Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Adeus a Lee Child

 
Li o primeiro livro de Lee Child em 2002, penso que "The Killing Floor", comprado autografado numa livraria do centro comercial Apolo 70, e gostei de imediato da personagem de Jack Reacher.
Li praticamente todos os seus livros desde então e só posso elogiar o modo como Child construiu a imagem física do seu herói e a fez entrar em histórias bem escritas e bem contadas.
No entanto, não gostei mesmo nada de saber que o actor Tom Cruise se apropriou da personagem de Jack Reacher (num filme de 2012) e até pensei que a tolice se resumiria a um único episódio. Cruise terá 1,70 de altura e Jack Reacher tem dois metros. Pela descrição, a presença física de Reacher é impressionante. Cruise não é. É como ter um carapau em lugar do tubarão branco que é a estrela do "Tubarão" de Spielberg.
Porque é possível alterar uma personagem mas não uma personagem que foi sendo desenvolvida e estruturada ao longo de quase vinte anos e cuja dimensão corporal é quase sempre fundamental para os segmentos mais importantes da narrativa.
Fiquei a saber agora que Cruise vai voltar a ser Jack Reacher (o segundo filme estreia-se no próximo ano).
Lee Child, que andou tantos anos à espera de ver as suas histórias no cinema, não terá sabido resistir ao disparate (e ao dinheiro, muito provavelmente). E pelo andar da coisa ainda começa a encolher Jack Reacher, cortando-lhe os trinta centímetros que o separam de Cruise. É um pouco como uma antiga anedota em que figura Bocage e em que intervém um periquito.
Por isso, desisto de Lee Child.
Pode ser que releia alguns dos seus livros a.C. (antes de Cruise) mas tenho tantas outras coisas para ler que até me parece que nem terei tempo...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Uma proposta modesta para os autores em "self-publishing"


Títulos pronto-a-vestir tipo Empresa na Hora:


A Cidade dos Pinguins Uivantes (drama social)

O Pico que Pica no Inverno do Nosso Descontentamento (romance histórico)
 

A Ria Que Não Corria (poesia)

O Meu Avô Vivia na Gaveta do Meio da Mesa de Cabeceira (memórias)
 

A Marcha Lenta do Caracol na Parede da Casa (romance)
 

Orvalho Nocturno, Lágrima Diurna (história de amor)
 

Hóstias Fálicas (pedofilia na Igreja)
 

O Flautim do Conquistador (porno para mamãs)
 

A Cadela do Colar Vermelho (porno para papás)
 

Falas como Falo (porno para intelectuais)
 

A Minha Sopa de Peixe É Melhor do que a Tua (receitas ditas por apresentadores esgazeados de televisão)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Não querem roubar os autores, pois não?


Um apontamento que publiquei hoje sobre a pirataria num grupo do Facebook (Grupo de Livrólicos Anónimos) com o título "Não querem roubar os autores, pois não?":
 
Quem escreve uma história que depois vos chega às mãos, para lerem (em livro) ou verem (na televisão e no cinema) não o faz por caridade. É o seu trabalho e é a sua profissão e tem de ser remunerado por isso. (O seu investimento não é pagar para ser publicado, de uma forma ou de outra, mas dedicar-se à escrita e escrever.)
Essas pessoas (os autores) só são remuneradas se aquilo que escrevem for vendido. Ou seja, se o público pagar para ler ou ver a história.
É do público que, de uma forma ou de outra, depende também a remuneração de quem publica, de quem vende os livros, de quem revê, edita, pagina e traduz (no caso de obras estrangeiros). O mesmo se passa, na televisão e no cinema, com a remuneração de actores, realizadores, produtores, guionistas e todos os restantes técnicos que trabalharam para concretizar a obra filmada.
Ir "sacar" "à net" livros e filmes e séries de televisão é um acto que retira a remuneração aos que tornaram possível pôr à disposição do público - à vossa disposição - uma história. É por isso que, sem tremendismos, é correcto classificar esse acto como pirataria e como crime. A ninguém passa pela cabeça assaltar um autor para lhe roubar a carteira, pois não?
Choca-me, por isso, e como autor, ver como se considera (mesmo aqui, entre quem gosta de ler uma história e, parece-me, respeita os autores) que não é um roubo ir "sacar" "à net" séries de televisão, filmes ou mesmo livros. E quase sempre, aliás, em deficientes condições técnicas - como um livro sem algumas das suas páginas.
E o argumento, que já tenho visto ser utilizado, de a pessoa não ter dinheiro para comprar o livro, por exemplo, não colhe. Quantos de vós é que, não tendo carro próprio, foram roubar o carro a alguém para se deslocarem? E seriam capazes de o fazer?
Julgo que o Grupo dos Livrólicos Anónimos e os seus membros deviam pensar bem nisto e no modo como, em certos casos, podem estar, directa e indirectamente, a prejudicar os autores.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lá chegará o dia...

... em que todos os escritores (e garanto-vos que há muitos, mas mesmo muitos, em Portugal) ganharão em indicar nos seus currículos, ou listas pessoais do que escreveram, as obras publicados por editoras "normais", as que fazem contratos relativos aos direitos de autor e não cobram aos autores, ou por aquelas editoras que, tendo mesmo designações simpáticas, cobram aos autores pela publicação das suas obras.
É que, no primeiro caso, há uma espécie de certificação externa: a editora gostou da obra proposta pelo autor, achou que teria potencial comercial e investiu o tempo de um dos seus profissionais no trabalho sempre imprescindível de "editing"; e, no segundo, a editora serviu de intermediária entre a pessoa que escreveu e a empresa que a imprime, recebendo da primeira uma determinada quantia (quase sempre transformada na compra de um número determinado de exemplares) para suportar esse processo, sem atender à qualidade (muita, pouca, assim-assim) do texto ou à falta dela.
E, infelizmente, o leitor e/ou comprador não se apercebe, em muitos casos, da diferença que até é importante.

domingo, 28 de setembro de 2014

Sobre a necrofilia, a propósito de "Alabardas"

Uma obra criada por um autor é, para mim, um objecto completo.
Como leitor ou espectador de cinema, interessa-me a história completa, o livro tal como o escritor o escreveu e foi depois publicado, o filme tal como o realizador, o argumentista e o produtor o tornaram possível. É desse modo que um e o outro objecto são postos à disposição do público.
Posso ter interesse no livro ou no filme inacabados, no "director's cut" de um filme ou no romance que, por razões alheias à arte, o editor não publicou. Mas, nestes casos, a minha curiosidade advém do conhecimento que possa ter das outras obras do autor e da curiosidade de confrontar uma obra incompleta com todas as outras ou da sua relevância histórica, cultural ou mesmo política.
Serguei Eisenstein teve planos, aparentemente, para um terceiro "Ivan, o Terrível" e desse projecto só restou um fragmento. As suas filmagens no México deram origem a duas versões diferentes, construídas já depois da sua morte com vinte anos de distância. Vi uma delas e não me entusiasmou como "Ivan, o Terrível" ou "O Couraçado Potemkin" ou mesmo "Alexander Nevsky". Não era Eisenstein, era apenas uma parte de um seu trabalho.
José Saramago deixou uma história inacabada que seria, as informações não coincidem, novela ou romance. Melhor: a história, com três capítulos, não está inacabada. Está apenas começada. Haverá quem queira conhecer o texto, haverá quem, sabendo que ele não termina, não o queira conhecer.
As herdeiras de Saramago e a editora que agora detém os direitos das suas obras não foram dessa opinião e os três capítulos aparecem agora em livro. Não por si, como uma obra completa, mas acompanhadas (pela descrição) de vários outros textos que já permitem transformar três capítulos num livro... comercializável.
E é aí que nasce a dúvida. Estes três capítulos representam na sua integralidade o projecto do autor (morto antes de poder dar seguimento à história)?
Sabemos, aparentemente, qual é a última linha de diálogo com que a história terminaria mas nunca a leremos. Porque não existe.
E, nesse caso, não teria sido preferível respeitar a natureza e respeitar o autor, mantendo a reserva sobre uma história por escrever?
Ou, então, optando-se pela sua divulgação (para a qual o autor não foi consultado), não teria sido de maior lisura oferecer os três capítulos aos potenciais interessados, disponibilizando-os gratuitamente? Poderá dizer-se que, desse modo, o autor não seria remunerado pelo trabalho feito. Mas o autor, já ausente deste mundo, nunca poderia usufruir dos seus proventos. E, sendo Saramago um vigoroso combatente do capitalismo, não se justificaria que, em sua memória, prescindissem o editor e as herdeiras dos lucros da publicação, que será decerto muito mais aliciante para os estudiosos da sua obra e para os seus fãs indefectíveis?
É que, não sendo esse o caso, a iniciativa da publicação de "Alabardas", a versão curta do que seria o título original ("Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas") da história que ficou por escrever, assemelha-se a um exercício de necrofilia. Obviamente lucrativo.  

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Lembram-se da Colecção Argonauta?

 
Ao tentar confirmar o conteúdo de um volume famoso de uma colecção não menos famosa (o n.º 100 da extinta Colecção Argonauta, da editora Livros do Brasil) foi dar com um blogue onde, com paciência, rigor e carinho, se faz o inventário do que foi a primeira, e talvez única, grande colecção de histórias de ficção científica publicadas em Portugal. Intitula-se mesmo Colecção Argonauta e está aqui, com todas as capas, fichas técnicas e sinopses dos seus 552 volumes.
É, em si, uma obra de mérito cultural, da autoria de João Vagos, que também arranjou tempo para registar todos os pormenores de outras colecções famosas.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Três escritores e três bloguistas em debate na Feira do Livro de Lisboa

 
 
 
 
 
Três escritores, três bloguistas e um jornalista num encontro que pode ser bem interessante no dia 7 de Junho, sábado, na Feira do Livro de Lisboa. A iniciativa foi de Sofia Teixeira, a animadora do blogue BranMorrighan, com apoio da editora Topseller.
Os escritores são Afonso Cruz, Tânia Ganho e o autor deste blogue, Pedro Garcia Rosado. Com Sofia Teixeira estarão Vera Brandão (Menina dos Policiais) e Márcia Balsas (Planeta Márcia). João Paulo Sacadura apresenta o programa "Cartaz das Artes" na TVI.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"Simplesmente Maria" em versão Anita reinterpretada por Maria João e dissecada pelo Malomil

O sempre interessante blogue Malomil fez mais uma admirável desconstrução de um livro, neste caso de uma versão curiosa tipo Anita de memórias políticas de curtíssimo prazo de uma personagem que narra a sua vida político-institucional na terceira pessoa.
Com o título genérico, obviamente bem escolhido, de "Simplesmente Maria", a dissecação da coisa pode ser lida aqui e, fica o aviso, atenção aos efeitos secundários. Eu fiquei estupefacto com a matéria de facto mas dei algumas boas gargalhadas. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reflexões sobre a literatura "policial" (12): os leitores

Os leitores que apreciam o "thriller" são, simultaneamente, os mais inteligentes e os mais exigentes de todos os leitores: aceitam um género literário que tem regras mas têm uma abertura de espírito, de raciocínio e de discernimento que, esperando o cumprimento de pelo menos algumas dessas regras pelos autores, que lhes permite encarar sem preconceito histórias capazes de emocionar, inquietar e assustar, mas a que exigem rigor de construção e de desenvolvimento. Talvez não haja outro género em prosa (além da literatura confessional, caída em desuso), capaz de criar um diálogo tão grande entre o autor e o leitor.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

E que tal um encontro nacional de blogues literários?

... Ou Encontro Nacional de Blogues Literários?
Ou a mesma coisa com outra designação qualquer?
Pode servir para os seus autores e autoras se conhecerem. Para trocarem impressões. Para pensarem no futuro.
Para mostrarem que existem e que até têm a força que só leitores informados e com opinião podem ter. E para, mostrando que existem, levar as pessoas que lêem a comprarem mais livros, sejam eles quais forem.
E para muito mais, talvez.

domingo, 4 de agosto de 2013

Em louvor dos blogues literários


Em tempos que já lá vão (antes do 25 de Abril, por sinal), a crítica literária em Portugal era uma coisa pujante.
Praticavam-na jornalistas, estudiosos e teóricos e práticos da literatura (de Álvaro Salema a João Gaspar Simões) e muitos outros cronistas e numa perspectiva muito saudável: quase todos transmitiam as suas opiniões e faziam-no sobre a matéria de facto - sobre os livros, que realmente liam. E até será interessante recordar que houve um momento em que todos os jornais de expansão nacional (os matutinos "Diário de Notícias" e "O Seculo" e os vespertinos "A Capital", "Diário de Lisboa", "Diário Popular" e "República" tinham todos suplementos dedicados à literatura e ao cinema.
A crítica literária (tal como a crítica de cinema, já agora) desapareceu. Pelo menos se a considerarmos numa perspectiva abrangente, sem preconceitos nem amiguismos e ódios de estimação, indo além das sinopses e da cópia dos "press releases" e da espuma das modas.
O panorama, sobretudo para quem conheceu e conhece outras realidades, é deprimente. Só que se nota pouco porque, na prática, não está "on line".
Este deserto torna mais relevante o papel dos blogues literários, que acabam por substituir a crítica literária.
Animados por pessoas que gostam de ler e que na realidade lêem os livros (na sua maior parte, seguindo os próprios gostos, o que é mais do que legítimo), estes blogues têm florescido nos últimos anos de múltiplas formas e, além de serem um exercício legítimo de opinião, acabam por cumprir duas funções inestimáveis: não só divulgam livros e conquistam novos leitores como guardam a memória do que vai sendo publicado.
Aparentemente, esboçou-se há pouco tempo uma polémica sobre o que os autores e autoras destes blogues "deviam" fazer: pensar só nos autores portugueses e insistir nos "e-books". É uma perspectiva tonta.
É um erro pensar em impor limitações aos blogues.
Que floresçam, vivam à vontade, publiquem as opiniões que quiserem, seleccionem o que muito bem lhes aprouver. A democracia é assim, a cultura sai valorizada e a nossa civilização reforçada.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ignorância

 
Será, acho eu, impensável que um fabricante de perfumes e/ou de gel de banho lance um produto novo sem qualquer tipo de estudo de mercado, mais ou menos exaustivo. Sobretudo se se trata de um grande fabricante, por muito que os custos de um produto por acaso mal sucedido se possam diluir nos resultados globais.
Um fabricante de menor dimensão, quase artesanal, com uma menor estrutura de custos, uma maior atenção aos pormenores e uma capacidade de inovação mais rápida, poderá mais facilmente dispensar esse exame à opinião dos consumidores.
Por isso, há qualquer coisa de estruturalmente errado quando um grupo empresarial de grandes dimensões que vende livros (que não nasceu do interior mas que foi formado do exterior e onde não prevalece a opinião dos conhecedores mas dos gestores) desconhece por completo as potencialidades dos produtos que tem e as tendências dos consumidores que os podem comprar, optando por navegar à vista e apenas com base no que vai vendendo mais ou menos ao sabor das modas.
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Escrytos: um jogada inteligente, a ley do eucalipto e algumas questões a propósito



 
Se conjugarmos a apetência portuguesa pelos "gadgets" e uma certa disponibilidade para o usufruto dos produtos culturais (que, de preferência, não tenham de ser pagos), é intrigante a quase irrelevância dos "e-books" em Portugal.
Da forma mais empírica possível (e nem sei se há elementos de análise), é fácil perceber como "toda a gente" faz "downloads" de filmes, séries de TV e música e como há pessoas que compram livros em supermercados, na maior parte dos casos sem disporem de critérios ou de informação para lá da capa ou de que poderão ter conseguido, ou ouvir, na televisão. Se houvesse mais "e-books", haveria mais pessoas a querer ler livros? Penso que sim.
A explicação para a ausência dos "e-books" pode ter subjacente uma lógica de pescadinha-de-rabo-na-boca: o público que os poderia procurar não se manifesta interessado porque nem os encontra (as editoras que vendem "on line" não têm os "e-books" à vista, por assim dizer), os editores não investem e por isso não há oferta... e o público passa ao lado.
 
As novas edições de autor
 
Por outro lado, a ausência de visibilidade dos "e-books" também tem permitido a proliferação de uma vertente de negócio bastante discreta: a auto-publicação, ou edições de autor, como antes se dizia.
Muitas pessoas que escrevem optam pelo pagamento das edições dos seus próprios trabalhos porque não os conseguem vê-los aceites pelas editoras para serem publicados em livro impresso.
Hoje, sobretudo a partir do momento em que se generalizou a impressão digital, existem no mercado empresas diversas que publicam, à sua maneira, as edições de autor: os autores escrevem, pagam a edição e ela sai, com maior ou menor êxito de colocação nos postos de venda, em livro com uma marca do editor. Os autores raramente ganham alguma coisa, estes editores não perdem dinheiro e o público não vê as obras.
Quando, há dias, escrevi isto, estava a pensar na alteração deste paradigma: e se quem escreveu um livro conseguisse, com um mínimo de apresentação e de custos (ou mesmo gratuitamente), fazer a sua divulgação em formato digital?
Em termos práticos, e numa fase em que as editoras se retraem, numa mistura de auto-protecção, "downsizing" e auto-flagelação pelos excessos do passado, uma pessoa pode escrever uma história extraordinária que não seja catalogável, tipo pronto-a-vestir, como "best seller" e torná-la pública, em formato digital. Não gasta dinheiro na impressão em papel, pode conseguir mais leitores e, um dia, uma editora pode mostrar-se interessada na sua publicação em livro impresso.
 
A Escrytos
 
É possível que a Leya, onde existe a tendência para misturar os picos de inovação com retracções apressadas, tenha considerado todos estes vectores quando decidiu avançar com a sua plataforma de auto-publicação, a que chamou Escrytos.
Nela, da forma mais simples e obviamente gratuita, qualquer pessoa pode publicar o que quiser (supondo que se aplicam todos os parâmetros legais em vigor quanto aos conteúdos) como "e-book", vendo depois o seu produto comercializado pelo preço que quiser, ou mesmo oferecido, nos postos de venda onde a Leya vende os seus "e-books".
Se o interessado quiser ir mais longe e, mesmo, propor a sua publicação em papel à Leya, terá de pagar "à la carte" os serviços mais especializados que são postos à sua disposição. A iniciativa é, sem dúvida, inteligente.
 
Duas observações
 
Pelo menos gradualmente, será natural que a Escrytos acabe por levar à extinção as empresas que sobrevivem graças à auto-publicação em papel. É uma lógica de eucalipto que é inevitável. A evolução do mercado dirá da bondade ou da maldade da coisa.
Por outro lado, e na ausência de critérios de base, misturar-se-á na Escrytos tudo com tudo - o que é bom e o que não é, os versos de pé quebrado com a melhor poesia, as confissões diaristas com os contos mais habilidosos, os ensaios sobre tudo com os trabalhos científicos mais inovadores, os romances mais desastrados com as potenciais obras-primas. Para alguns autores e potenciais autores pode não ser a melhor opção.
A alternativa, mais tarde ou mais cedo, será uma editora de "e-books" num formato de negócio semelhante, capaz de distinguir a qualidade e de a promover, sem descurar a possibilidade de optar também por edições em papel se as circunstâncias o facilitarem, procurando um novo paradigma capaz de captar tanto os entusiastas dos "gadgets" como os leitores tradicionais.
Como em tudo, a concorrência é saudável e a capacidade de debater sem preconceitos também.


Nota: Os termos do contrato a estabelecer com a Leya no âmbito deste formato de edição não estão, salvo erro, abertamente disponíveis no site e poderão estar apenas visíveis na área reservada em que o "autor" tem de se inscrever.
Seria, no entanto, preferível que todas as condições fossem bem claras.
Se a informação sobre os cinco anos de "venda da alma", como bem diz o meu visitante anónimo no comentário publicado, é verdadeira, parece-me no mínimo excessivo.
A restrição dos cinco anos pode, muito naturalmente, afastar algumas pessoas, que ficarão mais disponíveis para iniciativas semelhantes mas menos exclusivistas.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A enciclopédia da caca

A caca apresentada na capa é do dromedário
Há cerca de dez anos deparei-me com um objecto estranho no último andar da loja da loja da Benetton no Chiado, em Lisboa: um livro em formato de álbum como nunca tinha visto. Foi uma surpresa que me custou 1 euro.
Intitulada "Cacas - The Encyclopedia of Poo" (ou seja, "A Enciclopédia da Caca"), esta obra é da autoria do fotógrafo Oliviero Toscani, um dos fotógrafos mais controversos e provocadores que trabalharam para a United Colors of Benetton.
O livro foi publicado em 2000 pela editora alemã Taschen com a chancela Evergreen e o "carimbo" Colors, associado à Benetton, e é - como diz o próprio autor - uma homenagem à merda.
No interior deste álbum de 115 páginas há 67 fotografias de excrementos de tantos outros animais e também do ser humano e uma profusão de notas a propósito de cada exemplo, de carácter científico, cultural, social e... civilizacional.
Com o seu formato de 26 por 26 centímetros, tem uma paginação impecável e, por exemplo, se a fotografia da caca de uma tarântula ocupa pouco mais do que um centímetro quadrado já a caca de um gorila ocupa duas páginas, parecendo um maciço rochoso sobre fundo branco.
"Cacas" parece ser um objecto raro, embora ainda se encontre à venda na Amazon, por exemplo, e é natural que a temática e o realismo das imagens (e, de facto, já vi pessoas que se recusaram a pegar no livro...) o tenham transformado num livro maldito e acabem por chocar os mais sensíveis. Ou os mais complexados, talvez.
A pequena introdução do autor é, aliás, esclarecedora:
"Ela é tão natural para nós como respirar. E, no entanto, quantos de nós vacilamos só peranta ideia de olhar para ela, de lhe tocar e de a cheirar? Libertamo-nos dela por detrás de portas fechadas, afogamo-la em cataratas em casas de banho imaculadas. Ai de quem fale nela junto de pessoas polidas. É um dos últimos tabus da sociedade 'civilizada'. Mas basta! Porque ela é o recurso mais subestimado à escala mundial: combustível, material de construção, obra de arte, vestuário, sempre diferente e sempre única (nunca encontrarão duas iguais). Tem a idade do mundo. E é inesgotável. Chegou o momento de homenagear a merda."

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Os e-books e o dedo no buraco

 
A aparente relutância dos editores portugueses perante os e-books faz-me lembrar a imagem tradicional de quem tenta travar a derrocada de um dique com o dedo que enfia no buraco de onde está a começar a sair um fio de água.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A polémica sobre o Plano Nacional de Leitura...

... é sugestiva, depois de aparecer recomendado a crianças um livro para adultos, com a autora, Alice Vieira, a chamar "energúmenos" aos seleccionadores das obras (pormenores aqui).
Sobre outra particularidade do dito Plano Nacional de Leitura já eu tinha escrito aqui em Março deste ano: uma recomendação também bastante descuidada do sobrevalorizado "Papalagui".

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ler no comboio

Uma reportagem interessante do "Público": Há cada vez mais livros a viajar nos transportes públicos.
O aumento dos passageiros nos comboios (talvez de um novo tipo de passageiros, que antes utilizavam carro próprio) e a diminuição da oferta dos jornais gratuitos (que podem ter criado alguns hábitos de leitura) são dois elementos a ter em conta. Haverá aqui uma janela de oportunidade para os livros de bolso na sua versão anglo-saxónica? Talvez as editoras devessem olhar com alguma atenção para este pormenor.
 
 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Maria Barroso

O "Sol" tem estado a publicar em vários volumes uma colecção com as memórias de Maria Barroso e as suas cartas ao marido, Mário Soares, nos seus anos de exílio, que são um documento histórico (e político) e também pessoal muito interessante.
Maria Barroso, que foi actriz e dirigiu quase sozinha o Colégio Moderno, foi de certa forma eclipsada por Mário Soares depois do 25 de Abril quando o então secretário-geral do PS iniciou a sua caminhada para o poder. Passou depois à categoria de "primeira dama" e manteve essa posição à sombra do ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República.
Mas talvez devesse ter tido um papel mais activo na vida política nacional. As cartas, dirigidas ao marido exilado entre 1961 e 1974, revelam uma mulher de espírito forte, inconformista, crescentemente magoada pelo afastamento e consciente - e como o mostram as cartas... - de que, mesmo à distância, servia de apoio a Mário Soares. Já não lhe descascando as laranjas mas tratando-lhe de tudo o que podia tratar em Lisboa, incluindo roupas e outras coisas bem mais mundanas.
Estas cartas assumem um outro significado quando se repara como há segmentos omitidos e ficaram públicos outros de tom bastante crítico, que visam também personalidades públicas e o próprio filho, João, por exemplo. Aliás, as passagens sobre João Soares talvez ajudem a perceber por que motivo o filho de Mário Soares não conseguiu chegar aos lugares cimeiros onde o pai chegou.
O seu conteúdo, ou o facto de serem uma edição do mal-amado "Sol", pode, aliás, justificar o silêncio que rodeia esta iniciativa editorial.

sábado, 18 de agosto de 2012

Plano Nacional de Leitura em versão expresso para a aristocracia intelectual

O "Expresso" decreta, hoje, que há cinquenta livros que todos devemos ler e faz um inventário, com as devidas justificações. 
É pena que não faça acompanhar a coisa de uma espécie de teste: quem leu menos de cinco livros desta lista é obviamente iliterato; quem leu menos de dez é anti-social; quem leu entre dez e vinte é vagamente culto... e por aí adiante.
Eu li oito ou nove desses títulos. E muitos, muitos outros, em alguns múltiplos de cinquenta. Mas claro: tudo fora deste cânone. E isso fará de mim o quê?

terça-feira, 5 de junho de 2012

Fora de moda

De há vários anos a esta parte tornou-se um lugar comum - em cada entrevista/inquérito/seja lá o que for de uma figura mais ou menos pública - dizer-se que se andam a ler a vários livros ao mesmo tempo. Um deles, já se sabe, está na mesa de cabeceira (normalmente o mais "profundo"), mas os outros... não se sabe se residem na sala ou na casa de banho.
Estranhamente, nunca ninguém se lembra de ir mais longe para tentar saber qual é o método utilizado para esse tipo de leitura salteada.
Eu nunca consegui ler mais do que um livro ao mesmo tempo, salvo se o segundo livro for algo que esteja mesmo obrigado a ler, por qualquer motivo profissional ou outro. E o mesmo se aplica às obras que traduzo: prezando os estilos, não quero meter-me a traduzir dois livros ao mesmo tempo e correr o risco de produzir híbridos, mesmo que isso signifique não aceitar certas propostas de trabalho.
Estarei, como agora se diz, fora de moda?