como são e estão bem assim.