quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Depois das eleições presidenciais: como Seguro e Ventura vão derrubar Montenegro




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O candidato presidencial António José Seguro venceu as eleições presidenciais. Tecnicamente. Porque, politicamente, quem ganhou foi o Partido Socialista, o partido que o novo Presidente da República temporariamente chefiou e de que é militante.

Dizem-nos que a decisão de este ex-secretário-geral do PS (que aqui apresentei) se candidatar à Presidência da República foi individual e pessoal. Nisso eu acredito, porque, por um lado, o candidato a candidato devia estar mais do que farto de gerir o seu modesto alojamento local e a sua pequena produção de vinho e de azeite e, por outro, o PS não tinha candidato. Mas uma coisa é a sua vontade e o resto é a concretização.

A certa altura há de ter havido um encontro, uma convergência e/ou um acerto de posições entre ele e o PS. Seguro e a direcção do PS (chefiada por um secretário-geral da mesma ala de Seguro, José Luís Carneiro) terão chegado a um entendimento. O PS dar-lhe-ia todo o apoio, ele seria o candidato do PS e ajudaria, pelo menos politicamente, o PS a partir de Belém. E pagaria, digamos assim, a factura que o PS lhe iria apresentar.

E a factura (da campanha e do apoio) existe. Pedro Costa, filho do ex-primeiro-ministro António Costa, que afastou e substituiu Seguro na chefia do PS, já veio recordar que a vitória de Seguro também é a do PS. Clarinho como água.





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António José Seguro pode fazer juras sem fim a acompanhar qualquer tipo de promessa que chefiará o Estado bem distante do PS. Mas não está em condições de fazê-lo e será interessante ver o que dizem, ou não, todos os eleitores do PSD e da Iniciativa Liberal que nele foram votar, alinhando na cruzada do “bom” contra os “maus”.

O PS, partido que mais tempo esteve no Governo desde 1976, é o partido que menos se contém quando lhe cheira a poder. É quem dispõe de uma maior clientela, das empresas às organizações sociais e culturais. E agora, com um pé no Palácio de Belém, já olha para as portas que se escancara,m para voltar a dominar o Estado e a tomar contas das chaves do cofre. Numa primeira fase, para mostrar bom comportamento, pode preferir a estabilidade. Mas, depois, irá pela instabilidade.


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Toda a gente faz a sua profissão de fé de que este novo Presidente da República será um factor de estabilidade.

Mas não vai ser. Não pode, não tem força para isso.

Porque quem tem força, e a sente, é o PS. O Governo do PSD (com o CDS) está debilitado. O caos do Serviço Nacional de Saúde e a incapacidade de responder à catástrofe causada por tempestades difíceis deixaram mal o governo a que preside Luís Montenegro. E a nova correlação de forças também o prejudica.

O primeiro-ministro precisava, até agora, de se entender com o PS ou com o Chega na Assembleia da República. Para gerir os assuntos do Estado e para evitar eleições. O PS tinha medo de ir a eleições, para não perder ainda mais. O Chega tinha medo de ir a eleições para não correr riscos.

Mas, agora, o PS sabe que não precisa de ter medo de eleições, porque a base eleitoral do seu candidato a Belém até pode ser transferida para si, para seu próprio proveito.

E o Chega também sabe que não precisa de ter medo de eleições graças ao bom resultado que André Ventura teve, com mais votos relativamente às eleições legislativas do ano passado.

É natural, nesta perspectiva, que o PS e o Chega não façam favores ao Governo do PSD. Apostarão no seu desgaste. Quererão, sem o dizerem, eleições antecipadas, não dando ao adversário os três anos e meio de legislatura sobrante que poderão ajudar o PSD a lamber as feridas e a recuperar algum apoio popular.


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O PS dispõe de duas vias para o fazer: por intermédio da Presidência da República (vejam-se, depois, as nomeações para Belém) e por meio de eleições. O Chega dispõe de uma só via: as eleições.

Porque, se pode dizer-se que André Ventura perdeu as eleições presidenciais, o certo é que só tecnicamente perdeu. Porque, politicamente, até ganhou com elas.

Anote-se no que escreveu o jornalista António José Vilela, num resumo rigoroso, aqui:

Se o Chega é André Ventura e se André Ventura é o Chega - algo que até os mais críticos dizem há anos -, então Ventura e o Chega conseguiram simplesmente isto a 8 de fevereiro de 2026: cerca de um em cada três votos de quem votou na 2.ª volta das presidenciais; quase 403 mil votos a mais da 1.ª para a 2.ª volta (ainda há concelhos, freguesias e consulados sem votação); quase 292 mil votos a mais em relação às legislativas de 2025; mais cerca de 1,2 milhões de votos do que nas Presidenciais de 2021; mais quase 560 mil votos do que nas legislativas de 2024; mais 1,3 milhões de votos em relação às legislativas de 2022; mais quase 1,7 milhões de votantes quando comparado com as legislativas de 2019, o ano da fundação do Chega.
Sem dogmas, se isto não é um percurso de enorme sucesso eleitoral (e de forte impacto político e social em Portugal), não sei o que será. Outro dado que convém ter em conta é que o Chega e a liderança de Ventura sujeitaram-se a oito diferentes eleições democráticas (autárquicas, legislativas e presidenciais, sem considerar as das regiões autónomas) e vão apenas para o 7.º ano no palco político. Ora, nesse período, o PS já vai no 3.º líder, tal como sucede com o BE e a IL, sendo que o PSD e o PCP estão na segunda dose das suas lideranças políticas.


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O cenário, a longo prazo, será uma espécie de 3.ª volta entre o PS (e Seguro) e Ventura. E o PSD cairá, com Montenegro.





(Imagem de fonte aberta de acesso público.)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Ler jornais já não é saber mais (252): histeria extrema

 


Quando se fala nos fenómenos meteorológicos "extremos", conviria reparar no histérico sensacionalismo "extremo" da imprensa (leiam na imagem os sucessivos títulos alarmistas da cnn tuga), das telervisões à Agatha Christie dos Rios Atmosféricos do "Observador".

Continuo a pensar que a imprudência extremista dos avisos coloridos da meteorologia oficial (da burocracia do IPMA e de entidades externas sem credibilidade) combinada com o sensacionalismo da imprensa assustam e insensibilizam muitas pessoas, desligando-as, em cenários de pesadelo, da realidade quotidiana das estações do ano e dos seus riscos, por diferentes que possam ir parecendo.





(Imagem de fontes abertas de acesso público.)

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O acto eleitoral não é adiado porque os políticos não querem

 

Fotografia de João Porfírio, no "Observador"



Admito que haja obstáculos legais, na Constituição e noutras leis, que impeçam, tecnicamente, o adiamento do acto eleitoral previsto para amanhã, domingo.

Mas acredito que, a haver uma convergência de vontades, e de vontade política, nesse sentido, seria encontrado um mecanismo que, politicamente, permitiria adiar o acto eleitoral. Nem que fosse, por absurdo, uma declaração unânime de todos os presidentes de câmaras nesse sentido, impedindo as eleições em todos os concelhos amanhã.

Não sei quantas pessoas estão, na vizinha região de Leiria e noutras, sem casa, sem telhado, sem água, sem comida. Sem transporte, sem meios de se deslocarem. Sabendo que, ao quererem deslocar-se, irão encontrar estradas bloqueadas ou mesmo destruídas. Serão cem pessoas? Dez? Mil? Duas? O número, neste caso, importa pouco.

Quando um dos dois candidatos presidenciais, o ainda Presidente da República, o Governo, os deputados, os partidos políticos e a vasta rede de políticos locais voltam costas a esta realidade e mantêm a aparência de uma normalidade inexistente para terem as eleições que legitimam o sistema, a imagem do Estado é a segunda vítima. A primeira é a população – os afectados, primeiro, e toda a gente depois, porque toda a gente pode ser vítima.

A resposta, de um povo consciente, seria a abstenção activa e militante. Mas o que vamos ver é como uma grande maioria vai votar. Sem, sequer, perceber a enorme contradição que é aceitar os avisos histéricos para “ficar em casa” e ignorá-los, para ir acariciar o ego dos políticos.







sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O meu voto contra o PS


Não vi em nenhum candidato à Presidência da República alguém com qualidades para o cargo. Nem, tão pouco, os respectivos programas.
 
Não fui, por isso, votar na 1.ª volta. E decidi que também não o faria na 2.ª, mesmo antes de restarem dois únicos candidatos: André Ventura e António José Seguro.

Mas o que tenho visto leva-me a mudar de opinião. Para mim, António José Seguro é a chave que em Belém vai abrir a porta do poder político ao PS das bancarrotas, do "processo Casa Pia", de José Sócrates, de António Costa e da "geringonça" e, assim que houver oportunidade, a regressar a São Bento.

Altero, portanto, a minha posição e vou votar na 2.ª volta. Em André Ventura e contra António José Seguro. Contra o PS.








quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Serra do Bouro: a história eterna de abandono e de desprezo… mesmo na desgraça


Excerto da notícia do "Jornal das Caldas" de 4 de Fevereiro (pode ser lida aqui):
a Serra do Bouro não existe



A Serra do Bouro não existe, para a Câmara Municipal de Caldas da Rainha e para a União de Freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro.

Mas esta região existe. Os seus habitantes também existem. E ficaram vários dias sem electricidade.





Imagem retirada da aplicação Google Earth


A Serra do Bouro é uma freguesia, ou ex-freguesia, de Caldas da Rainha que ocupa boa parte da orla atlântica deste concelho. Apesar do nome, a Serra do Bouro é uma extensão razoavelmente plana, e não tem habitações, que se conheçam, na sua área florestal.

Os dados colhidos da internet (a Câmara Municipal nada tem de concreto sobre as freguesias e o mesmo acontece com a União de Freguesias que abrange esta zona) indicam que tem uma área de 18 quilómetros quadrados e que em 2011 tinha 703 habitantes.

Com os óbitos de muitos idosos e a instalação de imigrantes europeus e americanos, é possível que a população seja, mais ou menos, a mesma. Apesar de haver pessoas que vivem sozinhas, muitas casas têm dois ou mais habitantes e, por isso, os 703 habitantes de 2011 não correspondem 703 habitações.

Isto significa que visitar cada uma destas habitações não é tarefa impossível, nem demorada. Requer paciência e determinação, mas, também, não é isso que se espera dos dirigentes municipais? É, mas não é o que aqui fazem.

Em Outubro de 2017 houve um incêndio que começou perto da Foz do Arelho e que percorreu grande parte da costa atlântica, com as chamas a serem impulsionadas por um vento forte de sul para norte, já na Serra do Bouro e a poucos quilómetros das habitações. Se o vento se voltasse para o interior, para leste, as chamas percorreriam os matos por limpar e muitas casas teriam sido destruídas. E teria havido mortes.

Nessa noite e nos dias seguintes não houve um dirigente municipal que viesse saber da população. Nem o presidente da Câmara Municipal nem o presidente da então Junta de Freguesia, recém-eleitos, demonstraram um mínimo de interesse pelos habitantes da Serra do Bouro. O então presidente da junta, uma nulidade política, ganhou um 2.º lugar na lista do PSD à Câmara Municipal, no passado mês de Outubro, por motivos que não consigo imaginar.

Há uma semana, a Serra do Bouro, como outras zonas do concelho de Caldas da Rainha (e de outras zonas do País) ficou sem electricidade, com postes e árvores quase destruídas. Foi na quarta-feira de madrugada.

A situação só ficou estabilizada quase uma semana depois. Os habitantes da Serra do Bouro viveram, de maneira diferente, este imenso apagão. Mas não acredito que alguém, pelo menos por aqui, se tenha sentido feliz no meio das trevas, em noites sucessivas de frio, de humidade e de chuva.

Alguns terão resolvido, sozinhos, este problema. Outros foram-se embora. Outros, ainda, terão tentado sobreviver. E mal. Como terão passado os idosos isolados, e empobrecidos, que aqui vivem? Não sei.

O que sei é que o padrão se repetiu: não houve um único dirigente da União de Freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro (uma junta de freguesia da capital do concelho que canibalizou a Serra do Bouro) e da Câmara Municipal de Caldas da Rainha que aqui viessem.



Imagem retirada da rede social Facebook



Muito concretamente, o Sr. Nuno Aleixo Santos, o arrogante presidente da União de Freguesias que vem para as festarolas mas não para o resto, não desceu ao terreno. Não veio falar com os residentes nesta “sua” freguesia. O máximo que fez roçou o ridículo: disse aos residentes que ligassem as casas com luz às casas com luz mediante uma extensão eléctrica e que, na dúvida, contactassem a e-Redes, o que, sendo difícil em situações normais, se revelou uma impossibilidade nesta situação.

É difícil ser-se mais desastrado, e mais arrogante. E mais ofensivo, tratando com desprezo as pessoas que devia representar e ouvir e, até, aquelas que, indo atrás da propaganda do partido unipessoal Vamos Mudar, lhe deram o voto e o alcandoraram a presidente da União de Freguesias.

O Sr. Nuno Aleixo Santos fez, claro, o que os outros fizeram: esteve-se nas tintas para o sofrimento, a ansiedade e o desespero das pessoas. Iam mudar, não iam?











terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Pensem lá nisto...


O exagero histérico dos "avisos" coloridos, replicados a esmo e de forma pornográfica por uma imprensa sensacionalista, não contribui para que a população se vá desinteressando desse tipo de alertas e da sua própria percepção dos riscos meteorológicos?








segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EDP/e-Redes - A Crónica das Trevas (129): a grande cagada


Na passada quarta-feira, acordei por volta das 5 horas da madrugada e reparei que estava tudo escuro. As luzes da iluminação pública tinham-se apagado e, dentro de casa, não havia interruptor que desse luz.

Através do Facebook fui sabendo que havia um apagão generalizado no concelho, em Caldas da Rainha e em zonas limítrofes, devido a uma tempestade de ventos arrasadores. Uma cadeira exterior, um vaso (que ficou de pé, mas noutro sítio) e um chapéu de sol caído foram, em minha casa, os sinais deixados pela tempestade.

O que mais me afectou foi a falta de electricidade. Mas acreditei que a situação se resolveria, porque a e-Redes, esse enigma, indicava constantemente que o “incidente” seria resolvido na hora seguinte: às 13h, às 14h, às 15h, etc. A cada telefonema, o “relógio” da e-Redes ia-se adiantando. Em matéria de respeito pelo cliente, enfim…

À tarde, doze horas depois da tempestade, vi nuns campos próximos uns funcionários de uma empresa que trabalha para a e-Redes a cortarem árvores que estavam encostadas aos cabos de electricidade. Disseram-me que a solução seria rápida… se não houvesse pior. Iam seguir as linhas de electricidade para norte.

Tiveram de passar quase 48 horas para que, na minha zona, começasse a haver electricidade, depois de duas deprimentes noites à luz das velas. Mas nesse momento já estávamos exilados, em casa de excelentes amigos, na vila nortenha de Esmoriz. E, ao cabo de vários dias, nem se pode dizer que a situação esteja estabilizada.

Quem segue este blogue (e quem não segue pode ver aqui um registo dos meus comentários), sabe que tenho monitorizado os apagões que se verificam na região onde resido (Serra do Bouro, Caldas da Rainha) e que me têm afectado. São frequentíssimos, sem razão aparente, deixando-me sempre a impressão de que há uma manifesta incapacidade de avaliação do estado das redes, por parte da dita e-Redes, o que permite esse sem-número de apagões. E, possivelmente, alguma negligência e falta de manutenção.

Agora, vão-me dizendo que os diversos “especialistas”, comentadores e conhecedores do assunto dizem isso mesmo nas televisões. Ainda bem.

Recordando-me desse abate de árvores que ameaçavam os cabos, só posso perguntar por que motivo é que a maravilhosa e-Redes não fez, ou faz, um levantamento rigoroso de todas as situações de perigo. Custa muito? Mas seria sempre melhor do que este apagão…

Se a e-Redes, agora a correr atrás do prejuízo com alguma arrogância, foi negligente, o que se poderá dizer do comportamento da União de Freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro e da Câmara Municipal de Caldas da Rainha?

Tal no como grande incêndio de 2017, os órgãos municipais (desculpem, mas tem de ser assim… para não ser pior) cagaram-se para a população.

Foi obsceno ver um comunicado da União de Freguesias a elogiar a e-Redes sem uma palavra para os habitantes da sua área rural (a Serra do Bouro). E só não digo que foi também obsceno ver como o Sr. Nuno Aleixo, presidente da União de Freguesias, não andou pelo terreno a inteirar-se da situação da população porque também não esperava que ele tivesse o discernimento para o fazer.

Lamentando o estado de destruição deixado pela tempestade, em que a e-Redes, o Governo e os órgãos municipais falharam estrondosamento, e onde os geradores atirados para a Ucrânia teriam feito falta, publico este registo pessoal do apagão da-Redes, com a devida comenda com que a mimoseio a propósito e, também, em grande estilo:


 










segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Um homem sem palavra: o telefonema que António José Seguro não me fez

Há cerca de vinte e sete anos, numa terça-feira de Abril de 1999, o então secretário de Estado António José Seguro prometeu que me telefonaria nessa semana. Não telefonou.

Quando, antes dessa data, fui jornalista, na área da política educativa, estava Seguro como chefe da Juventude Socialista (entre 1990 e 1994). Falei, várias vezes, com ministros e secretários de Estado da área da educação e com protagonistas partidários do sector. Mas não me recordo de ter tido alguma conversa relevante com o dirigente máximo da JS.

António José Seguro foi  isto, para mim: uma irrelevância, um homem sem palavra, e sem palavras. 

Mas foi coerente... no seu apagamento. Nunca mudou de rumo. Nunca fez ondas. Da JS passou para o Governo, nessa altura como uma espécie de delfim de António Guterres. Como secretário de Estado não se lhe conhece obra.

E o certo é que, talvez por haver na política algum horror ao vazio, Seguro acabou por chegar a secretário-geral do PS. Curiosamente, nunca reparou nas particularidades do "lifestyle" de José Sócrates, como nunca dera atenção a algumas particularidades do "processo Casa Pia", recusou-se a partilhar com Pedro Passos Coelho as dificuldades de aplicação do programa de resgate financeiro da "troika" e foi depois apeado, sem honra nem glória, por António Costa, obviamente mais esperto do que ele.

Saído da política, Seguro foi fazer de empresário na área do turismo. Bebi um vinho tinto dos que fazia uma empresa sua e era bom. Mas, também, soube-me a "poucochinho". Acho que não irei à procura desses vinhos. 

Talvez Seguro devesse ter-se ficado por essa actividade e aperfeiçoado a sua intervenção empresarial. Em querendo voltar à política, teria ficado bem como presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha (onde reside, com a empresária farmacêutica que é a sua mulher), o que teria evitado a morte do PS neste concelho e lhe teria dado alguma experiência política acrescida. Consta que insistiram com ele.

Dizem-nos que foi ele a tomar a decisão de se candidatar a Presidente da República, cuja 1.ª volta ganhou. Mas eu não acredito na espontaneidade da sua candidatura. Seguro não era, nem é, pessoa para se arriscar sem rede. E a rede foi, naturalmente, o melancólico estado do seu partido, o PS, que estava desesperado por não ter um candidato presidencial.

Pelas regras comuns da experiência, não posso deixar de acreditar que a sua candidatura foi negociada entre ele e o PS, e directamente com o seu secretário-geral, Carneiro. De outro modo, não se compreende o envolvimento do aparelho do PS na campanha e o modo como no PS se silenciaram reservas e dúvidas perante o político a que Costa colou o rótulo de “poucochinho”. De repente, o PS, todo ele, ganhou a possibilidade de chegar de novo ao poder. E, não é coisa pouca, a começar pela chefia do Estado.

É por isso que, recordando-me do submisso secretário de Estado de Guterres, me repugna uma candidatura como esta. 

Por outro lado, nada no currículo político de Seguro permite alimentar a expectativa de um exercício politicamente respeitável, responsável e frutuoso como Presidente da República. Seguro, como os candidatos da 1.ª volta (e como o seu adversário directo na 2.ª volta), não tem a experiência, a determinação e a iniciativa políticas que considero necessárias para a função. Como empresário não se notabilizou, como secretário-geral do PS foi um fracasso, como secretário de Estado não deixou nada que se visse, como secretário-geral da JS não influenciou políticas educativas ou de juventude. 

É talvez isso que explica que a sua campanha, uma verdadeira cruzada dos "bons" contra o "mau", seja feita não pela positiva, mas pela negativa, em função do outro. 

O que quer Seguro para o País? Não quer Ventura. O que quer Seguro fazer como Presidente da República? Não quer Ventura. O que querem os seus apoiantes para o País? Não querem Ventura. 

A política não pode ser uma cruzada, dos "bons" contra os "maus". Já tivemos essa experiência em Portugal: a União Nacional, de Salazar. Eram os "bons" contra os "maus", os da "oposição" e os "comunistas" e "subversivos".

Esta União Nacional de Seguro faz-me lembrar esses tempos. Com nuances: António José Seguro vai ser um Presidente da República como o foi Américo Thomaz, à espera de um presidente do Conselho de Ministros (como era designado, nessa altura, o primeiro-ministro) que mande mais do que ele, que seja algo como um novo Salazar que encabece o governo que Seguro e o seu PS se esforçarão por impor ao País depois de derrubado o actual governo de Montenegro. Talvez Costa, de novo, que há de saber fugir a tempo do "Titanic" que é a actual liderança política da União Europeia.


Uma grande dupla: Seguro como Presidente da República e Costa como primeiro-ministro. Como Thomaz e Salazar.


O unanimismo bovino, em especial na política, enoja-me. E este unanimismo, e aquilo que nele se esconde, enoja-me ainda mais.

Escrevi aqui, e assim fiz, que não votaria nestas eleições. Não fui votar na 1.ª volta. Mas quando olho para esta cruzada, para esta coligação dos ansiosos pela manutenção dos favores do Estado, fico com vontade de ir votar na 2.ª volta. Contra Seguro e contra o PS.

Como é que farei?





(Imagem de fonte aberta de acesso público.)





sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A nova União Nacional








António José Seguro vai ser o presidente Américo Thomaz da União Nacional do PS.

E o seu presidente do Conselho, o seu António de Oliveira Salazar, será António Costa, depois de sair pela porta baixa da chefia da União Europeia.

E Seguro só arrebitará se o seu António tiver também algum acidente que o faça sair de cena.


Um ilustre antecessor do candidato "moderado"