segunda-feira, 11 de maio de 2026

Carlos Brito, o eurocomunismo, o PCP, a "geringonça", as brumas da memória, a Rússia de Putin, os nazis "branqueados" de Kiev e a iliteracia que agrava a desinformação da comunicação social

 

Carlos Brito.

Comecemos por ele, nestas notas que devem ser de mais fácil leitura do que o título deste modesto post. Carlos Brito (1933 - 2026) era e não era do PCP. Nome destacado entre os dirigentes do PCP que emergiram da clandestinidade depois do 25 de Abril, tornou-se mais conhecido pelo seu trabalho como deputado. 

A visibilidade que ganhou tê-lo-á ajudado a afirmar-se como um dos militantes comunistas de primeiro plano que, a partir da queda do Muro de Berlim (em 1989), defenderam uma renovação política e, de certo modo, ideológica do partido. A ala "renovadora" entrou em choque com a direcção partidária onde Álvaro Cunhal continuou a ser influente até morrer, em 2005. Suspenso da sua actividade partidária em 2002, Carlos Brito, que era membro do Comité Central, declarou-se auto-suspenso no ano seguinte. E assim se manteve nos vinte e três anos seguintes.

A ala "renovadora", animada por muitos militantes que se foram afastando do PCP, não era um movimento homogéneo e nem todos se aproximaram do PS da "terceira via" de Guterres. Carlos Brito defendeu uma aproximação ao PS, e a outros sectores de esquerda, mas manteve a sua independência.



O eurocomunismo
de Jerónimo de Sousa

Carlos Brito talvez não andasse longe do movimento conhecido como "eurocomunismo" (onde se destacaram o espanhol Santiago Carrillo e o francês George Marchais), que ajudou a afundar diversos partidos comunistas por toda a Europa... incluindo em Portugal. Em 2015, com Jerónimo de Sousa à cabeça, na qualidade de secretário-geral que aplicou a doutrina eurocomunista sem a querer identificar, o PCP juntou-se ao PS e ao BE no malfado governo da "geringonça". Carlos Brito manteve-se auto-suspenso, mas não deixou de apoiar aquilo que os clássicos do marxismo-leninismo classificariam como uma "santa aliança". 

Carlos Brito não teria impedido o descalabro da "geringonça", o vampirismo do PS e o afundamento do PCP, mas teria, indubitavelmente, feito melhor figura do que Jerónimo de Sousa.

Na pequena polémica que rodeou a sua morte (com uma declaração do PCP que não terá sido feliz), estes pormenores (aqui resumidos) desaparecem nas brumas nevoentas da memória. Da memória política, da memória jornalística e da memória da população.

Este nevoeiro, por onde emerge uma iliteracia que devia preocupar as pessoas que ainda são capazes de raciocinar, abate-se sobre tudo o que diz respeito à Rússia e ao seu presidente, Vladimir Putin. 

A imprensa oficial apresenta o que, em tudo, parece ser uma agenda única sobre a crise ucraniana. 

A Rússia e Putin estão sempre mal. Ora são comunistas, ora não o são. Ora são fascistas, ora não o são. Não conseguem obter o controlo dos territórios russófonos da Ucrânia anterior a 2022, mas vão avançando sempre no terreno. Hão de chegar a Odessa (e, sabe-se lá, a Kiev) e a imprensa oficial ainda há de dizer que nada avançaram desde Fevereiro de 2022. Não conquistam cidades, mas elas já ficaram para trás. A economia está em desagregação, mas a Federação Russa continua pujante, económica, política e geoestrategicamente. E, nesse mês, não recuaram diante de Kiev porque Macron pediu a Putin que o fizesse para faciliar as negociações com o regime de Kiev, mas porque perceberam que não conseguiam conquistar a Ucrânia em "três dias", "boutade" de um chefe militar da NATO que parece ser giro atribuir a Putin.


A verdade
a que não temos direito

A extraordinária mistura de iliteracia e de desinformação, expressa com nuances pela imprensa oficial e pelas diversas camadas da "vox populi", tem a sua melhor representação nos comentários dos frequentadores do "Observador" aos esctritos de algumas figuras (que são quase todas, lá, convenhamos) abertamente favoráveis ao regime de Kiev. Para ler esses escritos, é preciso assinar o dito órgão, mas os comentários, onde a asneira ferve, são de acesso livre. Quem gosta, há de atingir orgasmos mentais a lê-los.

E sobre a Ucrânia? Zelensky é um santo e está tudo dito. Os diversíssimos escândalos de corrupção? A predominância de sectores nazis nas estruturas civis e militares? Os desvios de dinheiro e de equipamento militar? A mobilização de homens à força bruta? A destruição do país? As operações mediáticas que não correspondem à dura realidade? Nada disto existe. Parece que ninguém consegue perceber que uma nação quase destruída e retalhada, desagregada por uma guerra que nunca vencerá, deve entender-se com o seu inimigo quando está a perecer.

Digamos, para retomar uma frase de campanha do extinto "o diário" (do PCP de Álvaro Cunhal e de Carlos Brito), que a "verdade" da actual comunicação social oficial, não é a verdade a que a população tem direito. Não é com ela que as brumas da iliteracia se dissiparão. É sempre mais fácil culpar "as redes sociais" pela desinformação que os próprios praticam.






terça-feira, 5 de maio de 2026

E o Prémio do Cagalhão vai... para a Tienda Animal









Foi em 2013 que tive o meu primeiro contacto com a empresa de venda on line Tienda Animal e por pouco tempo. O serviço, que me pareceu interessante, esbarrou numa distribuidora absolutamente incompetente chamada SEUR, que conseguiu transformar o prazo de entrega de 48 horas num período de espera de 96 horas. Sem que a Tienda Animal se incomodasse em resolver o problema.

Cortei, nessa altura, com a Tienda Animal, que reagiu, muito despreocupadamente, com a oferta de 5 euros na compra seguinte, oferta que recusei. Foi interessante verificar, no ano passado, que, nos seus anúncios on line, a Tienda Animal propagandeava um "descontão"... de 5 euros. Uma oferta magnânima, na realidade.

Não me livrei, infelizmente, da Tienda Animal, que enxameia o YouTube com os seus anúncios. São, todos eles, obras-primas de cretinice, e lamentavelmente frequentes. Não há, parece, algoritmo que consiga perceber que a minha rapidez a tocar no "ignorar" dos anúncios, deles e de outras empresas, significa que não quero ver esses anúncios.

Farto dos insistentes anúncios da Tienda Animal, atribuo-lhe hoje o Prémio do Cagalhão. Já o devia ter feito há mais tempo, na realidade.





domingo, 3 de maio de 2026

Patadas na língua, patadas no jornalismo (11) ... e patadas na gramática



Eu posso estar enganado, mas acredito que não se encontrará na imprensa um único jornalista (latu sensu, numa perspectiva funcional, limitada aos órgãos de comunicação social e enquadrada pelos requisitos de titularidade da Carteira Profissional de Jornalista) que não seja licenciado. Ou seja: que seja possuidor de um diploma de aprovação num curso superior (universitário ou politécnico), onde entrou depois de ter obtido aprovação final na frequência dos ensinos básico e secundário.

E, nessa perspetiva, a que acresce a exposição pública (trata-se da escrita jornalística e não da escrita de ofícios ou de e-mails profissionais), devo supor que toda essa gente há de saber ler, escrever e contar.

Portanto, como é que se explicam tantos pontapés na gramática, sobretudo quando aquilo que é escrito deve ser revisto (pelo próprio, por um editor ou, na melhor das hipóteses, por um revisor profissional)?

Não sei. Mas registo alguns desses pontapés:



No "Correio da Manhã": ... "por ter sido dado à casa mais de 60 anos"?! 
Não encontro explicação para esta frase, por mais vezes que a leia.






Na CNN nacional: da "temperatura abaixar" à falta de vírgulas, passando pela desarticulação do texto ("o eclipse deste género"?!).







Na CNN nacional: o problema (gramatical) do plural.
Devia ser "vêm aí chuva e trovoada", porque são dois substantivos diferentes.





Na CNN nacional: faltam os dois pontos e devia ser "dissesse" e não "falasse".






Na CNN nacional: o eterno problema do plural.






Na CNN nacional: o problema do plural.







No "Diário de Notícias": o problema do plural.



No "Diário de Notícias": o verbo "esgotar", neste caso, é reflexivo ("esgotar-se").
Em português correcto: o "apoio à compra" esgota o quê?





No "Diário de Notícias": faltam uma vírgula e o "-se".







No "Jornal de Notícias": falta o "-se".








No "Nascer do Sol/Sol": não se percebe...





No "Público": ninguém sabe o que é o plural,
talvez pelo pouco pluralismo do diário da Sonae.












(Imagens de fonte aberta de acesso público.)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Ler jornais já não é saber mais (260): a falta de criatividade deu lugar à histeria


O recurso recorrente ao verbo "disparar" nos títulos das notícias, para indicar aumentos vistos como repentinos, descambou nas últimas semanas para uma utilização frenética e histérica do mesmo verbo que já nem respeita a lógica ou a racionalidade. 

E acredito que os exemplos que aqui apresento, mais uma vez, representam apenas uma parte desta histeria colectiva que é o triste retrato de um sector em crise absoluta, onde imperam criaturas, muitas vezes com cargos de chefia, com espírito de amanuense e não de jornalista.



































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(Imagens de fonte aberta de acesso público.)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quando o "press release" se sobrepõe ao raciocínio


Num lado estão os soldados ucranianos, no outro estão os soldados russos. Os ucranianos enviam drones terrestres (ou robôs, se quiserem) para a zona onde estão os russos. Estes percebem que não vale a pena disparar contra as máquinas, porque as máquinas não param, e recuam. 

Os ucranianos garantem que as suas máquinas conquistaram o terreno onde os russos estavam. As máquinas ficam no terreno. São, supõe-se, animadas por baterias. Se as baterias não forem recarregadas, acabam por se esgotar. E as máquinas param. Os russos podem regressar ao terreno.

Mas a "conquista" está feita? Claro que não.

O governo de Kiev apresenta este tipo de acção como uma grande vitória. Depois já não conta nada do que se vai passando. A sua propaganda faz a mesma coisa: propagandeia a grande vitória.

A imprensa dá notícia da grande vitória. E o público até acredita. 

A vitória não é a dos robôs guerreiros. É a vitória dos "press releases". Contra o raciocínio.






(Imagem de fonte aberta de acesso público.)

domingo, 26 de abril de 2026

A propósito de uma imagem obscena


E se, no fundo, tudo se resumir a um simples exercício de prazer comprado, com o dinheiro dos outros, por uma pessoa que, sem ser eleita, conseguiu subir ao topo da escala política, escapar ilesa por entre as suspeitas de irregularidades graves e acreditar que é ela que manda no mundo? 











(Imagem de fonte aberta de acesso público.)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O jornalismo "de causas" está à rasca



A imprensa oficial odeia Trump.

Por outro lado, apesar de os seus líderes "supremos" serem crentes em vários domínios (numa reversão filosófica que não deixa de ser interessante), também abomina um regime político teocrático e parlamentar como o do Irão, apesar de este ter uma base de apoio popular determinante.

E, por isso, ficou entalada na guerra lançada pelos EUA e por Israel contra o Irão.

O jornalismo "de causas" não sabe como lidar com um dilema tão terrível como este: sentindo-se sempre obrigado a "lutar" por uma "causa" ou por um símbolo ou ícone inspiradores e politicamente correctos, deixa ainda mais de pensar pela sua própria cabeça e não sabe o que há de fazer. Trump?! O Irão?! Que horror, o que há de escrever?! Quem é que há de apoiar?! Já não lhe ocorre que o jornalismo nem sempre precisa de jornalistas ansiosos por opinarem...

E há de ser por isto que o noticiário sobre a crise no Médio Oriente é tão exíguo em Portugal, esbatendo-se numa zona de sombra que, curiosamente, corresponde aos interesses da embaixada de Israel em Lisboa.









(Imagem de fonte aberta de acesso público.)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Patadas na língua, patadas no jornalismo (10): títulos estranhos

 

Convencionou-se, quando os jornais eram comprados por quem os queria ler, que os títulos de primeira página deviam ser sucintos, rapidamente compreensíveis e apelativos, para justificarem a compra.

A situação mudou e já poucos leitores de jornais devem restar que os comprem, movidos por alguma curiosidade pelo que possam ter lido nas primeiras páginas. Talvez a consciência desse fracasso económico justifique a negligência com que muitos títulos parecem ter sido concebidos. 

Negligência, ou pior, que depois se generaliza. 



Na CNN:










Quem escreve, não lê o que acabou de escrever; talvez não tenham revisores; 
talvez sejam mesmo assim, talvez pensem mesmo assim...








No "Diário de Notícias":




É preciso ler mais do que uma vez para perceber o significado de cada uma destas frases.








No "Jornal de Notícias":



O que é que foi "em tempo recorde"? A "recuperação" ou o furto?




No Observador:




Quais serão as qualificações das pessoas que escrevem frases tão estranhas como estas?






No "Público":

Nem uma vírgula?!







(Imagens de fonte aberta de acesso público.)