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sábado, 2 de abril de 2016

House of Costa


Quando o PS, o PCP e o BE fizeram o golpe de Estado parlamentar que lhes permitiu formarem um governo alternativo ao da coligação que vencera as eleições legislativas, não faltou quem invocasse “Borgen”, a série televisiva dinamarquesa em que a criadora de um partido alternativo consegue chegar ao governo da nação.
Mas o padrão para a forma como nasce, e funciona o actual Governo, o da “geringonça”, tem mais a ver com a série americana “House of Cards”. Nesta série conta-se como o equivalente ao presidente do grupo parlamentar das democracias europeias, o “party whip” do Partido Democrático norte-americano, consegue – à custa das mais variadas negociações, maquinações, traições, tráficos de influências, corrupções e mesmo crimes de morte – chegar a vice-presidente e depois a presidente dos EUA.
Frank Underwood, o nome desta versão de Macbeth com um doutoramento em Ciência Política e especializações em “Os Doze Césares” e “O Príncipe”, a que dá corpo e rosto o actor Kevin Spacey, é um retrato exemplar do que podem fazer os políticos habilidosos e sem escrúpulos quando a democracia e os seus princípios e instituições falham e eles se movem por uma sede absoluta de poder absoluto.
António Costa, o primeiro-ministro triunfante, é uma espécie de clone de Frank Underwood, à escala portuguesa. Conquistou o poder de uma maneira parlamentarmente sórdida e mantém o lugar graças – pelo menos no que é visível – ao apoio de um BE e de um PCP que, famintos de poder, mergulharam com alegria naquilo a que a doutrina marxista-leninista definiu como “oportunismo de direita”.
Basta, aliás, ver como a aliança do PS com o BE e o PCP funciona quando os seus chefes vislumbram algum perigo no horizonte. Os compromissos anteriores não existem, aguenta-se tudo e diz-se o que for preciso e o seu oposto.
É isso que torna tão difícil a tarefa dos partidos da oposição.
Se estes cumprirem os formalismos da democracia parlamentar e se respeitarem os princípios básicos da lealdade democrática, terão sempre pela frente uma aliança feita de oportunismo e de fome de poder absoluto que quer sobreviver a todo o custo.
O Governo pode, é certo, cair por um acaso, por um revés das circunstâncias económicas e financeiras, pelo resultado das eleições autárquicas (aconteceu com os primeiros-ministros Pinto Balsemão e António Guterres). Mas combatê-lo diariamente, o que é necessário, e derrubá-lo o mais depressa possível,, o que é igualmente necessário, pode exigir que, como o Underwood português, se deite mão de outros recursos.
Frank Underwood é uma personagem de ficção. Kevin Spacey é um ator fantástico e as suas interpretações em “Os Suspeitos do Costume” e “American Beauty” são memoráveis. Por isso, “House of Cards” é uma série extraordinária.
Ao contrário, a bem real “House of Costa” não é. É apenas um momento insuportável da democracia portuguesa que provavelmente não sobreviverá ao projecto de poder absoluto de António Costa se este se eternizar. 


domingo, 13 de março de 2016

"Manual do Assassínio Político" on line na íntegra

 
A versão integral desta minha obra de 2001 encontra-se disponível aqui. Nela abordo um dos primeiros grandes casos em que o Ministério Público soube utilizar as metodologias da comunicação social para fazer avançar um processo que daria origem a uma acusação... que terminou em absolvição.

sábado, 12 de março de 2016

Truques... anónimos

 
 
A imprensa, em geral, e os jornalistas em muitos casos particulares, nunca tiveram uma visão complacente do anterior governo.
Pelo contrário, os vários tipos de oposição (dos protestos anti-troika aos sindicatos da CGTP, passando por António Costa e por Mário Nogueira e diversos comentadores) foram sempre recebidos, e ampliados, com considerável benevolência.
A "esquerda", como é evidente, nunca se queixou.
Agora, quando (e numa escala menoríssima) alguma imprensa, alguns comentadores e alguns jornalistas se mostram críticos perante o governo da tríade PS-BE-PCP, já se disparam os tiros da "manipulação", dos "truques" e do "desprestígio do jornalismo".
E quem o faz é uma página do Facebook com a designação de "Os truques da imprensa portuguesa" (a que aparece acoplado "demissão de José Rodrigues dos Santos"), diversos exemplos do que seria a tal "manipulação", atacando sobretudo o "Observador" (mas, também, esses admiráveis exemplos da respeitabilidade jornalística que são os "ao minuto"...).
O problema é que quem o faz é anónimo. É uma "comunidade" do Facebook sem nomes, sem caras e sem assinatura.
Num caso destes, a credibilidade da crítica exige uma coisa muito  simples: transparência. Ela, neste caso, não existe.
O que, só por si, é revelador de que há alguma coisa a esconder...


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Coreia do Norte "soft porn"

“Ora, aí está um desafio para comentadores e jornalistas que pretendam ser isentos: se querem usar o termo ‘geringonça’ para se referirem aos acordos de esquerda arranjem também um para os partidos de direita. Ou talvez fosse mais adequado guardarem as graçolas para os humoristas.”
Esta frase, recente de dias, é de Estrela Serrano no seu blogue Vai e Vem. A autora desta recomendação doutoral foi assessora de Mário Soares e é dada no Twitter como “professora, investigadora de média, jornalismo, comunicação institucional, comunicação política”, sem a parte da assessoria. 
Talvez não seja necessário ir mais longe e procurar outros exemplos (que os há, por aí, embora de ascendência menos ilustre) da tendência que está a generalizar-se de começar a condicionar os jornalistas nas suas apreciações do governo da tríade PS-BE-PCP. 
A questão, neste caso, foi a da “geringonça”, designação aplicada por Vasco Pulido Valente ao actual governo e depois popularizada por Paulo Portas. A palavra caiu no goto de muita gente e é usada com alguma liberalidade, naturalmente com maior gosto por parte de quem não consegue ser apoiante do Governo e do seu chefe.
Ao ler o texto da distinta criatura, pensei que ele fosse terminar por uma recomendação que tecnicamente até seria correcta: ponham aspas na geringonça. Ou seja, se é notícia, ponham aspas; se é opinião… chamem-lhe o que quiserem. Ou mesmo, segundo a moda actual, “alegada geringonça”. E se é legítimo pedir “isenção” aos jornalistas (objectividade seria no entanto mais rigoroso), já é muito mais discutível exigi-la aos que vendem não jornalismo mas opinião: os comentadores. 
Estrela Serrano não é uma estreia, no entanto. O actual chefe do Governo atacou, antes das eleições, dois jornalistas, um por SMS e o outro em directo na televisão. E nota-se que, estranhamente, muitos procedimentos governamentais (que se fossem do anterior governo desencadeariam notícias e opiniões incandescentes) são hoje passados em branco com uma inocência virginal de estarrecer.
O aumento de emboscada dos preços dos combustíveis, as contradições entre tudo o que o PS foi dizendo e o que este governo quer fazer ou a ocultação da entrada de uma empresa chinesa na TAP são três exemplos de um muro de silêncio que, na realidade, não só corresponde aos desejos de Estrela Serrano como à velha cumplicidade entre António Costa e alguns sectores da imprensa, passando pelas admoestações públicas (e privadas?) deste último.
E, nisto, o PS está sozinho? Não, o seu aliado n.º 1 também se cala por conveniência política. 
O BE, que quando crescer quer ser o PS, tem na sua herança genética o controlo da imprensa e da opinião que não lhes agradam na sua versão trotzkista - maoísta. E o PCP, que já deixou de tentar perceber a sua herança genética e que se revê agora nesse bastião da democracia que é a Coreia do Norte, como se percebe pelo “Avante!”, também alinha (como sempre alinhou) no controlo da verdade a que outros têm direito.
Se tudo isto não se resolver entretanto (a queda do Governo e a sua substituição por qualquer coisa que seja, pelo menos, “melhorzinha”), ainda vamos acordar um dia sob o jugo de uma versão “soft porn” de Kim Jong-il.
 
 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

IVA: ignorância ou demagogia?




Manuel Nunes, Emanuel Pontes, José Carlos Faria, Rui Gonçalves,
João Frade e Lino Romão (© "Jornal das Caldas")
 
Conta o "Jornal das Caldas" que, no âmbito do painel que promove com a Mais Oeste Rádio, juntou seis representantes da nomenklatura política de Caldas da Rainha para analisarem a descida do IVA para a restauração.
O relato é elucidativo: as seis criaturas estão de acordo, dizem que o aumento foi miserável e que até pode haver mais emprego. Parece a demagogia do costume a tentar flutuar nas águas da ignorância. 
Nenhuma das ilustres luminárias achou oportuno realçar que o IVA não é um imposto que o Estado vá cobrar, sem mais nada, à restauração. E uma delas até é dada como empresário.
Acontece que o IVA é pago pelos clientes (contabilisticamente, o preço de venda de cada produto é x + IVA) e os profissionais da restauração, com o imprescindível apoio dos contabilistas certificados que estão obrigados a ter, limitam-se a entregar esse valor, depois de deduzirem o que puderem, ao Estado.
É certo que nesta matéria o mau exemplo vem de cima (com o governo da tríade PS-EB-PCP) mas estas ilustres cabecinhas bem podiam usar de alguma seriedade.
Até porque podemos ficar a pensar que desconhecem em absoluto como funciona o IVA, o que, de qualquer modo, em nada favorece membros de assembleias municipais e candidatos à presidência da câmaras, ao revelar o seu desconhecimento de coisas tão básicas.
 
 

domingo, 20 de dezembro de 2015

Tipo descoberta da pólvora

 
Volta não volta, a imprensa descobre as séries de televisão. Acontece hoje no "Observador", já tem acontecido noutros jornais.
É importante, claro, porque as séries televisivas estão desde o final do século passado a ganhar um papel de primeira grandeza no audiovisual, que até agora tinha sido dominado pelo cinema. E não são, como alguns ainda poderão pensar, um cinema em miniatura. São um novo universo audiovisual para onde se voltam realizadores, argumentistas e actores de renome, aproveitando a possibilidade de estender uma história por várias horas e o fim dos limites moralistas na televisão por cabo.
Só que esta descoberta jornalística recorrente se fica pelo que é superficial, fruto de impressões subjectivas (falhando muitas vezes o conhecimento, e a memória já nem conta), de propostas de comunicação das empresas produtoras e dos canais de televisão, de comunicados de imprensas e talvez mesmo de pacotes promocionais.
O resultado é uma lamentável exposição de debilidades e momentos-eureca do género "Descobri a pólvora!".
Há assuntos sobre os quais muitos jornalistas acham que podem escrever à vontade por motivos que é mais delicado não escrutinar. E as séries televisivas, que ainda por cima se vêem em casa, são naturalmente apetitosas. O resultado, depois, está no extremo oposto da qualidade e da relevância das séries.
 
 
 
"Borgen": em Junho de 2013 já estava comentada e elogiada aqui no blogue
 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Idiotas "clássicos"



Júlio Dinis ("As Apreensões de uma Mãe"): "Representava um velho de nobre fisionomia, vestido com a farda da marinha portuguesa, e em cujo peito se divisava, distintivo de lealdade e valor, uma pequena fita em fivela de prata. Era o retrato do pai de Tomás (...)"
Comentário: "Este retrato é um empata relações. Já passei por isto com um cão de uma namorada. Um bóxer; são os piores para fazer olhar de reprovação."
Júlio Dinis ("As Apreensões de uma Mãe"):"Assim se passaram seis anos."
Comentário: "Ena, estávamos aqui na conversa e nem dei por isso. O problema é que não pus moedas no parquímetro."
 
Camilo Castelo Branco ("O Sr. Ministro"): "E, como era de esperar, não lhe mandou a mesada nem mais respondeu às cartas do filho."
Comentário: "O Tibúrcio vai ficar mais falido do que a Grécia."
Camilo Castelo Branco ("O Sr. Ministro"): "Na taverna do Alho, defronte do cruzeiro, ia grande algazarra."
Comentário: "E depois inventaram a televisão."
 
Eça de Queirós ("As Singularidades de uma Rapariga Loura"): "As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos (...)"
Comentário: "Que diferentes estão os tempos..."
Eça de Queirós ("As Singularidades de uma Rapariga Loura"):" - Eu! - disse Luísa, com  voz baixa, toda escarlate."
Comentário: "Finalmente algo que faça corar a pele de transparente porcelana da Luísa."
 
Os excertos acima reproduzidos são dos autores e dos seus textos devidamente identificados. Os "comentários" não foram tirados de testes de alunos do ensino básico mas pertencem, respectivamente (nos três blocos) a pessoas que estão identificadas como João Quadros, Nilton e Maria Rueff, tendo sido extraídos de edições das obras citadas publicadas pela revista "Sábado" ao longo de três semanas com o lema "Rir com os Clássicos".
Não sei quem são os autores dos comentários, à excepção de Maria Rueff, que é actriz, porque também não nos são apresentados.
Quando folheei a primeira publicação, não consegui rir-me. E o mesmo aconteceu com as duas outras.
Os comentários, semeados pelas várias páginas, não têm graça. São deprimentes. Não conseguem suscitar um sorriso, quanto mais um riso. Pode ser que tenham esse efeito mas decerto que em qualquer conversa de madrugada, quando o que se vai consumindo vai fazendo com que tudo tenha graça.
A revista "Sábado" é uma publicação estimável. Mostra algum grau de bom gosto e de sensibilidade. Há nela alguma massa crítica (como às vezes de diz) que é inteligente e culta. E por isso é que isto é tudo tão deprimente. Duplamente: não tem graça e traz a afirmação implícita de que é necessário enxertar comentários que pretendem fazer "rir" para "vender" textos considerados "clássicos".
Os textos dos três escritores são, parece-me, peças menores das respectivas obras. Mas mereciam algum respeito. E, já agora, o público da "Sábado" também. Quanto aos promotores da ideia e aos "comentadores"... Bem, o retrato do que conseguem fazer e do que se julgam está feito. E também é deprimente. 




sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os aliados do terrorismo

Em Janeiro foi o ataque cirúrgico ao "Charlie Hebdo". As autoridades francesas (ah, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade...) devem ter pensado que lamentarem-se era suficiente. Os atentados deste mês em Paris mostraram que não era.
O terrorismo é difícil de combater porque não tem um alvo. Tem centenas, milhares ou mesmo milhões de alvos: todos nós, todos os países, todos os locais. E os terroristas podem estar em qualquer sítio, ser qualquer pessoa. E, se não há melhor solução, uma das armas de combate ao terrorismo é essa mesma: o terror.
Há quem não goste, claro. Como é o caso do "Público" que hoje, numa afirmação quase programática, se queixa da "deriva securitária" em França, que é esta: "A polícia francesa arromba portas de norte a sul do país à procura de radicais islâmicos" (primeira página).
Politicamente, e como ensinaram os velhos mestres, este posicionamento do "Público" faz deste jornal um aliado (objectivo) do terrorismo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Contar com o ovo no cu da galinha

Não são necessárias reuniões com banqueiros, elucubrações teóricas em pose de estadista, proclamações académicas ou telefonemas internacionais do técnico que já parece babar-se de expectativa perante a possibilidade de ser ministro das Finanças. 
O segredo da política económica e financeira que a componente PS da tríade PS/BE/PCP quer levar para o Governo é este: 
“Não só não reduzimos o IRC, a coligação reduz o IRC e vamos ter um aumento do conjunto de prestações e rendimentos, que permitirão aumentar o consumo – por essa via um impacto na procura e também no crescimento económico. Temos aqui este duplo efeito: um ajustamento mais moderado nos primeiros anos, e por outro lado um conjunto de medidas que tem um impacto na nossa economia diferente. Permite que a economia cresça, como permite ao Estado arrecadar mais receitas, seja por via do IRS, seja do IVA. No modelo com o qual trabalhamos, conseguimos cumprir o défice orçamental, mesmo com o aumento das despesas.”
Quem disse isto, talvez com a inocência das crianças a que São Mateus se refere, foi o fogoso deputado, e um dos “alter egos” de António Costa, Pedro Nuno Santos, em entrevista ao “Observador”. Talvez por vir no fim da entrevista, ou por ter sido no meio da confusão noticiosa decorrente dos atentados terroristas em Paris, ninguém parece ter reparado.
O raciocínio, teoricamente, é bondoso. Mas apenas em teoria. Porque a prática pode ser outra coisa.
Recordemo-nos de que em 2009 o governo de Sócrates e Teixeira dos Santos aumentou os salários da função pública e baixou o IVA. E que em 2010 anunciou as primeiras medidas de austeridade (sim, foi o PS que a inaugurou, também desta vez), travando o consumo. E que em 2011 pediu a intervenção externa porque já não havia dinheiro. E o consumo caiu mesmo.
O que acontecerá, perante a recordação dos últimos anos de austeridade e perante a incerteza em que já vivemos e voltámos a viver? Os que vão voltar a receber mais (por via dos aumentos na função pública e da TSU e dos escalões do IRS) vão começar logo a gastar? Ou vão esperar para ver? E se o consumo baixar, entre o Natal deste ano e o período de férias de 2016, onde é que estão as receitas fiscais que permitirão a um governo despesista como o do PS/BE/PCP fazer flores? 
Àquilo que o PS está a querer fazer nesta sua aventura chama o nosso povo (para citar Jerónimo de Sousa) “contar com o ovo no cu da galinha”. 
 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O medo que o Syriza não teve

Não há jogos de palavras que iludam o facto fundamental: o eleitorado, em 4 de Outubro, escolheu para governar a coligação PSD/CDS e não a mistura PS/BE/PCP. Podia tê-lo feito, se a mistura tivesse sido coligação. Podia, até, ter dado a maioria absoluta ao MRPP. 
Daqui decorre um outro facto que também não pode ser iludido: a legitimidade do PS, do BE e do PCP para governarem (dentro, fora ou encostados ao poder) é constitucionalmente límpida. Politicamente não o é. O golpe de Estado, a reviravolta imposta, neste caso, não é constitucional mas político. Embora possa ter efeitos na esfera constitucional.
A ilegitimidade de uma opção política, de regime, que não corresponde à vontade do eleitorado, só se resolve de uma maneira: novas eleições legislativas, para o eleitorado poder confirmar a opção pela coligação PSD/CDS ou por uma eventual coligação PS/BE/PCP.
A realização de novo acto eleitoral exige uma alteração da Constituição e foi isso que Pedro Passos Coelho propôs, para permitir esse tira-teimas. Mostrando que o PSD e o CDS não têm medo de enfrentar novas eleições.
O PS, o BE e o PCP recusaram a proposta. Mostraram, desse modo, que não querem sequer legitimar politicamente a sua união. Ou seja: tiveram, e têm medo, de que o eleitorado rejeitasse a sua aventura.
Na Grécia, depois de ter engolido o orgulho e uma nova fase de austeridade, o Syriza (o bem amado Syriza do PS e do BE) não teve medo de fazer novas eleições que, apesar dessa capitulação, lhe deram nova maioria.
É significativo que António Costa e o PS não tenham a coragem que Alex Tsipras e o Syriza mostraram ter. A isto chama-se cobardia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

As portas do Paraíso

Não sei o que é mais chocante nisto tudo: se a expressão de alegria de “chico-esperto” do secretário-geral do PS (vai ser primeiro-ministro, que bom) ou a crença do “povo de esquerda” de que se abriram as portas do Paraíso e o tom vingativo e raivoso com que vitupera a “direita”.
E, em parte, compreende-se. Os apoiantes, eleitores, simpatizantes e até clientes do PS, do BE e do PCP viveram durante quatro anos na ilusão de que o Governo PSD/CDS cairia. Com manifestações, greves gerais, cantigas, insultos e até mesmo com moções na Assembleia da República e de certeza que nas eleições legislativas deste ano. E depois... o Governo não cau. Pior do que isso, o PSD e o CDS não só ganharam as eleições como ficaram à beira da maioria absoluta. Que azar.
Durante estes quatro anos, o PS (como se não lhe coubesse a responsabilidade da bancarrota de 2011), o BE e o PCP estimularam a contestação e foram garantindo sempre que haveria dinheiro para tudo, ou pelo menos para os sectores onde esperam pescar mais votos. Reformar o Estado? Não. Manter o Estado de quem sempre esperaram (e receberam) tudo é que sim. Porque, como sempre, este Estado é o que dá mais empregos ao PS e mais dinheiro à aristocracia operária do BE, do PCP e da CGTP.
Este encontro da fome com a vontade de comer, tendo como pano de fundo a promessa dos “amanhãs que cantam”, deu nisto: uma estranha mistura de acordos assinados à escondida e só com fotografia oficial entre o PS, o BE e o PCP (esqueça-se o PEV, que é ridículo demais mencionar o apêndice), o derrube do governo da coligação que ganhou as eleições numa atmosfera de vingança e... milhões de euros a voarem para os bolsos dos vingadores.
O Paraíso que o PS, o BE e o PCP prometem ao “povo de esquerda” é só isto: mais dinheiro. O curioso é que o prometem com o “já” do costume: 2016. Só.
Mas os tais acordos têm mais buracos do que um queijo Emmental. Não dizem nada quanto aos quatro anos que deveria durar esta legislatura. Ou seja: o Paraíso fica-se apenas pelas portas.
O Estado, no entanto, não tem dinheiro para manter este clima de festa durante muito tempo. A economia não cresce a esse ponto. O desemprego também não diminui por magia. A instabilidade pode fazer aumentar os juros do dinheiro que o País terá de continuar a pedir emprestado. A alternativa é o regresso dos aumentos de impostos. Ou, para as mentes mais assanhadas, eventuais operações de confisco domiciliário dos bens dos “ricos”.
Até pode ser que a perspectiva radiosa e estatizante do PS, do BE e do PCP seja uma solução de futuro e que Portugal consiga enriquecer a ponto de poder sustentar o seu Estado. Mas alguém acredita que isso é mesmo possível? Ou não esconderão as portas entreabertas do Paraíso um novo inferno a breve prazo?
Há quem diga que seria bom que este governo do PS (do “PS sozinho”, como um jornal do PCP dizia em tempos de outra aventura do PS) caísse rapidamente. Não me parece. Até porque em 2016 ainda haverá dinheiro. E muitas ilusões.
 
 

Esperteza saloia


A "Gazeta das Caldas" embandeirou em arco esta semana com a aliança poliamorosa PS/BE/PCP e decidiu, na sua coluna de amores e ódios, arrancar um grande elogio à tríade Costa/Martins/Sousa e derramar a sua felicidade por o governo da aliança vencedora das eleições de 4 de Outubro ter sido derrubado na Assembleia da República.
E se um dia lhe estalasse a castanha na boca e o PS de Caldas da Rainha mostrasse que os tem no sítio e fizesse o mesmo com a restante oposição para derrubar o PSD caldense que domina a Câmara Municipal e o seu presidente, de quem a "Gazeta" tanto gosta?


E se acontecesse o mesmo ao presidente da câmara amigo, o que diriam?


PREC II: vingança e dinheiro

O IVA da restauração vai descer, de 23 por cento para 13 por cento. É uma das bandeiras da “santa aliança” PS/BE/PCP e, em todo o seu esplendoroso e monstruoso erro, o que melhor caracteriza este segundo PREC: o País interessa pouco, o que conta é o poder e, com ele, a vingança manhosa sobre os que não conseguiram vencer, nem em quatro anos de legislatura nem nas eleições legislativas de há um mês.
O IVA é um imposto que, para o consumidor está metido no produto ou serviço que adquire. Mas para o fornecedor desse produto ou serviço, o IVA que “ganha” no que vende tem de ser entregue ao Estado. Na sua cabeça e na sua contabilidade, o IVA tem de estar separado do custo do que vende. Do IVA que o cliente lhe dá, o fornecedor pode, ou não, deduzir outro IVA que ele próprio pagou. Mas o destino do IVA é o Estado.
A restauração (restaurantes, cafés, etc.) não é uma excepção a esta regra contabilística e fiscal. Quando o IVA subiu, há dois anos, os empresários do sector, por sinal pouco controlados no domínio fiscal, protestaram. Aumentaram preços, anunciaram encerramentos de empresas e despedimentos aos milhares. Não se deu por nada. Mas a “esquerda” pegou nessa bandeira porque era mais um factor de descontentamento. E agora oferece aos empresários do sector (não aos clientes) uma “borla” de 10 por cento.
Se o eixo PS/BE/PCP olhasse realmente para os interesses do País faria outra coisa: acabaria com o Pagamento Especial por Conta (PEC) para as micro e pequenas empresas. O PEC (que obviamente abrange restauração) é uma entrega mínima de 1000€ que todas as empresas têm de fazer ao Estado e que poderão, se tiverem êxito nos negócios, recuperar em sede de IRC no ano seguinte. Para uma micro-empresa, os 1000€ que tem de adiantar como imposto por conta pode criar sérias dificuldades de tesouraria. O IVA não, porque o IVA que tem de ser entregue ao Estado, repete-se, é o IVA que os clientes pagam.
A lógica da aliança PS/BE/PCP foi esta: satisfazer sectores, além do puro gesto de vingança que consiste em afastar do poder quem ganhou as eleições porque, durante quatro anos, não o conseguiram fazer nem na rua nem na Assembleia da República. 
E a satisfação dos sectores consegue-se com dinheiro. As dezenas de medidas desta tríade baseiam-se na distribuição de dinheiro, da função pública aos grevistas das empresas de transportes públicos de Lisboa e Porto. Leiam-se as 51 medidas, ou 70, segundo também se disse, e o que delas escorre é despesa. Despesa, despesa, despesa. E sobretudo do Estado. 
E onde é que estão as receitas para suportar as despesas? Não se sabe. Mais impostos? É o costume. Mas cobrados a quem? Aos que se terão apressado a pôr o seu dinheiro no estrangeiro? Ou aos outros, a nós todos? No entanto, como dizem que não querem lançar mais impostos, vão fazer o quê? Vão às casas das pessoas confiscar o dinheiro ou os bens que elas tenham?
Não deixa de ser uma estranha ironia que este novo PREC de Novembro de 2015 comece quarenta anos depois do golpe político-militar conservador que, de 24 para 25 de Novembro de 1975, afastou a esquerda e a extrema-esquerda do poder, entregando-o ao PS.
E não será uma ironia menor se, quando o dinheiro acabar, o PREC II não venha a ter como epílogo um novo pedido de assistência económica ao estrangeiro (que, convém recordar, tem sido uma imagem de marca da governação do PS).
Até lá, talvez seja melhor ir pondo em bom recato o dinheiro que aí vem...
 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"Crime Scene": Sherlock Cumberbatch, novos livros, séries de TV e... James Ellroy





A empresa inglesa Future, que edita a revista de cinema "Total Film", acaba de lançar uma revista inteiramente dedicada ao "thriller", sobretudo na ficção literária, na não ficção e na televisão.
O número inaugural da "Crime Scene", no habitual formato grande da "Total Film", é dedicado ao Sherlock Holmes do actor Benedict Cumberbatch (que é uma glória britânica) mas há mais: livros novos, séries de televisão, "true crime", entrevistas e, entre estas, uma entrevista breve ao autor norte-americano James Ellroy.
E, com a devida vénia, vale a pena registar duas frases do grande Ellroy dessa entrevista, em tradução do original inglês:
 
- "Não gosto da literatura 'mainstream', estou-me a cagar. Se quiserem torturar-me até à morte, ponham-me um livro do Faulkner à frente. Ponham-me um livro do Jonathan Franzen à frente. Ou um livro do Raymond Carver. Não me interessa. Gosto das merdas com crimes e gosto da merda histórica."
 
- "Bem, mas eu sou mesmo um grande escritor policial americano, Jack, e isso não é treta. Ouça, para dizer a verdade, foi Deus quem me emprestou o talento. Deus tem sido muito bom para mim. Tenho um coração vigoroso, tenho uma forte vontade de sobreviver e adoro escrever." 

domingo, 8 de novembro de 2015

30 dias

 
As eleições legislativas realizaram-se há precisamente um mês. O mecanismo, tantas vezes cumprido desde 1976, é este: o partido que vence as eleições forma governo. Mas hoje o que é que temos?
O PSD e o CDS, que venceram as eleições, formaram o seu governo. É um governo débil, de serviços mínimos, condicionado pela ameaça feita há um mês pelos derrotados nas eleições de há 30 dias de que cairia vítima de moções de rejeição. 
Quanto a esses derrotados (PS, BE e PCP), andam há um mês a tentar fazer qualquer coisa que tanto pode ser um acordo de governo de curto prazo, um governo do PS com generosas cedências ao BE e ao PCP para lhes pagar o apoio, um governo PS/BE/PCP ou seja lá o que for que resulte desta deprimente confusão. E, com esse objetivo em mente, já conseguiram impor a paralisação do parlamento, numa situação em tudo semelhante ao cerco dos metalúrgicos de 1975. (E num contexto pouco prestigiante em que o PS que não quis Jaime Gama como candidato à Presidência da República empurrou Ferro Rodrigues para a presidência da Assembleia da República...)
E há o tal acordo, ou algo parecido, entre o PS, o BE e o PCP? 
Dia sim, dia não, o BE afirma que há. Dia sem, dia não, o PCP sugere que não há nem vai haver e que venderá bem caro o seu apoio. E o PS, o mesmo PS que combateu os comunistas e os trotzkistas e maoístas de cuja cama saiu o BE, fica calado, de joelhos e mão estendida. Compreende-se: desse acordo depende a sobrevivência do actual secretário-geral do PS, embora não do PS. 
E nesta mistura o que prolifera é a versão contemporânea do “bacalhau a pataco” (o fim da sobretaxa do IRS, o descongelamento de todas as pensões, o aumento da função pública, a baixa do IVA apenas para um sector comercial). E, como pano de fundo, sempre o silêncio do PS, responsável pela bancarrota de 2011 e pelo terceiro resgate da democracia portuguesa.
O seu secretário-geral (que sofreu uma tripla derrota em 4 de Outubro: política, pessoal e ética) parece ter desaparecido de cena para deixar à frente da sua facção o émulo açoriano de Alberto João Jardim. Talvez queira que nem reparem muito nele quando parece ter começado a alastrar dentro do seu próprio partido a crítica ao que anda a fazer. Ou então algum motivo mais profundo há de existir para este césar ilhéu andar assim tão à solta pela capital.
Trinta dias depois das eleições e do seu resultado claro, o país político institucional está a ficar bloqueado. Talvez seja o primeiro de vários passos que provavelmente nos levarão ao próximo desastre económico e financeiro. Ou a um outro PREC que nunca poderá deixar de ser uma guerra civil de novo tipo.


(Texto publicado no Tomate em 4.11.15)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Entrevista mistério

 
 
"Entrevista com o presidente - Durante 11 semanas 'Gazeta das Caldas' entrevistou os presidentes das juntas de freguesia dos concelhos das Caldas da Rainha e de Óbidos (com excepção do da Usseira, que se mostrou indisponível) e ainda as juntas vizinhas de Alfeizerão, S. Martinho do Porto, Benedita e Painho. Tratou-se de um exercício de puro jornalismo de proximidade, como deve ser timbre de um jornal regional, e que mereceu muito interesse dos nossos leitores, especialmente das freguesias visadas. - C.C."
 
É este o teor do enigmático texto de primeira página da "Gazeta das Caldas" da passada sexta-feira. À primeira leitura, pensa-se que é o anúncio de uma entrevista com o presidente da Câmara. Mas, folheado jornal, nada se encontra. E seria esse o caso? Ou seria outro presidente qualquer? Ou seria apenas os "ss" que caíram e o título devia ser "Entrevista com os presidentes"?
Não se sabe. A "Gazeta", quando se trata de presidentes, é pouco transparente...
 
 


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Vamos às compras?


Há dinheiro. Não se sabe onde, mas há. Ainda bem. Para os funcionários públicos e para as suas famílias, que verão (se é essa uma das bases do extraordinário entendimento entre o PS e o BE, como o “Expresso” anuncia) os seus salários repostos na totalidade em 2016.
Calcula-se que os reformados também serão abrangidos. E que a sobretaxa do IRS também será devolvida na íntegra e não gradualmente. E, já agora, que o sector da restauração terá descida do IVA (e por que raio é que hão de ser só eles a terem de entregar menos IVA ao Estado?!).
A seguir na lista devem estar as empresas de construção civil, sobretudo as amigas do PS, a receber mais obras públicas.
Deve ser isto a essência do entendimento entre o PS e a extrema-esquerda do BE e do PCP. Porque o essencial é o dinheiro. Que vai impedir os protestos dos trabalhadores da função pública e das autarquias e de tudo quanto depende do Estado, dos professores aos guardas prisionais. E – atenção: promessas! – dos “lesados do BES/GES” a quem o presidente do PS prometeu dar dinheiro se ganhasse as eleições.
Como sempre tem acontecido, quando há mais dinheiro há mais consumo. E dos produtos importados, dos carros às roupas.
É provável que haja mais dinheiro disponível durante o ano de 2016. O governo de Sócrates e de Teixeira dos Santos também o teve até Abril de 2011. Cada vez mais caro, mas havia.
E quando ele faltar? E quando os juros dos empréstimos ao estrangeiro subirem sem parar? 
Pede-se um resgate, claro: mais “troika”, mais eleições, mais uma vitória para o PSD e o CDS resolverem os problemas económicos e financeiros e serem depois derrotados por causa da austeridade.
Até lá, vamos às compras? Convém é, entre o carro novo e a roupa do Verão, comprar um cofre não vá dar-se o caso de, para variarmos, chegar ao ponto em que só vamos poder levantar 60€ no multibanco.
Bem-vindos ao Paraíso!
 
 
 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O que é feito das almas penadas?





Apareciam por todo o lado, rasgavam as vestes, atacavam o Governo e a coligação PSD/CDS, as instalações do Novo Banco, o Banco de Portugal, a Polícia e mais quem lhes aparecesse à frente. As televisões, ávidas, seguiam-nos, como se a causa dos "lesados do BES/GES" estivesse bem escorada a nível das administrações, das direcções e das chefias.
E depois do domingo de eleições desapareceram.
O problema ou está resolvido ou afinal não existia.
Mas fica uma dúvida: se o PS conseguir conquistar o governo da nação, vão cobrar a promessa de ser o Estado a pagar-lhes as perdas do investimento privado que fizeram?

sábado, 12 de setembro de 2015

Jornalismo de campanha mas "de referência"

 
Os diários ditos de "referência" deitam fora a objectividade jornalística e entram na campanha política, alinhados com a oposição.
O "Público" lança um extraordinário título com imagem em grande plano da dirigente do BS: "Catarina Martins insistiu, mas Passos não pediu desculpa nem mostrou números" (sublinhado nosso).
No "Diário de Notícias", na primeira página, escreve-se este mimo: "Recensearam-se nas embaixadas para votar e receberam no correio panfletos da coligação PSD-CDS. A prática é legal, mas os jovens emigrantes ficaram espantados por a propaganda vir de quem os incitou a deixar o país" (sublinhado nosso). 



 
 
O "Avante!", o "Acção Socialista" ou o clandestino "Bloco" não fariam melhor. E por mau aspecto  que dê imputar parte de um eventual insucesso da coligação governamental a este tipo de comportamento de algum jornalismo luso, o certo é que não escasseiam os maus exemplos...