sábado, 31 de outubro de 2026

Caria, a História fechada entre ruínas





“Passear pelas ruas de Caria é passear pela história. Em Caria, em cada rua, em cada casa, é possível observar marcas deixadas por populações anteriores. São os brasões, as datas, os elementos arquitectónicos reutilizados, os grafitos que atestam a passagem dos soldados franceses em 1808 (…)”

Bem, na realidade, não é assim. E sei-o por experiência directa porque passei nesta vila, que é uma freguesia do concelho de Belmonte, quase uma semana. A imagem idílica que estas palavras sugerem não é real. Ou já não é real. E é pena. Porque Caria até é uma vila simpática.

As palavras que citei foram retiradas de uma espécie de guia, da responsabilidade da Junta de Freguesia de Caria. O guia tem um mapa da vila bem concebido, com algumas indicações úteis, e indica alguns espaços de interesse histórico e documental como a Casa da Torre – Centro de Estudos Arqueológicos, a Casa da Roda e a Casa Etnográfica (quase sempre fechada). O guia é completado pelo site, também muito informativo, da Junta de Freguesia, que inclui elementos estatísticos relevantes.

Por eles ficamos a saber que Caria tem uma área geográfica de 39.03 quilómetros quadrados, 1744 habitantes, 947 agregados familiares e 1951 “fogos – habitação”. Dos 1744 habitantes (o número é dos Censos de 2021), 301 são jovens até aos 24 anos. Acredito, sem ter ido à procura, que a maioria da população há de ter uma idade bastante mais avançada. É pena que esse pormenor não esteja aqui citado.

O optimismo da Junta de Freguesia não é coisa que o visitante ocasional de Caria consiga compreender. 

Tendo ficado alojado numa casa de alojamento local no que pode ser considerado o centro histórico, tive oportunidade para, várias vezes por dia, “passear pelas ruas de Caria”. E o resultado não me entusiasmou.








A casa onde fiquei (com a designação de Cantinho de Caria, via airbnb) manteve a traça original e as pedras bem espessas e foi objecto de uma remodelação que a tornou confortável e acolhedora. 

Não será caso único, calculo, mas rodeiam-na casas que terão sido apenas objecto de obras mais práticas e visualmente menos atraentes e, sobretudo, um impressionante número de casas em ruínas, degradadas pelo tempo, pela desinteresse ou pela incapacidade dos seus proprietários, num sítio que, sendo rico em História, é pobre, social e economicamente. A impressão que fica, numa zona onde parece haver mais gatos do que pessoas, é de melancolia.

Aliás, durante o dia quase nem vi pessoas, sendo mais frequentemente encontrar os seus residentes de manhã cedo, entre as 7 e as 8 horas, ou depois a partir do final da tarde. Pode supor-se que a população activa que ainda mora no centro sai para trabalhar fora da vila.

Caria terá todos os elementos necessários para poder ser uma interessante vila de perfil medieval, com as suas casas de granito e as suas ruas de grandes pedras. Mas precisará de mais alguma coisa para o poder ser-

Na vila há quatro ou cinco restaurantes que parecem viver, ou sobreviver, graças às pessoas que passam pela vila ou que trabalham na vila ou nos arredores. Têm o mínimo indispensável (frango ou entremeada) e, ao almoço, parecem ter comida “de tacho”. À noite, para os que insistem em ficar abertos, será uma sorte se conseguirem ter clientes. Fui ao Mira Serra e ao Carrocel e, sem entusiasmo, dei-me por satisfeito. Nos arredores, acessível só de carro, há o Bebiana, mais caro e mais criativo e, mais longe, mas também convidativo, O Bernardo.

Uma mercearia acanhada, um “mini-mercado” pouco interessante, um talho de oferta modesta (mas com alheiras e morcelas que recomendo), uma papelaria (que parece servir vários fins comerciais), duas padarias e, vá lá, um multibanco são os serviços básicos à disposição de residentes e visitantes. Mas a procura também será reduzida.

E será esta reduzida afluência de público que explica a diferença entre os equipamentos “históricos”, que revelam algum investimento, e a sua acessibilidade?

A igreja, o cemitério, a construção imponente da Casa da Torre – Centro de Estudos Arqueológicos e a Casa Etnográfica são interessantes… mas, entre um extremo e outro, a igreja é mantida fechada e a Casa Etnográfica (com um espaço exterior bem concebido, mas degradado) nem respeita o horário de abertura. 



Na zona da Casa Etnográfica: uma boa ideia sem manutenção


A História, digamos assim, está “fechada”. E mal cuidada, afinal. 

Como, aliás, também se vê na sede do concelho, que é Belmonte. O imponente castelo implantado num espaço igualmente bem concebido e até bem mantido, está fechado ao visitante ocasional.


Castelo de Belmonte: fechado


Acredito que seja difícil aos poderes públicos manter estes espaços abertos e acessíveis e que talvez não haja tantos visitantes que justifiquem o investimento. Mas se esse esforço não existir… também não será possível atrair visitantes, tanto turistas nacionais como estrangeiros.

Neste breve apontamento de viagem, e passando do factor histórico para a gastronomia, há nos arredores de Caria dois motivos suplementares de interesse: a Quinta dos Termos, que tem uma vasta produção vinícola de grande qualidade e com preços razoáveis (mas sem provas disponíveis para o comprador que lá se desloque), e o Museu do Queijo, interessante pela recriação do processo de fabrico e com venda de alguns queijos da região, em Peraboa, a cerca de seis quilómetros de Caria. Mas, como é tradição nacional, são insuficientes as indicações nas estradas para lá chegar, tanto num caso como no outro. 



"Grounding" em Caria, com Alex














quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ler jornais já não é saber mais (269): títulos que são sintomas


Haverá alguém, sem limitações de idade ou de condições mentais, que acredite que estes títulos fazem com que os jornais se vendam mais?







A mãe foi cúmplice do/da jovem no abuso sexual do padrasto?

A mãe foi cúmplice do padrasto no abuso sexual do/da jovem?



*


Não sei quem é esta senhora, e não vou comprar o jornal para saber. 

Será uma personalidade das ciências médicas capaz de explicar "estados de alma"? 

Ou será uma personalidade dos meios culturais a expressar uma opinião pessoal, mais ou menos filosófica?








(Imagens de fontes abertas de acesso público.)

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Porque é que não nos dizem o que realmente aconteceu entre a Conceição e o Vítor?

Conceição Henriques, quando os seus "amanhãs que cantam" estavam no Vamos Mudar


Parece que tudo começou às 2h47 do passado dia 10 de Outubro quando Conceição recebeu uma mensagem por WhatsApp em que Vítor a convocava para uma reunião nesse mesmo dia, sábado. 

Foi nessa altura que Conceição Henriques, vereadora da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, terá sido informada por Vítor Marques, presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, de que ficava sem os seus pelouros. "Andas por aqui a arrastar-te", terá dito Vítor a Conceição. Ausente do País, parece que ainda em representação do município, a vereadora foi publicamente afastada na reunião da câmara no dia 12.

O que levou a essa decisão, mais de duas semanas depois, continua a ser um enigma que ninguém explica. 

Das notícias do "Jornal das Caldas" e da "Gazeta das Caldas" só se consegue inferir que o presidente da câmara não estava a gostar do trabalho da vereadora, depois de quatro anos no primeiro mandato e, agora, depois de apenas um ano desde a eleição de Outubro de 2025. Mas por que motivo?



Os títulos do "Jornal das Caldas" e da "Gazeta das Caldas" nas notícias desenvolvidas que publicaram (e que podem ser lidas nos links indicados acima)

Quando informou a Câmara Municipal da sua decisão a respeito da vereadora e depois num comunicado, o presidente não entrou em pormenores, limitando-se a sugerir a existência de um problema funcional. 

Por seu turno, a vereadora (agora sem pelouros) reagiu, com uma intervenção pública extensa em que se mostrou ressentida com o comportamento (funcional) do presidente da câmara, também sem adiantar muitas críticas ou explicações. Embora, a certa altura, tenha criticado especificamente a "opacidade", segundo a mesma notícia do "Jornal das Caldas": "(...) Em relação à opacidade, disse que 'muitas vezes há uma tentativa de não apresentar informação a tempo'. Depois acrescentou que 'enquanto estive daquele lado [do executivo] não podia dizer isso, mas hoje posso'. (...)" 

Declarando que sai do Vamos Mudar, Conceição Henriques não se referiu aos pontos programáticos, ou apenas de retórica, com que o Vamos Mudar se apresentara às eleições de Outubro do ano passado. Esta omissão só pode significar que não terão sido divergências políticas que estiveram na origem do desaguisado entre Conceição e Vítor.

E, no entanto, a ruptura não pode deixar de ter óbvias consequências políticas.

Vítor Marques era, e é, o chefe (e o criador) do Vamos Mudar. O seu número dois, que continua como vice-presidente da câmara, é Joaquim Beato. E o número três era Conceição Henriques. O Vamos Mudar tinha, na câmara, três lugares. Com Conceição Henriques como vereadora independente, passa a ter dois lugares. O PSD mantém três lugares e o Chega um. Portanto, de um momento para o outro, o Vamos Mudar (que ganhou as eleições) fica em minoria na câmara. 

Vítor Marques e o Vamos Mudar não perderam, verdadeiramente, a legitimidade política que ganharam com a vitória manca de Outubro do ano passado. Mas o certo é que, em termos práticos, a situação alterou-se agora e o Vamos Mudar poderá já não estar em condições de aplicar o programa com que foi eleito. E, por outro, digamos que é pouco ético querer manter a situação como se nada se tivesse alterado.

Portanto, a situação não está esclarecida. E as dúvidas agravam-se, se tomarmos em conta um pormenor bizarro: ainda mal se sabia que Vítor Marques afastara Conceição Henriques e já Conceição Henriques desaparecia do Facebook. O seu perfil, preenchido com dezenas de posts, até com forte grau de emoção, sobre o Vamos Mudar e Vítor Marques, já não existe desde essa altura. Como se Conceição quisesse renegar tudo o que escrevera. Ou como se sentisse agora algum acanhamento relativamente a tudo isso.

O que faz pensar que os verdadeiros motivos da ruptura não serão funcionais ou políticos, mas muito pessoais e, por isso, envoltos neste silêncio estranho. E se são muito pessoais, e íntimos, impossibilitando por agora o escrutínio das consequências funcionais e políticas, bem podemos terminar, nesta altura, com uma citação do escritor inglês William Congreve (1670 - 1729): "Não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio, nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada."


Vítor Marques e Conceição Henriques


Vítor Marques e Teresa Xavier, sua mulher








(Imagens de fontes abertas de acesso público.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O monstro que o "Público" quer na primeira página

 


Isto, na primeira página do "Público", hoje, é deonestamente ridículo.

Indicar um "estudo" sem pai nem mãe visíveis, numa situação em que há "estudos" para todos os gostos e a que os jornalistas reverenciam sem critério, é pior do que um simples acto de desonestidade intelectual.


*

E se é necessário dizê-lo, à atenção dos polícias do pensamento que vivem do "saudosismo" e da "nostalgia" da PIDE e de outros filhos da puta similares: não sou eleitor, militante, dirigente ou simpatizante do Chega. Nem "saudosista" ou "nostálgico" do Estado Novo.









(Imagem de fontes abertas de acesso público.)

sábado, 24 de outubro de 2026

Sobre a eterna estupidez da "mudança da hora"


Estou fartinho da treta contra-natura da mudança da hora e da triste mansidão com que esta merda é generalizamente aceite pelos políticos cobardes, pela imprensa submissa e pela população subjugada aos lugares-comuns!















sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Conversa de merda


Quando o tabloide inglês "Daily Mail" garante que há "agentes russos" a defecarem nas casas de políticos finlandeses, está bem explicada a conversa de merda sobre a "guerra híbrida" da Rússia!







(Imagem de fontes abertas de acesso público.)

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A literatura e o cinema


"A literatura estimula-nos a vermos; o cinema não nos permite outra opção" (no original, "Writing urges you to see; movie leaves you no choice").

A frase é do crítico de cinema David Thompson, num livro magistral que escreveu sobre a história do cinema, "A Sudden Flicker of Light - A Revisionist History of the Movies", que todos os cinéfilos deviam ler. Mas não em português, porque não me parece que venha a ser publicado em Portugal.










domingo, 18 de outubro de 2026

Serviços mínimos?...

 



Conta-nos o "Jornal de Notícias", hoje, que a Polícia Judiciária apanha, "todos os meses", um número redondo de "criminosos estrangeiros escondidos em Portugal": vinte (20).

Lê-se isto e dá vontade de perguntar se a PJ não podia esforçar-se um pouco mais e apanhar mais do que 20 criminosos por mês? Ou se a PJ tem alguma quota a cumprir e têm de ser mesmo 20 por mês?! Ou se são serviços mínimos em que a PJ pára, quando chega aos 20 num mês?...






(Imagem de fontes abertas de acesso público.)


sábado, 17 de outubro de 2026

A nova arma da "guerra híbrida"...

 ... são os peidos.

Os russos são, realmente, um perigo terrível!










(Imagem de fontes abertas de acesso público.)



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

"Cherchez la femme"


A zanga entre o presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, Vítor Marques, e a sua vereadora Conceição Henriques (a quem retirou os pelouros) parece ser de explicação problemática, como se estivessem em jogo mais emoções do que política.

O presidente da câmara não se pronuncia e Conceição Henriques "desapareceu" do Facebook, levando com ela as dezenas de posts em que declarava a sua ilimitada devoção ao chefe.


Conceição Henriques


Vítor Marques








(Imagens de fontes abertas de acesso público.)