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domingo, 2 de outubro de 2016

A transferência da qualidade do cinema para a TV

"Os anos 70 foram os grandes dias do cinema de Hollywood, quando se faziam grandes filmes, filmes médios e pequenos filmes. Foi esse espaço de qualidade, entre os filmes de arte e ensaio e os 'blockbusters', que a televisão ocupou e é aí que os actores querem estar."
Esta observação do actor Sam Neill, em entrevista à revista "Empire" (n.º 328, Outubro de 2016), numa referência à sua participação na magnífica série "Peaky Blinders", ilustra bem o papel e o estatuto da ficção televisiva dos nossos dias: um terreno audiovisual intermédio onde se vai afirmando a qualidade em parte perdida pelo cinema que pode considerar-se tradicional e que começa a dividir-se entre as grandes produções e os "remakes" de êxitos e os filmes independentes ou de menor orçamento.
O futuro do cinema, ou da ficção audiovisual, em geral, passa todo por aqui. E nem sequer é difícil percebê-lo.


"Peaky Blinders", sem estreia nem "press releases" em Portugal,
é uma das melhores séries inglesas dos nossos dias

TV: "press releases" a mais e jornalismo a menos

Não há publicação dita "de referência" que, por exemplo, não anuncie a série televisiva "Luke Cage", com um super-herói secundaríssimo da Marvel numa produção da Netflix. Até pode ser que a série seja interessante, claro, e vê-la-ei quando puder.
Mas esta abundância é, mais uma vez, estranha: ao anúncio, vagamente noticioso, desta ou daquela série nunca se seguem uma referência crítica ou uma opinião.
Ao contrário do cinema (onde quase parece mais críticos de cinema do que espectadores nas salas), a televisão não existe além do "press release".
Será falta de profissionalismo, ignorância... ou ausência de episódios oferecidos para "visionamento"?

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Barbarians Rising": uma fritada mista


Fraco, muito fraco...

"Roma" foi, há 11 anos, uma excelente ideia e poderia ter sido uma grande série de televisão.
Mas esta história romanceada do Império Romano, com dois plebeus como personagens principais, foi prematura. A violência e o sexo deram cabo dela. A HBO, a produtora, fez-lhe as exéquias finais. 
Se a virmos tendo presente o magnífico "Gladiador", de Ridley Scott, temos um padrão de qualidade. "Vikings" anda lá perto, com um tom shakespeareano e a evocação de "Ivan, o Terrível". "Barbarians Rising" (canal História) poderia, ao menos, ter tentado chegar a estes calcanhares mas não: anda longe, muito longe.
A ideia de retratar, ao longo de uma dúzia de episódios, os chefes das nações "bárbaras" que debilitaram o Império dos Césares e acabaram por fragmenta-lo, é bondosa. Talvez tivesse dado uma grande série vagamente realista (pode recordar-se aqui a "idade de ouro" da BBC e a sua série "Os Césares"). Mas o certo é que não deu.
"Barbarians Rising" (apesar do seu carimbo "científico") resume-se a ilustrações de algumas sequências mais animadas (pois, só podia) desses chefes bárbaros e comentários, ou excertos de comentários, de uma falange de personalidades que servem de alibi mais ou menos científico para a coisa mas que adiantam menos do que os mapa animados que inseriram no primeiro episódio.
E esse, sobre o cartaginês Aníbal, é fraco.
O segundo, sobre o lusitano Viriato (e que série não daria esta figura para a miserável televisão portuguesa!...), é uma colecção de meias-tintas. 
A avaliar por estes dois primeiros episódios, "Barbarians Rising" não passa de uma fritada mista: uma misturada de fragmentos de erudição com fragmentos de cenas de acção de qualidade abaixo da média. Em nada se recomenda. 

sábado, 26 de março de 2016

"Ray Donovan": Myron Bolitar em versão "lado negro da Força"





Ray Donovan (Liev Schreiber, "calmo, frio, com ligações") é uma espécie de réplica maligna da famosa personagem de Harlan Coben, Myron Bolitar, mas na sua versão mais sinistra. Bolitar é um agente desportivo. Mas Donovan é um agente... de tudo. Um facilitador, um negociador e um mestre de expedientes no mundo dos famosos e dos poderosos de Hollywood. O seu arranque, no modo como Donovan resolve, misturando, os problemas de duas "estrelas", é magistral.
Criada por Ann Biderman (argumentista e criadora da malograda série "Southland"), "Ray Donovan" é mais uma das muitas séries da televisão dos nossos dias a ganhar pontos nos domínios da criatividade, da representação e da abordagens das várias realidades sociais em que o cinema tem, de certa forma, perdido terreno.
É também uma crónica familiar (como "Os Sopranos" ou "Sons of Anarchy"), onde Ray Donovan se vê emaranhado nos problemas da sua própria família (mulher e dois filhos adolescentes), dos seus irmãos disfuncionais e de um pai que também parece ser oriundo do "lado negro" do seu mundo: Mickey Donovan, interpretado por Jon Voight, que domina cada cena em que aparece.
"Ray Donovan" seguiu uma dada direcção nas primeira e segunda temporadas mas, à terceira, depois de Ann Biderman se distanciar, mudou de ritmo e corrigiu o seu rumo.
Ray Donovan ficou quase como mais um dos muitos detectives particulares de métodos sombrios que habitam a ficção americana mais do que um Myron Bolitar "from hell". Mas isso, sobretudo depois dos primeiros episódios, não prejudica o desenrolar da história.
As três primeiras temporadas são de grande qualidade. A quarta temporada começa no Outono deste ano.

("Ray Donovan" passou no canal de televisão por cabo TV Séries. Vi as três temporadas em DVDs legalmente adquiridos, em edições Showtime.)


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Notas em formato de "zapping": transições


The Affair - Devia ser a história de um caso amoroso mas lá conseguiu estender-se para ser uma história de (vários) namoros, tentando os produtores manter a chama do interesse televisivo acesa com um homicídio. Dominic West ("The Wire"), Maura Tierney ("ER") e Ruth Wilson não conseguem, só por si, sustentar uma série que (pelo menos a meio da segunda temporada) parece preferir o ambiente dramático de uma telenovela luso-mexicana e talvez se devesse intitular "Namoro". Mas já há terceira temporada encomendada, o que demonstra que o voyeurismo se vende bem (vista no canal TV Séries).
 
Arrow - A quarta temporada começou com algumas debilidades mas ao episódio 6 (na semana passada) já se notaram melhorias. É um jogo interessante ver como esta série se cruza com outras séries ("The Flash", a malograda "Constantine" e também a anunciada "Legends of Tomorrow") que nos trazem uma parte do universo de banda desenhada da DC, que bate a concorrente Marvel na televisão. Não se percebe é por que carga de água é que o AXN transforma o nome clássico de Arqueiro Verde (nome que ficou de certa forma fixado em língua portuguesa) em "Flecha Verde". Pode ser mais rigoroso relativamente ao original ("Green Arrow") mas com esta opção perdem-se algumas referências (vista no AXN).
 
Downton Abbey - Acabou, portanto, num episódio onde tudo se atamancou e se resolveu apressadamente, chegando ao fim com seis temporadas e desejos mal contidos de um filme de longa-metragem, que serviria não se sabe bem para quê. Foi uma boa ideia e de êxito seguro e duvida-se de que cansasse os seus espectadores mais entusiastas mas o mundo das séries de televisão tem regras de mercado que nem sempre parecem lógicas. E certas soluções encontradas para a história da família Crawley também não tiveram grande lógica, já agora. (vista no canal Fox Life). 

Engrenages - É uma das melhores séries policiais francesas contemporâneas e a sua quinta temporada passou quase clandestinamente na RTP2 no verão passado com o título "Um Crime, Um Castigo". Já aqui me referi a ela, pelas qualidades intrínsecas e pelo facto de poder ser um modelo para uma série portuguesa. Os elogios continuam a justificar-se (vista numa edição em DVD da BBC de 2014, legitimamente adquirida).
 
Fargo - Com a segunda temporada, "Fargo" revelou-se uma das melhores séries do momento, talvez melhor do que a primeira temporada e seguindo a lógica e o estilo do filme que lançou os irmãos Joel e Ethan Coen, "Sangue por Sangue". No modelo da história completa por temporada, bateu a segunda temporada de "True Detective", combinando um traço irónico com uma grande dose de violência explícita em jeito de retrato de época (vista no canal TV Séries).
 
The Flash - Apareceu depois de "Arrow", oriunda dos mesmos produtores, e conseguiu ser melhor do que essa série. A primeira temporada passou também clandestinamente na RTP mas da segunda nada se sabe, o que é pena.
 
The Knick - Um hospital no início do século XX em Nova Iorque, um actor bem conhecido (Clive Owen) e um realizador consagrado e inventivo (Steven Soderbergh): eis "The Knick", uma série que por enquanto se fica apenas pela segunda temporada. Foi um bom trabalho televisivo, que merecia outra atenção (vista no canal TV Séries).
 
 
 
Clive Owen em "The Knick": "ER" e "House" no princípio do século XX

domingo, 20 de dezembro de 2015

Tipo descoberta da pólvora

 
Volta não volta, a imprensa descobre as séries de televisão. Acontece hoje no "Observador", já tem acontecido noutros jornais.
É importante, claro, porque as séries televisivas estão desde o final do século passado a ganhar um papel de primeira grandeza no audiovisual, que até agora tinha sido dominado pelo cinema. E não são, como alguns ainda poderão pensar, um cinema em miniatura. São um novo universo audiovisual para onde se voltam realizadores, argumentistas e actores de renome, aproveitando a possibilidade de estender uma história por várias horas e o fim dos limites moralistas na televisão por cabo.
Só que esta descoberta jornalística recorrente se fica pelo que é superficial, fruto de impressões subjectivas (falhando muitas vezes o conhecimento, e a memória já nem conta), de propostas de comunicação das empresas produtoras e dos canais de televisão, de comunicados de imprensas e talvez mesmo de pacotes promocionais.
O resultado é uma lamentável exposição de debilidades e momentos-eureca do género "Descobri a pólvora!".
Há assuntos sobre os quais muitos jornalistas acham que podem escrever à vontade por motivos que é mais delicado não escrutinar. E as séries televisivas, que ainda por cima se vêem em casa, são naturalmente apetitosas. O resultado, depois, está no extremo oposto da qualidade e da relevância das séries.
 
 
 
"Borgen": em Junho de 2013 já estava comentada e elogiada aqui no blogue
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"Sons of Anarchy": Shakespeare sobre rodas



 
 
As referências que tinha lido (eventualmente de passagem no IMDB), talvez numa das revistas de cinema que compro ou qualquer imagem que me tenha passado pela frente num dos canais da televisão por cabo não me suscitaram grande interesse por uma série com o nome pouco intrigante de "Sons of Anarchy" e passada, pareceu-me, em cima de motas, objecto rolante que pouco me dizia.
Não havia nomes conhecidos (Ron Perlman, quando muito) e o seu criador, ou "showrunner" (na linguagem televisiva) Kurt Sutter não me dizia nada.
Mas depois a série já estava inteiramente disponível em DVD e era época de defeso nos canais de cabo. Portanto... porque não?
Foram sete temporadas, 92 episódios e mais de 80 horas de televisão. E o resultado? Oito conclusões:
 
 
 
 
1 - "Sons of Anarchy" é uma das séries que melhor demonstra o que é a nova televisão dos nossos tempos: há uma história completa que liga pouco à montagem de episódios sequenciais, que segue a estrutura de uma narrativa ficcional tradicional, partindo de uma base realista (encontra-se aqui uma análise sugestiva). É, de certa forma, como um livro.
2 - Todos os elementos se conjugam na perfeição: a temática (um clube de motoqueiros que são "outlaws", com uma estrutura muito específica, empresarial e capaz de equilibrar as actividades legais com as mais do que ilegais), um argumento imparável (onde pode sempre acontecer qualquer coisa de surpreendente e... horrível), a linguagem (diálogos e imagens) claramente adulta, sem qualquer tipo de barreiras.
3 - Tem um conjunto de personagens muito fortes e muito bem estruturadas (compensando outras que são simples "verbos de encher"), numa dinâmica colectiva muito bem construída.
4 - Tem uma banda sonora que é um verdadeiro programa, quase autónomo e que muitas vezes serve de comentário (para os interessados, são quatro CDs, com o título genérico de "Songs of Anarchy").
5 - Revela o controlo praticamente absoluto do seu criador, Kurt Sutter, em todos os domínios (e até na interpretação de uma das figuras centrais da história).
6 - Tem um subtexto shakespeareano bem pensado - seguindo quase a linha narrativa de "Hamlet" (e há aqui um bom texto sobre esse aspecto, onde evidentemente avulta o Hamlet construído por Charlie Hunnam, com o seu Jax Teller), passa por "Macbeth" (e que Lady Macbeth é Katey Sagal, a "mãe" Gemma do clube) e por "Rei Lear" (Ron Perlman, o primeiro presidente do clube) e desenvolve e afirma um estilo de tragédia clássica que é concretizado de forma impecável.
7 - Além do mais, consegue abrir espaço a um tom comedidamente paródico, que é sempre fundamental numa narrativa coerente: a intervenção de Stephen King (o especialista em fazer desaparecer cadáveres), a personagem transgénero Venus Van Dam criada por Walton Goggins (de "Justified") ou a sopa feita com uma cabeça.
8 - E, finalmente, as motas: as Harley-Davidson são realmente fotogénicas...
 
 
[Vi "Sons of Anarchy - The Complete Series 1-7" numa edição em DVD da 20th Century Fox Home Entertainment, de 2015, legitimamente adquirida.]
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

"Gotham": a ideia até era boa...





"Gotham" foi, pelo menos no princípio, uma boa ideia: não podendo, ou não querendo, usar a figura e a imagem do Batman, os produtores da série optaram por ir explorar outros cenários: a estreia do futuro comissário Gordon na Polícia de Gotham, Bruce Wayne (Batman) ainda miúdo, o começo de carreira do Pinguim e talvez de outros inimigos do Batman.
Só que, com o tempo, instalou-se uma rotina que não entusiasma: "Gotham" transforma-se numa série de polícias e ladrões (a tal unidade especial), os novos criminosos roçam o risível (Galavan), as figuras emblemáticas não saem das meias-tintas (Bruce Wayne e Selina Kyle, por exemplo), há figuras que são desastradamente alteradas relativamente ao cânone (Barbara Gordon, Edward Nygma) e não se progride.
"Arrow" (com o Arqueiro Verde) e "The Flash" (e parece que também a recentíssima "Supergirl")mostram como é que deve ser feita a transposição inteligente dos super-heróis para a televisão. "Gotham" parece de certa forma condenada à irrelevância.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Perdidos





"Mad Men": reapareceu de repente, ainda em Outubro, com as duas partes da 7.ª temporada
(que foram separadas por mais de um ano) a serem transmitidas de rajada na RTP2.

 


A fama (justa) de "Breaking Bad" poderia ter aberto portas a "Better Call Saul".
A primeira temporada terminou, nos EUA, em Abril deste ano.
Por onde andará?

 


O AXN transmitiu as primeiras três temporadas
da grande estreia do Arqueiro Verde na televisão.
A quarta já começou nos EUA. Por cá nada.

 
 


"The Flash" foi, verdadeiramente, uma série-revelação.
A RTP tratou-a pessimamente.
Já começou a segunda temporada mas cá não se sabe.
 
"Daredevil": a única aventura televisiva da Marvel com interesse.
A primeira temporada já lá vai.
Aparecerá no anunciado serviço da Netflix?


A história (de James Patterson, publicada pela TopSeller em Portugal)
é francamente interessante.
A série parece que também.


 
Uma outra série que nunca chegou a Portugal, sem que se perceba porquê, é "Orange is the New Black", sobre a qual já escrevi aqui e que vi em DVD, motivo pelo qual não a incluo nesta pequena lista de perdidos... e não achados.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Em fila de espera


À espera de vez, na "box" do televisor, estão "Show Me a Hero" e "Olive Kitteridge", os dois primeiros episódios da segunda temporada de "Gotham" e o último da segunda temporada de "The Strain".
Anunciam-se para o futuro imediato as segundas temporadas de "The Knick" e de "Fargo" e de "The Affair" (que suscita alguma curiosidade) e a continuação de "The Talking Living", espero que não falhem "Arrow" e "The Flash" (na caótica RTP, ainda?). E a coisa, claro, não ficará por aqui.
Entretanto, em DVD, estão à espera a quinta temporada de "Engrenages", o sempre divertido "NCIS", a primeira temporada de "Ray Donovan" (a ver, por curiosidade) e, das sete temporadas da animadíssima "Sons of Anarchy", já vou na quarta.
 
 
 
 
 
Não há fome que não dê em fartura: sem uma sala de cinema de jeito neste concelho que tão simpaticamente me acolheu, vale a oferta cada vez melhor da televisão do século XXI.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O juiz tem bom gosto


"Engrenages" (sobre a qual aqui escrevi, elogiando-a) é mais sobre os bastidores da investigação criminal e da justiça do que sobre a política, como as duas outras séries citadas, mas o lapso há de ser de quem escreveu. É sem dúvida interessante que Carlos Alexandre conheça esta série, tão pouco conhecida entre nós mas tão inspiradora.
 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

"American Horror Story: Coven"

 


"American Horror Story" é não apenas um novo formato de mini-série televisiva (como "True Detective") mas também um exercício de estilo: com as suas temporadas transformadas em histórias autónomas que ocupam toda a temporada, reserva as três principais actrizes para papéis que vão mudando de história para histórica e, nessa perspetiva, é um desafio... para elas próprias nas personagens diferentes a que devem dar vida, para os autores e para o público.
"Coven", a terceira temporada, é até agora a melhor. A primeira tinha como cenário uma casa assombrada, a segunda um manicómio e, antes do circo de horrores à Tod ("Freaks") Browning, tivemos esta terceira temporada.
Vampiros já há muitos, lobisomens nem por isso mas são muito unidimensionais e os "zombies" já estão perto da faixa do excesso populacional. Mas as bruxas, e a sério, é que não tem havido muito.
Daí também o carácter quase inédito de "Coven": localizando-se no Sul dos EUA, recupera a sempre interessante lenda das bruxas de Salem, junta-lhe a tradição do "voodoo" e explora o filão do racismo numa mistura bem pensada. Há uma escola para jovens feiticeiras dependente de um "coven" (a associação de feiticeiras baseada num pacto ou numa tradição comum) de que é dirigente Jessica Lange, uma aristocrata racista que é vítima do mal que andara a fazer (Kathy Bates) e uma feiticeira "voodoo" (Angela Bassett) e um grupo capitalista que se dedica a caçar feiticeiras.
A história está bem contada e tem sequências bem fortes (e bem imaginadas), o trabalho das três actrizes é de mérito e só o fim é que escorrega, embora suavemente, para um inusitado tom paródico.
O modelo de "American Horror Story" é não apenas ousado mas difícil de manter por muito tempo (a próxima temporada é passada num hotel) e não admira que haja rumores sobre o seu fim. De qualquer modo, já deixou uma boa marca com "Coven" no universo fantástico do audiovisual dos nossos dias.  

[Vi "American Horror Story: Coven" numa edição em DVD da 20th Century Fox para o Reino Unido, de 2014, legitimamente adquirida.]


domingo, 30 de agosto de 2015

Stephen King PG-13

 
"The Shining" é um dos primeiros romances do prolífico Stephen King. Publicado em 1977, faz parte do seu período inicial (mais virulento, mais criativo, mais directo). É uma boa história de fantasmas e de um local assombrado por coisas muito sinistras.
Stanley Kubrick levou-a ao cinema, com o mesmo título, em 1980 mas o filme, impecável, afastava-se da história original.
Uma mini-série, em 1997, andou mais próximo do romance mas nunca poderia ter deixado de ser, ela própria, assombrada pelas qualidades de qualquer produção de Kubrick. 
"The Shining" teve sempre um sobrevivente que é fundamental: o pequeno Dan Torrance, que é o herói da história. E é por aí que começa Stephen King para escrever o que é uma continuação do seu romance: "Doctor Sleep" (2013).
Nele Dan Torrance, com um percurso de vida bastante complexo, é adulto, a "luz" ou "brilho" (o que é descrito como "shining") é um fardo e a relação com o mundo só é satisfatória no acompanhamento de doentes terminais, que ajuda a morrer. Mas há mais gente que tem esse dom, como a jovem Abra Stone, que entra mentalmente em contacto com uma seita religiosa denominada True Knot. São vampiros (a fazerem lembrar os do extraordinário filme "Near Dark", de Kathryn Bigelow) mas de uma espécie diferente: o que os alimenta é o "vapor" (a alma?!) dos seres humanos, que são para eles uma subespécie.
E temos assim Dan Torrance, Abra e alguns aliados de ocasião a combaterem a seita, numa história  marcada pelo habitual brilhantismo narrativo de King mas, depois, insatisfatória.
A violência subjacente resolve-se em tom brando, o horror atenua-se, a emoção transfere-se para domínios mais espirituais e... não há uma gota de sangue derramado. Não seria obrigatório mas ajudaria a criar um clímax mais adequado ao desenvolvimento da história.
É como se "Doctor Sleep" tivesse sido escrito a pensar em qualquer versão audiovisual (cinema ou TV), adaptável sem alterações de fundo a uma classificação etária mais próxima do "PG-13" (genericamente desadequado para pré-adolescentes) do que do "R" (a classificação do "The Shining" de Kubrick, que obriga os menores de 17 anos ao acompanhamento por adultos) no padrão americano, longe, muito longe dos seus melhores títulos do género como "Cujo", "Firestarter", "The Stand" ou "Pet Sematary".

domingo, 23 de agosto de 2015

A segunda mulher de Henrique VIII


Mark Rylance como Thomas Crowell em "Wolf Hall"

A história das seis mulheres de Henrique VIII, de Inglaterra, ultrapassa em muito a curiosidade histórica devido à intriga política, à violência de Estado e à ruptura inglesa com a Igreja Católica de Roma que caracterizaram as tentativas do rei inglês de sucessivamente se ir livrando das mulheres que não lhe davam o filho que ambicionava.
É um conjunto de temas inspiradores que é sempre estimulante e que deu origem, entre 2010 e 2013, a dois romances da inglesa Hilary Mantel, "Wolf Hall" e "Bring Up the Bodies" (os dois estão publicados em português, tendo o segundo ganho o título de "O Livro Negro"), que cobrem o período em que Henrique VIII se prepara se livrar da primeira mulher (Catarina de Aragão), se casa pela segunda vez (com Ana Bolena) e, enquanto também se vai livrando dela, se aproxima da terceira (Jane Seymour).
Haverá, parece, um terceiro romance e pode dizer-se, naturalmente, que não falta material a Hilary Mantel.
"Wolf Hall" e "Bring Up the Bodies" (que não li) foram entretanto transformados numa mini-série de seis episódios ("Wolf Hall") pela BBC.
Thomas Cromwell, que se transforma no braço-direito de Henrique VIII, é a personagem central da versão de Hilary Mantel e impressiona a sua caracterização pelo actor Mark Rylance nesta série.
Cromwell é o exemplo do grande manipulador dentro do poder instituído, de aspecto quase sinistro mas movido por uma tristeza interior de conturbadas raízes familiares. Henrique VIII reaparece numa interpretação surpreendente de Damian Lewis (mais conhecido por "Homeland") e a dinâmica entre os dois é, a partir de certa altura, o fio condutor da história. Cromwell é um homem com uma missão, capaz de ser amável e gélido, fiel ao rei mas movido por um objectivo pessoal. E Henrique VIII apoia-se bem nele. A realização é segura, os diálogos são geralmente perfeitos e os ambientes, discretos, estão bem construídos.
As quase seis horas de "Wolf Wall" terminam com a morte de Ana Bolena. Cromwell consolida, nessa altura, o seu poder. Terá depois um papel fundamental na reforma do Estado e da igreja de Inglaterra mas acabará por ser mandado executar pelo temperamental Henrique VIII por motivos diversos e historicamente ainda controversos.
Não se esperando que a série fosse além da sua origem literária (que se resumem quase a Ana Bolena, com Catarina de Aragão e Jane Seymour com escassíssimo tempo de ecrã), fica no entanto a sensação de que a história fica por terminar e é isso que acaba por diminuir a relevância de "Wolf Hall", mesmo que saibamos com maior ou menor pormenor o que aconteceu nesse período (e no que se lhe seguiu, com Isabel I) e que já tenha havido diversas versões no cinema e na televisão.
No fundo, isto também significa que talvez toda a gente gostasse de ver como é que o Cromwell de Mary Rylance e o Henrique VIII de Damian Lewis continuariam a moldar a História de Inglaterra. Mas, infelizmente, nada feito. 


[Vi "Wolf Hall" numa edição em DVD da BBC para o Reino Unido de 2015, legitimamente adquirida.]

domingo, 9 de agosto de 2015

"Hannibal" e "True Detective": entre o "remake" e a reinvenção


O realizador Michael Mann revelou ao mundo, em 1986, um novo tipo de psicopata assassino: o Dr. Hannibal Lecter, que no seu filme "Manhunter" ("Caçada ao Amanhecer") se chamava Lektor e era interpretado por Brian Cox, visitado na prisão onde se encontrava por Will Graham (William Petersen, acabado de sair do extraordinário "Viver e Morrer em Los Angeles"). Graham procurava apanhar o "serial killer" Francis Dolarhyde e pedia ajuda a Lektor/Lekter.
A história, baseada em "Red Dragon" (o segundo livro do escritor Thomas Harris), repetiu-se em "Red Dragon" ("Dragão Vermelho", 2002), já com Anthony Hopkins como Lecter e sob a direcção de um realizador pouco inspirado, Brett Ratner.
 
 
"Manhunter", 1986


"Red Dragon", 2002

 
Treze anos depois temos, em televisão, a terceira versão da história e o drama, pode dizer-se, termina aqui, depois de ter começado em 2002 com o esgotamento do filão de Hannibal Lecter.
Desta vez, a história de Francis Dolarhyde aparece ensanduichada numa espécie de segunda metade da série televisiva "Hannibal" (AXN), cuja terceira temporada, em curso, parece ser mesmo a última, talvez inevitavelmente.
 

A versão televisiva, transformada em "remake"
 
"Hannibal", a série, começou titubeante, teve uma muito boa segunda temporada e depois caiu.
Há dois motivos para isso: o facto de se ter transformado num "remake" algo condensado e de o filão de base se ter esgotado. Thomas Harris (que brilhou com "Red Dragon", "O Silêncio dos Inocentes" e "Hannibal", perdeu por completo o pé com "Hannibal Rising", em 2006, que deu origem a um filme desinteressante e que foi a sua última obra) não tem mais nada escrito e a sua personagem Clarice Starling, de "O Silêncio dos Inocentes", não podia ser usada nesta série por questões relacionadas com direitos de autor.
A terceira temporada da série é um "remake" dos dois "Red Dragon" e de "Hannibal" (cinema, o filme de Ridley Scott, de 2001, que tem toda a história de Mason Verger e dos porcos) e com uma curiosa homenagem ao filme de Ridley Scott: a cena das tripas do polícia italiano que caem no solo florentino é decalcada de Ridley Scott. Homenagem, ou apenas o reconhecimento de que é impossível fazer melhor?


"Hannibal", 2001

Sem mais material de origem, sem a possibilidade de utilizar a personagem de Clarisse Starling (Jodie Foster/Julianne Moore), que resta a este "Hannibal" televisivo? Pouco, muito pouco, sob o manto de uma banda sonora que parece ter sido inspirada em Penderecki e enfeitado, como uma árvore de Natal, com efeitos gongóricos que só distraem e perturbam a narrativa.

 

A segunda temporada de "True Detective" mantém o nível da primeira (de que aqui falei)

"True Detective" (TV Séries), a segunda temporada, é diferente e ilustra da melhor maneira o preceito de que no "thriller" é mais importante o conteúdo do que a forma.
A segunda temporada desta série (e falta-me ver o último episódio) tem sido quase perfeita.
Há uma ou outra canção como música de fundo que não ficam bem (mas o genérico de abertura ao som fortemente cadenciado de Leonard Cohen é óptimo!) e alguns diálogos são dispensáveis. Mas no resto... está lá tudo: quatro personagens fortíssimas (sobretudo as que são compostas por Vince Vaughn, Colin Farrell e Rachel McAdams) que convergem habilmente no final do primeiro episódio, uma narrativa directa e que não se perde com pormenores secundários, atmosferas asfixiantes e uma cena de tiroteio com uma construção admirável.
O ambiente e os temas (os polícias e os políticos vendidos ao crime, o criminoso que de repente se viu desapossado de quase tudo o que tinha, as obras públicas de cariz suspeito, as várias dependências) podem ser banais mas o que faz uma boa história policial é a capacidade de os combinar, de os reinventar na narrativa, de jogar com o espectador (ou leitor) um jogo de inteligência. E "True Detective" tem isso tudo.
É o que faz de "True Detective" uma série fascinante por contraste, por exemplo, com a série crescentemente entediante em que "Hannibal" se transfigurou.


Actualização (17.08.15) - O último episódio de "True Detective", com os seus 86 minutos de duração, desequilibra a boa impressão deixada pelo conjunto da série. Consta que Nic Pizzolato, autor dos argumentos, e Cary Fukunaga, produtor e realizador, se desentenderam e o que fica é na realidade a desagradável impressão de que esse episódio, desajustadamente arrastado, não teve os cortes de que precisaria.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

"The end": "Penny Dreadful" (T2) e "Justified"


Foi só depois de começar a apresentação da segunda temporada da série televisiva "Penny Dreadful" que fui ver a primeira. O episódio de abertura da segunda temporada é quase incompreensível para quem não acompanhara a primeira mas era suficientemente sugestivo.
Mas a primeira temporada foi mais surpreendente do que sugestiva, no entanto, na sua fusão de elementos, temáticas e autores diversos do fantástico (Mary Shelley e "Frankenstein", H. Rider Haggard, Bram Stoker e "Drácula", lobisomens, diabolismo, superstições egípcias)  na atmosfera da Londres de Jack, o Estripador. Foi como se os criadores da série não soubessem conter-se perante tanta fartura e o melhor exemplo disso foi o da brevíssima entrada em cena de Van Helsing (o veterano David Warner, que pouco sobreviveu).
Livrando-se dos laços demasiado apertados aos clássicos do género, "Penny Dreadful" melhorou, e muito, com a segunda temporada, que mostrou uma maior segurança ficcional e uma narrativa com menos tendências para se perder. E acabou bem, com o misterioso lobisomem, que até pode ser um "sasquatch",  bem interpretado por Josh Hartnett, a caminho da América numa jaula.
A terceira temporada (2016) será bem vinda.



Eva Greene, a enigmática e cativante Vannesa Ives de "Penny Dreadful"


 
"Justified" acabou de vez. Foram seis temporadas que cresceram a partir de um conto do grande Elmore Leonard, com uma interpretação rigorosa e cada vez melhor de Timothy Oliphant na pele de um "U.S. Marshall" (Raylan Givens) numa região atrasada do Kentucky.
O começo foi quase titubeante, como se os seus autores não estivessem seguros do que iam fazer. Mas depois, em 78 episódios, agigantou-se.
O último episódio (o 13.º da sexta temporada) é, aliás, um excelente exemplo de como contar uma história e de como a terminar, desenrolando-se numa série de quadros que preparam o final. Que não é uma explosão de violência, nem um ajuste de contas, mas o momento em que Raylan Givens desiste, contrariado, de usar a sua arma contra o seu contraditório inimigo Boyd Crowder (Walton Goggins), visitando-o depois na prisão para o fim de todos os fins expresso no "leit motiv" que regulou a relação entre os dois: "We dug coal together".
É uma série (sobre a qual escrevi aqui) que deixa saudades.


"Justified": muito bom



quinta-feira, 23 de julho de 2015

Onde é que elas estão?


A terceira temporada já começou nos EUA e está anunciada a quarta


"Orange is the New Black" (sobre a qual já aqui escrevi), "Daredevil", "Mad Men" (a segunda parte, e final, da 7.ª temporada) e "Better Call Saul" - onde é que estão estas séries de televisão?
"Daredevil" parece estar reservado para a Netflix portuguesa, que irá, ao que se diz, arrancar no Outono. "Orange..." (de que até já vi a segunda temporada, em edição legal) é da Netflix e terá sido comprada mas... por quem? "Mad Men", que andou pela RTP2, acabou há dois meses... e nada. "Better Call Saul" (uma curiosidade por ser um "spin-off" de "Breaking Bad") também não aparece.
A programação de séries, nos canais do cabo e sobretudo nos canais generalistas, parece mover-se por motivos aleatórios. É pena, sobretudo quando se trata de séries de qualidade já comprovada.

domingo, 5 de julho de 2015

"The Flash": um triunfo


A série "The Flash", cuja primeira temporada terminou hoje na RTP, é do melhor que já foi feito na transposição do universo dos super-heróis (da banda desenhada) para o audiovisual, do conceito da série às suas várias histórias e ao "arco" destes 23 episódios, passando pela definição e composição das personagens e pelos efeitos especiais.
A Marvel pode estar a ganhar pontos no cinema (apesar de insistir muito no formato da "arte e porrada" com os Vingadores, Thor e o Capitão América) até agora mas a DC (sob a hábil direcção de Greg Berlanti, de "Arrow" e dos futuros "Legends of Tomorrow" e "Supergirl") ganhou muito mais com o triunfo de "The Flash" e com a sua meticulosa e inteligente construção.




quinta-feira, 28 de maio de 2015

Notas em formato de "zapping": à espera

 
1 - "Arrow" teve um bom final, excitante e com uma sequência final intrigante que poderia deixar muitos dos seus seguidores de cara à banda se não se soubesse que já está prevista uma quarta temporada e que o Arqueiro Verde é uma personagem perene do universo DC. No Outono já se saberá.
Menos excitante foi o final da primeira temporada de "Gotham", com o jovem Bruce Wayne e o enigmático Alfred na passagem secreta para a futura batcave", ao som do que se pode pensar serem morcegos. No outono também se verá.
 
2 - A terceira temporada de "House of Cards" teve um fim sem grande elevação, com Frank e Claire num braço de ferro do qual se pode supor que sairá vencedor o ainda (e futuro?) presidente dos EUA. Continua a ser interessante mas o ambiente da Casa Branca desta série parece demasiado simplista, quando se recorda o requinte de pormenor de "Os Homens do Presidente". E essa falta de realismo também mina a história.
 
3 - "A Guerra dos Tronos", nesta sua quinta temporada, marca passo. Há muitas personagens, muitos ambientes e é necessário dispor bem as peças neste tabuleiro de xadrez, mas já lá vão seis episódios de um conjunto de dez e continuamos à espera.
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4 - Tal como eu continuo à espera de uma explicação do Provedor do Espectador da RTP sobre o "desaparecimento" do episódio 11 da primeira temporada de "The Flash", série que, sendo uma das melhores do seu segmento, está a ser tratada como lixo pela televisão dita "de serviço público", que prefere muitas e variadas porcarias mais próprias dos canais mais rasteiramente comerciais à qualidade.
 
 


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Notas em formato de "zapping": nem o Provedor da RTP justifica a ausência de "The Flash"...

1 - Reitero o que escrevi (a RTP não transmitiu o episódio 11 da temporada 1 de "The Flash") e acrescento um pormenor: tendo inquirido o Provedor do Telespectador (é assim que se chama?) sobre o assunto, não tive resposta. Repare-se no seguinte: a RTP comprou os direitos de transmissão da série, assumindo o compromisso de a passar e, tendo começado a fazê-lo, assumiu com o público (e o público da RTP é um público que paga o seu serviço, por via da malfadada taxa mensal de radiodifusão) o compromisso de a mostrar e na íntegra. Mas não o faz. Ou seja: nem sequer corresponde ao que os clientes lhe pagam. 

2 - A temporada 5 da "Guerra dos Tronos" começou lentamente, o que se compreende pela diversidade de personagens que têm de ser postas no terreno, mas o ambiente já se tornou mais animado no episódio 3. Espera-se que não caia na mesma modorra em que caiu "The Walking Dead".

3 - "Powers", em transmissão pelo TV Séries, é uma variante muito interessante das histórias de super-heróis, recorrendo aos universos de certa forma paralelos aos dos super-heróis tradicionais (ou "institucionais"), que estão limitados em muitas coisas. O autor da história original, Brian Michael Bendis, trabalhou durante dez anos na Marvel, tendo participado no desenvolvimento da série "Ultimate" e, nomeadamente, nas histórias do Demolidor. "Powers" é capaz de se ficar apenas por uma temporada única mas isso não significa que não tenha uma qualidade muito própria.