sexta-feira, 22 de maio de 2026

Da modesta Longueira à inóspita Odemira, passando por Vila Nova de Milfontes em versão Algarve... com um desvio por Mirandela


Passei algumas férias de Verão em Vila Nova de Milfontes e guardei desta "terra das três mentiras" (não é vila, não é nova e não tem mil fontes...) boas recordações. 

Foi há mais de quarenta anos e em 1993 ainda regressei para uma visita breve, de trabalho: uma reportagem, para o "Diário de Notícias", sobre as escolas básicas isoladas no Alentejo, em especial na região de Odemira.

Numa nova visita ao litoral alentejano, reencontrei as vastas zonas de praia, visíveis nas duas margens do rio Mira e em plena costa, frequentadas ainda por poucos banhistas nos dias ventosos de Maio de há uma semana. A extensão de praia parece ter sido bem defendida, com os vários areais ligados entre si e nem uma escultura estrambólica e despropositada consegue desfear a paisagem da costa vicentina que se avista da ponta mais ocidental de Milfontes.

Mas basta voltarmos as costas ao mar ou atravessar a vila, quase uma odisseia em dia de pouco movimento de pessoas e veículos, para vermos como a paisagem se desequilibra. No horizonte acumulam-se casas, na sua maioria brancas, que não deixam de fazer lembrar as urbanizações exageradas do Algarve litoral (e de outras zonas de praia do País). Vila Nova de Milfontes, como sugerem as lojas de roupa de marca que se encontram junto a uma escola, deve ter-se transformado num centro urbano relevante. Talvez a gestão municipal evite desmandos urbanísticos, mas dificilmente conseguirá controlar a pressão dos veraneantes no Verão.


O casario ao fundo, o rio Mira à direita: Vila Nova de Milfontes ainda tem algum encanto




Uma escultura dispensável num dos miradouros naturais de Vila Nova de Milfontes.
Nem que fosse uma versão perfeita de Nyarlathotep!...


Vila Nova de Milfontes é, de certa forma, o extremo norte de um eixo turístico que forma uma zona de transição entre a costa alentejana chique de Porto Covo e de Melides e a costa ocidental do Algarve (o Barlavento), com um clima mais ameno do que o interior alentejano e águas mais frias do que o centro e o Sotavento do Algarve. No extremo sul fica Zambujeira do Mar e, a meio, Almograve e Longueira (onde ficámos), a cerca de onze quilómetros de Milfontes e a pouco mais de vinte de Zambujeira.

Se no meio é que está a virtude, digamos que a impressão que fica de Longueira e de Almograve é um pouco turva, por comparação não tanto com Milfontes (talvez o pólo mais desenvolvido) mas com Zambujeira do Mar, com mais movimento e mais comércio do que a Longueira, ou mesmo Almograve.

Em Almograve (a zola litoral) a oferta de praias é reduzida e está condicionada pelas escarpas que preenchem a costa para sul e para norte, numa paisagem que impressiona e que pode ser percorrida a pé e, em parte, de carro por estradas de terra. A costa é batida pelas ondas e as rochas mostram os sinais do desgaste causado pelo mar. É possível perder-nos na contemplação do poder do oceano, mais evidente aqui do que, por exemplo, na costa atlântica entre a Foz do Arelho e Salir do Porto, onde resido, e onde a vegetação esbate a visão das rochas. 

Almograve: uma costa talhada pelo mar


Longueira, por sua vez, não é mais do que uma estreita rua central. 

É nessa rua, sem passeios e com dois sentidos, que está tudo o que existe: a Mercearia d'Avó, que tem todos os produtos básicos e pão fresco, muito bom, que vem todos os dias de Zambujeira do Mar. É também aí que ficam dois restaurantes dignos de nota, o Josué e o João da Longueira. Há, mais discreta, i que, por analogia com outras povoações de maior dimensão, pode ser considerada uma zona residencial com pequenas moradias em banda, brancas e amarelas, ao longo de duas ruas. E foi aí, numa zona adjacente, que nos alojámos. 

Com a designação de Casa do Poço Azul (e apresentada como "Casa de campo em Odemira" no Airbnb), a casa onde ficámos revelou-se ampla, arejada, bem situada num espaço admiravelmente sossegado e com uma mais-valia extraordinária: um pátio exterior bem vedado (essencial para quem viaja com cães), resguardado e fresco (mas com sol de manhã) com um terraço que... nos levou a Mirandela (e à Vidigueira). Fica a recomendação para quem quiser aventurar-se por esta região.

O que me parece ser o défice turístico de Almograve e da Longueira reflecte-se na modesta oferta de restaurante. Nas ementas predominam os pratos de peixe grelhado e de mariscos e algumas carnes. No nosso registo ficaram, por ordem cronológica, o João da Longueira (duas visitas e, numa delas, uma sopa de peixe com fatias de pão alentejano e um sargo servido à parte), o Josué (duas visitas e, numa delas, um coelho muito bem frito), o Rocamar (no Cabo Sardão, onde comi uma açorda de bacalhau muito boa), o Mar Azul (em Almograve, onde se misturam especialidades asiáticas num serviço esforçado mas insatisfatório) e o Cova Funda (Almograve).

Se a restauração, apesar dos seus méritos, não entusiasmou, houve um pormenor compensatório. 

O nosso anfitrião e interlocutor, Miguel dos Santos, convidou-nos a provar um azeite disponível na casa e assim fizémos. Com queijos alentejanos disponíveis na Mercearia d'Avó, vinho branco da Vidigueira (da adega cooperativa, em boa lembrança de outros tempos), o pão da Zambujeira da Mar e o azeite para ir molhando o pão fizeram-se lanchinhos diários deliciosos e inspiradores. 


Pão, queijo e vinho (branco) alentejano e azeite de Mirandela




Se o pão, o queijo e o vinh0 eram do Alentejo, o azeite já não. Ainda há no Alentejo quem faça bom azeite em pequenas produções, mas este azeite é de Mirandela, numa exploração do próprio Miguel dos Santos, na Quinta Castelar. É um azeite, com a marca "Azeite dos Santos" excepcionalmente saboroso. Se o desvio por Mirandela, nesta altura, foi, naturalmente, virtual e pelo palato, a vontade de ir ao local, onde está a nascer mais um alojamento local (na Quinta Castelar), ficou já inscrita na minha agenda de viagens pelo País.



Uma "visita" a Mirandela no litoral alentejano



À margem do encanto da costa alentejana, retenho dois pormenores desta deslocação. 

Fui a Odemira... e saí do que me pareceu poder ser o caminho para o centro da vila mais depressa do que consegui entrar. O trânsito estava caótico e a viagem por estrada, para chegar à vila e depois para fugir de lá, foi um martírio causado por viaturas pesadas, talvez da própria Câmara Municipal, que, sem terem sinais de estarem envolvidos em qualquer obra de estrada, conseguiram causar engarrafamentos como há muito eu não encontrava. Fugimos do centro da vila para o que é apresentado como "praia fluvial" e a impressão não podia ser pior: a água (do rio Mira, calculo) estava espessa e de um verde acastanhado. Não sei quem quererá ir "fazer praia" num sítio destes.

O outro pormenor é o da paisagem humana. 

Pelo eixo Milfontes - Almograve - Zambujeira marcham sem cessar muitas dezenas de turistas estrangeiros, jovens e menos jovens, equipados para grandes e pequenas caminhadas, num movimento peripatético que parece contínuo. São quem mais enche os restaurantes do litoral e, ao vê-los sempre em movimento, fico a pensar que ainda andam à procura dos seus objectivos de viagem. 

E pelas ruas da Longueira, e arredores, circula uma nova população alentejana, de origem hindostânica. Calculo que tenha sido trazida pela oferta de trabalho da agricultura do litoral alentejano (que tem dado origem a notícias muito negativas para os empresários portugueses locais), acabando por fixar-se na região. 

Não é possível ignorar essa presença e fazê-lo não valoriza nem desvaloriza a existência destes novos alentejanos. Ajudarão, seguramente, o Alentejo a prosperar e substituirão os alentejanos que entretanto morreram ou se mudaram. O mundo moderno também se vai fazendo com estas migrações e é bom quando elas se processam pacificamente e com proveito para todos.





sábado, 16 de maio de 2026

Ler jornais já não é saber mais (261): histeria desbragada

A histeria é geral. Não há órgão de informação (sensacionalista", "de referência" ou outro, ou seja lá o que for) que não recorra ao verbo "disparar" para descrever um aumento de qualquer coisa, e de qualquer valor. Uma coisa aumentas 5 por cento? Dispara! Outra aumenta 100 por cento? Dispara! Não há critério, não há criatividade. Só há títulos histéricos.














































































































































(Imagens de fonte aberta de acesso público.)


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Patadas na língua, patadas no jornalismo (12): pandemia de asneiras




Sim: na CNN tuga escreveu-se mesmo "o general prusso" ("prussiano", em português). 





A CNN tuga escreve "Ren", mas é RAND.
Ignorância e/ou incapacidade de procurar e obter informações? 




 

"Arrasar com"?! Não, é só "arrasar".







Este "reduzir 'a zero'" da CNN tuga aplica-se à ajuda militar que Israel ainda vai receber dos EUA
 num período de dez anos ou a um período de aplicação "a zero" que se vai prolongar por dez anos?







Na CNN tuga: não é só a flagrante asneira relacionada com o substantivo "olhar" (não é "olhar a", mas sim "olhar para com" ou "para"), nem o facto de se deixar cair o "de" na frase, que seria a correcta, "imigração de que nós precisamos", mas o àmbito do "em segredo". A que parte da frase é que se aplica o "em segredo"?
E José Pacheco Pereira disse isto mesmo assim ou nem sabe que o fazem passar por verbalmente incapacitado?







Não é cultura, é incultura: no Centro Nacional de Cultura, o verbo "disseminar" (divulgar)
aparece transformado em "dessiminar".




À CNN tuga também já chegou o "dessiminar".
Como é que chega ao jornalismo gente que escreve desta maneira?!







Na RTP também não se sabe escrever "disseminar".






 


Mais asneiras com o carimbo da CNN tuga: escreve-se "de moto próprio" ou "por moto próprio". 
O útil dicionário on line Priberam, de consulta aberta, explica o que é o "mote".
A autora da asneira tem bacharelato, licenciatura e pós-graduação.










Na CNN tuga, invariavelmente. É pena que fiquemos sem saber se o curso é universitário.










Mais um vírus: a utilização de uma má tradução do inglês com um significado que não tem em português. Aqui é no "Jornal Económico" e onde se lê "negócios" deve ler-se "empresas".
É o que significa "businesses", em inglês.











Em inglês, "to go after" pode significar "perseguir". Mas, em português, "ir atrás" é mesmo ir atrás. Podemos supor, no primeiro exemplo, uma procissão em que Netanyahu e a Guarda Revolucionária do Irão vão marchando em fila indiana. E, no segundo, que o Governo está a espreitar por cima do ombro dos "imigrantes que não quer". Os dois casos são, claro, da CNN tuga.






Mais outra, da CNN tuga: a palavra inglesa "inventory" significa "reservas" ou "stock".
"Inventário" é coisa completamente diferente em português.












(Imagens de fonte aberta de acesso público.)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Carlos Brito, o eurocomunismo, o PCP, a "geringonça", as brumas da memória, a Rússia de Putin, os nazis "branqueados" de Kiev e a iliteracia que agrava a desinformação da comunicação social

 

Carlos Brito.

Comecemos por ele, nestas notas que devem ser de mais fácil leitura do que o título deste modesto post. Carlos Brito (1933 - 2026) era e não era do PCP. Nome destacado entre os dirigentes do PCP que emergiram da clandestinidade depois do 25 de Abril, tornou-se mais conhecido pelo seu trabalho como deputado. 

A visibilidade que ganhou tê-lo-á ajudado a afirmar-se como um dos militantes comunistas de primeiro plano que, a partir da queda do Muro de Berlim (em 1989), defenderam uma renovação política e, de certo modo, ideológica do partido. A ala "renovadora" entrou em choque com a direcção partidária onde Álvaro Cunhal continuou a ser influente até morrer, em 2005. Suspenso da sua actividade partidária em 2002, Carlos Brito, que era membro do Comité Central, declarou-se auto-suspenso no ano seguinte. E assim se manteve nos vinte e três anos seguintes.

A ala "renovadora", animada por muitos militantes que se foram afastando do PCP, não era um movimento homogéneo e nem todos se aproximaram do PS da "terceira via" de Guterres. Carlos Brito defendeu uma aproximação ao PS, e a outros sectores de esquerda, mas manteve a sua independência.



O eurocomunismo
de Jerónimo de Sousa

Carlos Brito talvez não andasse longe do movimento conhecido como "eurocomunismo" (onde se destacaram o espanhol Santiago Carrillo e o francês George Marchais), que ajudou a afundar diversos partidos comunistas por toda a Europa... incluindo em Portugal. Em 2015, com Jerónimo de Sousa à cabeça, na qualidade de secretário-geral que aplicou a doutrina eurocomunista sem a querer identificar, o PCP juntou-se ao PS e ao BE no malfado governo da "geringonça". Carlos Brito manteve-se auto-suspenso, mas não deixou de apoiar aquilo que os clássicos do marxismo-leninismo classificariam como uma "santa aliança". 

Carlos Brito não teria impedido o descalabro da "geringonça", o vampirismo do PS e o afundamento do PCP, mas teria, indubitavelmente, feito melhor figura do que Jerónimo de Sousa.

Na pequena polémica que rodeou a sua morte (com uma declaração do PCP que não terá sido feliz), estes pormenores (aqui resumidos) desaparecem nas brumas nevoentas da memória. Da memória política, da memória jornalística e da memória da população.

Este nevoeiro pesado, por onde emerge uma iliteracia que devia preocupar as pessoas que ainda são capazes de raciocinar, abate-se também sobre tudo o que diz respeito à Rússia e ao seu presidente, Vladimir Putin. 

A imprensa oficial apresenta o que, em tudo, parece ser uma agenda única sobre a crise ucraniana. 

A Rússia e Putin estão sempre mal. Ora são comunistas, ora não o são. Ora são fascistas, ora não o são. Não conseguem obter o controlo dos territórios russófonos da Ucrânia anterior a 2022, mas vão avançando sempre no terreno. Hão de chegar a Odessa (e, sabe-se lá, a Kiev) e a imprensa oficial ainda há de dizer que nada avançaram desde Fevereiro de 2022. Não conquistam cidades, mas elas já ficaram para trás. A economia está em desagregação, mas a Federação Russa continua pujante, económica, política e geoestrategicamente. E, nesse mês de 2022, não recuaram diante de Kiev porque Macron pediu a Putin que o fizesse para facilitar as negociações com o regime de Kiev, e não porque teriam percebido que não conseguiam conquistar a Ucrânia em "três dias", "boutade" de um chefe militar da NATO que é sempre giro atribuir a Putin.


A verdade
a que não temos direito

A extraordinária mistura de iliteracia e de desinformação, expressa com nuances pela imprensa oficial e pelas diversas camadas da "vox populi", tem a sua melhor representação nos comentários dos frequentadores do "Observador" feitos aos escritos de algumas figuras, que são quase todas abertamente favoráveis ao regime de Kiev. Para ler os escritos originais, é preciso assinar o dito órgão, mas os comentários, onde a asneira ferve, são de acesso livre. Quem gosta, há de atingir orgasmos mentais a lê-los. Alguns ressumam a ilusão militante.

E sobre a Ucrânia? Zelensky é um santo e está tudo dito. Os diversíssimos escândalos de corrupção? A predominância de sectores nazis nas estruturas civis e militares? Os desvios de dinheiro e de equipamento militar? A mobilização de homens à força bruta? A destruição do país? As operações mediáticas que não correspondem à dura realidade? Nada disto existe. Parece que ninguém consegue perceber que uma nação quase destruída e retalhada, desagregada por uma guerra que nunca vencerá, deve impor condições ao inimigo que a faz vergar.

Digamos, para retomar uma frase de campanha do extinto "o diário" (do PCP de Álvaro Cunhal e de Carlos Brito), que a "verdade" da actual comunicação social oficial, não é a verdade a que a população tem direito. Não é com ela que as brumas da iliteracia se dissiparão. É sempre mais fácil culpar "as redes sociais" pela desinformação que os próprios praticam. 

Carlos Brito também foi vítima dessa "verdade". Não penso que merecesse essa omissão.






terça-feira, 5 de maio de 2026

E o Prémio do Cagalhão vai... para a Tienda Animal









Foi em 2013 que tive o meu primeiro contacto com a empresa de venda on line Tienda Animal e por pouco tempo. O serviço, que me pareceu interessante, esbarrou numa distribuidora absolutamente incompetente chamada SEUR, que conseguiu transformar o prazo de entrega de 48 horas num período de espera de 96 horas. Sem que a Tienda Animal se incomodasse em resolver o problema.

Cortei, nessa altura, com a Tienda Animal, que reagiu, muito despreocupadamente, com a oferta de 5 euros na compra seguinte, oferta que recusei. Foi interessante verificar, no ano passado, que, nos seus anúncios on line, a Tienda Animal propagandeava um "descontão"... de 5 euros. Uma oferta magnânima, na realidade.

Não me livrei, infelizmente, da Tienda Animal, que enxameia o YouTube com os seus anúncios. São, todos eles, obras-primas de cretinice, e lamentavelmente frequentes. Não há, parece, algoritmo que consiga perceber que a minha rapidez a tocar no "ignorar" dos anúncios, deles e de outras empresas, significa que não quero ver esses anúncios.

Farto dos insistentes anúncios da Tienda Animal, atribuo-lhe hoje o Prémio do Cagalhão. Já o devia ter feito há mais tempo, na realidade.