Deve existir, a funcionar em algum sítio de Lisboa ou do Porto, uma fábrica de ideias estúpidas. Quando se esgota uma, sai outra. Há sempre estúpidos que gostam de ideias estúpidas. E imprensa que, à míngua de outras coisas, engole e reproduz tudo sem cuidar de ver "prós" e "contras" e, já agora, a realidade.
Isto poderia explicar que tenha aparecido uma petição dirigida à Assembleia da República, neste momento com 138 apoiantes, a pedir que a carta de condução seja automaticamente interditada a quem fizer 75 anos.
Há mesmo quem, entre esses apoiantes, sugira que a carta de condução devia ser retirada no momento em que o seu detentor se reforma (sendo que, diz uma apoiante, a idade da reforma é aos 75 anos...). Há quem diga que, voluntariamente, deixou de conduzir automóveis aos 70 anos. E quem afiance que a culpa dos acidentes de viação é dos "reformados".
E aos 75 anos porquê? Porque quem diz "75" também pode dizer "70" (ou "69", sei lá...) ou "80" ou "65". E, já agora, dos muitos "observatórios" e "grupos de trabalho" e "peritos" e tal que vicejam por aí, haverá alguém que possa dizer, rigorosamente com base nas estatísticas reais (se existem...), quais são as idades mais "perigosas"?
Calculo que todos estes idiotas sejam de Lisboa ou do Porto, e que também pouco conheçam da realidade nacional.
Não devem saber que há pessoas a residir fora dos centros urbanos, onde não chegam transportes públicos (quando eles existem) que liguem as pequenas e médias cidades do interior e os seus arredores. Não devem saber que o isolamento dos idosos não se resolve com a sua ostracização absoluta, mas com apoio que as entidades públicas não asseguram. E não devem saber que muitas pessoas nessas circunstâncias não têm dinheiro para utilizar serviços de táxi. E que as deslocações que fazem não são de recreio, mas motivadas pelas necessidades mais básicas (comida, medicamentos, consultas médicas, etc.)
Há, e eu vejo-o bem no concelho do interior onde resido, pessoas idosas que, muito obviamente, não estão em condições de conduzirem veículos automóveis, situação agravada pelo estádio precários dos carros que ainda têm. Mas há, e eu também os vejo, pessoas idosas que sabem conduzir e que o fazem com segurança, e em circunstâncias normais e em circunstâncias extraordinárias. [Não querendo personalizar a questão, não invoco a minha experiência.]
É fácil dizer que os idosos entram em contramão em autoestradas de entradas deficientemente assinaladas, porque serão a maioria. Mas passar disso para a proibição etária que querem impor é de uma facilidade só explicável pela estupidez.
A renovação da carta de condução, de dois em dois anos a partir dos 70 anos, é, e todos o sabemos, uma anedota. Não há uma verificação rigorosa do estado de saúde de quem quer renovar a carta... mas, também, como é que isso pode ser feito num serviço nacional de saúde tão pobre? É estúpido, e imoral, pensar que retirar a carta de condução resolve um problema básico, mas discreto, do serviço nacional de saúde.
Por outro lado, não compreenderão, quem imaginou a coisa e quem a assina, o carácter pouco legal da medida que defendem? Em termos legais, seria uma espécie de eugenia social, não muito diferente da condenação às câmaras de gás dos indivíduos que o regime nacional-socialista, na Alemanha, impunha a cidadãos considerados inaptos para a sua sociedade.
Estas 138 criaturas são, além de idiotas, potenciais nazis.