terça-feira, 10 de março de 2026

De regresso ao Fantasporto


E, mais uma vez, voltei ao Festival Internacional de Cinema do Porto (Fantasporto, 46.ª edição). Apesar das dificuldades materiais e apesar de estar numa espécie de gueto chique (o novo-rico Batalha Centro de Cinema), o Fantasporto continua a ser um acontecimento dinâmico, sempre dirigido com entusiasmo pelos meus amigos Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira.

Por ser membro do júri da secção oficial (cinema fantástico, com 40 longas-metragens e curtas-metragens), estive mais limitado nos filmes que pude ver, mas retive a impressão de que a qualidade média das muitas dezenas de filmes exibidos este ano, entre os dias 26 de Fevereiro e 8 de Março, aumentou, relativamente aos dois anos anteriores.

Deles saliento, em especial, quatro longas-metragens, três a concurso e uma que foi uma revelação, e uma divertida curta-metragem. Pode ser que algum destes filmes encontre espaço em Portugal onde fique acessível ao público.




"Encantador"/"The Dollmaker", de José Maria Cicala (Argentina), ganhou merecidamente o Grande Prémio do júri internacional. É a história de um "serial killer", com bem imaginadas surpresas na narrativa e um protagonista perfeito (Rodrigo Noya, que recebeu o prémio de Melhor Actor). Tive o gosto de entregar o prémio ao representante da empresa distribuidora do filme, a Jinga Films, de Londres, na cerimónia de encerramento do festival no palco do Batalha.










"Volja sinovljeva" ("Sword of Vengeance" na versão inglesa, vinte minutos mais curta do que a sua versão original), de Nemanja Ćeranić, chegou-nos da Sérvia fora de competição e revelou-se uma obra de ficção cientifica, talvez mais na vertente "science fantasy", tecnicamente irrepreensível, com valores de produção muito sólidos. Foi uma surpresa, mas convirá não esquecer que a antiga Jugoslávia, de onde a Sérvia "nasceu", tinha já uma cinematografia de peso. Talvez devesse ter entrado na secção oficial (cinema fantástico).





"Skeleton Girls - A Kidnapped Society", de Richard Eames (Austrália), ganhou o Prémio Especial na secão oficial e com inteira justeza. A imaginação e o recurso a várias técnicas disfarçam uma aparente escassez de meios e o filme é um adequado grito de revolta contra as restrições à democracia que, na Austrália, começaram a nascer com a pandemia do SARS-CoV-2/covid19 e de que a elite política do Ocidente parece gostar quando tem de enfrentar opiniões e tendências que acha "subversivas".







O cinema japonês tem tido uma presença constante e assinalável no Fantasporto e "The Curse", de Kenichi Ugana, impôs-se na edição deste ano, com um começo de arrasar e um final muito movimentado. O argumento não é original, mas a história está muito bem contada. Teve a Menção Especial do júri do cinema fantástico como exemplo de uma história que respeita, com eficácia, todos os padrões do género sem deixar de impressionar.





As muitas curtas-metragens apresentadas revelaram um problema quase comum: bem executadas, com tempos de duração muito diferentes, acabavam por ficar reduzidas a uma visão fragmentária, como se fossem apenas capítulos ou episódios de história mais longas. "Pobre Marciano", de Alex Rey (Espanha), que não teve direito a prémio, passou ao lado desse problema com a história sarcástica e hilariante do introvertido Pepe Marciano que dispõe de um método recorrente para se sentir feliz e que se alia aos marcianos, com quem destroi a Terra. São sete minutos e vinte e sete segundos brilhantes.


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Nesta edição do Fantasporto juntei-me, de novo, à secção Movie Talks para, na companhia de Pedro Gil de Vasconcelos, falar da crítica de cinema e explicar por que motivo é que, tendo feito crítica de cinema, continuei a gostar de histórias filmadas. Na ocasião, evoquei dois críticos de cinema, já desaparecidos, que sabiam do que falavam e que também gostavam de cinema: Manuel Cintra Ferreira e Manuel Pereira.













(Imagens de fonte aberta de acesso público. Fotografias, no Fantasporto, de André Rocha.)


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