Suponho que a lógica, no jornalismo nacional que ainda vai existindo, continuará a ser ainda esta: uma personalidade relevante é entrevistada para ser melhor apresentada ao público, para expor as suas ideias ou para desenvolvê-las ou para fazer uma declaração que tenha impacto na vida pública.
Depois, há uma passagem significativa do que diz a pessoa entrevistada que tem um destaque na primeira página, no caso da imprensa escrita. Esse destaque servirá para atrair a atenção do público para o que diz a pessoa levando à comprar de um exemplar do jornal por parte de quem quer saber mais. O domínio da primeira página é da direcção e/ou chefia, cargos que deverão ser preenchidos por alguém com experiência e autoridade bastantes para decidir de modo que favoreça a expansão do jornal (e a compra dos seus exemplares pelo público).
Isto é a teoria e era a prática noutros tempos. Talvez ainda seja. Mas os exemplos que a seguir cito sugerem que já não é bem assim. As primeiras páginas dão-nos uma frase da pessoa entrevistada, mas nem essa frase é relevante nem, sem apresentação dela, são relevantes a pessoa entrevistada e a entrevista.
Relativamente aos poucos exemplos que aqui juntei (e com uma excepção) não só não conheço as pessoas citadas como nem vejo qualquer interesse no destaque da primeira página nem tive vontade de comprar o jornal. E, por essa absoluta falta de interesse, também não fui tentar saber mais sobre as pessoas entrevistadas.
Vamos à matéria de facto.
Não sei quem é Paola d'Agostino. Pelo nome poderá ser italiana. E não sei o que haverá de relevante no facto de "nunca" ter pronunciado a palavra "mãe" em italiano. Deveria tê-lo feito? E porquê? E porque é que não a pronunciou?
Depreende-se que Isabel Zuaa é actriz. Falando por algum colectivo ou empregando o plural majestático, Zuua diz-nos "sabe muito sobre o branco". Neste caso, "o branco" será o conjuntos dos "brancos" (por oposição ao "negro") no nosso país, no nosso mundo ou algures, por oposição à humanidade que pode ser designada por "negra"? A fórmula "saber sobre" é curiosa. Quererá dizer "conhecer" ou tem outro significado qualquer? Não tive curiosidade em ir comprar o jornal para saber mais.
Não sei quem é Federica Mogherini. Nem sei qual é a relevância do "último período de multilateralismo funcional", que também não sei a que corresponde e que ela "viveu" em jeito de "passagem". Calculo que a família dela deva saber. Clandestino como é, em termos de vendas, o "Diário de Notícias" deve ter sido impresso nesse dia a pensar na família de Mogherini.
Sei que Maria de Medeiros é actriz, com o Google a dizer-nos que também é realizadora e cantora. Mas já não sei a que "estado de vulnerabilidade" é que ela se refere. Mental? Físico? Performativo? Não fiquei com interesse nenhum em saber a que "vulnerabilidade" ela se refere e qual é a relevância disso.
Teria sido interessante que a escritora Luísa Costa Gomes dissesse como fez o pedido ao ChatGPT e qual foi, na realidade, a reacção dessa aplicação informática (e como é que uma aplicação informática se "assusta"). É possível que isso conste da entrevista, que também não fui procurar. Talvez nela pudesse também encontrar uma explicação para a importância que o "Público" atribui ao tema.
Daniela Melo há de ser, decerto, uma personalidade importante em matéria de ciência política para o "DN" destacar a sua frase sobre os candidatos radicais que, não sei onde, poderão obrigar os partidos de não sei que país a "moldarem" a respectiva "mensagem" relativa às eleições presidenciais não sei de que país.
Haverá alguém interessado em comer Kelela e o R&B (será o nome completo?). Cuidado que, podendo ser "interessante", dá digestões difíceis!
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Eis um exemplo um pouco diferente. Tiago Rodrigues, que julgo ser encenador e cujos pais eu conheci (o pai era jornalista e a mãe era médica), diz uma coisa que é relevante, mas perigosa: o teatro e a dança (e o cinema ou as artes plásticas?) têm muita qualidade mas são "mal apoiados", supõe-se que pelo Estado.
Ou seja, a qualidade das artes dependerá, de forma quase automática, do apoio que tiver, do Estado ou de outras entidades, apoio esse que parece ser imprescindível. O que significa que, sem esse apoio, é difícil alcançar a qualidade.
Sendo, de certa forma, elogiosa a apreciação dos "mal apoiados" de qualidade, ela também é negativa para todos aqueles que, sem qualquer apoio (numa situação que nem sequer é a dos "mal apoiados"), conseguem chegar a patamares de qualidade. Não sendo uma vacuidade, o que o entrevistado diz já é suficientemente polémico para ter esse destaque de primeira página. Onde não devia morrer.
(Imagem de fonte aberta de acesso público.)