sábado, 31 de janeiro de 2015

Estrangeirismos idiotas

 
Não sou um purista da língua portuguesa e, pesando todas as diferenças, li com gosto Aquilino Ribeiro e José Saramago e as suas inovações em matéria de "conteúdo" e "forma". (E convém sempre dizer, até por ser verdade, que não concordo com o Acordo Ortográfico e que, nos meus escritos pessoais, não o aplico.)
Há coisas, no entanto, que continuo a achar idiotas, sobretudo por serem adaptações mal digeridas do inglês, preterirem palavras ou expressões portugueses até mais elegantes e resultarem, de certa forma, de fenómenos de moda (como o foram, nas suas épocas, expressões como "na medida em que" ou "é assim").
É o caso de "resiliência" (resistência, ou capacidade de resistência), "alegadamente" (pode sempre usar-se, por um exemplo, um cauteloso "terá", coisa com que nunca nenhum jornalista se deu mal), "detalhar" (pormenorizar) e do mais horrendo "panicar" que parece significar "entrar em pânico".
Há uma tendência portuguesa para "comer" bocados de palavras (que terá sido explicada por Agostinho da Silva pelo medo de falar abertamente, que foi uma das tristes heranças da Inquisição e do Estado Novo, e que parece ser característica do falar lisboeta) mas esta tendência pacóvia de adoptar estrangeirismos a esmo terá mais a ver com o facilitismo e com algum défice de discernimento.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O buraco como imagem de marca de Caldas da Rainha

 
 
A cidade de Caldas da Rainha não tem um problema de estacionamento. Nem o tinha, sequer.
Pela minha própria experiência nunca precisei de andar mais do que dez minutos às voltas para encontrar onde estacionar na zona do centro da cidade e, que me lembre, só recorri uma vez a um parque pago e apenas por minutos.
Até agora, a capital do concelho de Caldas da Rainha, e com acesso directo ao centro numa distância que varia e cujo tempo de deslocação a pé varia também entre os três ou quatro minutos e os dez minutos, ou menos, dispunha de um parque coberto e pago (Centro Cultural e de Congressos), ao ar livre e pago (Montepio Rainha D. Leonor) e de um parque num enorme terreno livre que não é pago. Nas ruas próximas do centro, a dificuldade em arranjar lugar era também variável e os parquímetros não funcionavam.
A Praça 25 de Abril (com a Câmara Municipal, as Finanças e o Tribunal), com estacionamento mais ou menos desordenado à volta da sua zona central circular ajardinada, podia ser um problema.
Mas bastaria restringir ou interditar o estacionamento nessa rotunda para reduzir a presença dos veículos no local.
Como se viu, com as obras que arrasaram a praça, esse estacionamento nem fazia falta.
E note-se que é considerável o movimento automóvel na cidade, o que também tem a ver com o facto de muitas pessoas que trabalham em zonas centrais da capital do concelho viverem na periferia e usarem carro próprio como transporte.
É por isso que a decisão de construir um enorme parque subterrâneo na Praça 25 de Abril é perfeitamente absurda e inútil. Mais a mais, tratando-se de um parque pago porque, não havendo falta de estacionamento grátis, quem é que vai pagar para ir lá meter o carro, por exemplo, durante as horas em  que está a trabalhar?
Esta obra, que parece estar perto do fim e que se prolongou por muito mais de um ano, furando todos os prazos sem que os respectivos construtores fossem chamados à responsabilidade e sem que a Câmara Municipal prestasse contas, não é só inútil.
É típica de uma gestão urbana que não sabe onde gastar o dinheiro, que prefere as grandes obras de fachada (e que tal um aeroporto? Ou uma universidade? Ou um estádio olímpico?...), que só pensa na imagem e que pouco mais vê além do próprio umbigo.
É pouco provável que haja muitos presidentes de câmaras municipais que transformem a construção de um estacionamento inútil na grande obra do seu reinado. Mas este presidente, que cultiva tanto a imagem, foi o que fez.
Esqueçam Bordallo, os falos, a cerâmica ou a Lagoa de Óbidos. Porque talvez um buraco no solo, por acaso com estacionamento lá em baixo, seja a melhor imagem de marca para o concelho de Caldas da Rainha, a partir de agora. 


Pode ser que o presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha
instale o seu gabinete lá bem no fundo do buraco...






segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

"Robin Williams", de Emily Mortimer

 
Robin Williams, comediante e actor (1951 - 2014), entrou em 70 filmes mas só uma dezena terá tido no nosso país, e noutros, além dos EUA, o destaque justificado.
E mesmo um dos quatro em que entrou no ano passado ("Boulevard", de Dito Montiel), que deve ter sido um dos últimos em que melhor esteve, nem sequer se estreou, ou estreará, em Portugal.
Além disso, a série televisiva que o lançou ("Mork & Mindy", 1978 - 1982) também não passou na televisão portuguesa. 
No entanto, foi pelo cinema que o público fora dos EUA o conheceu porque a sua faceta de comediante, em grandes palcos com transmissão directa pela televisão e nos espaços de comédia "stand up", ficou mais restringida aos países de língua inglesa, devido à especificidade da língua.
Isso explica, por outro lado, a desproporção de reacções sentimentais ao seu suicídio, em Agosto do ano passado.
Este livro sobre o actor, "Robin Williams", da jornalista inglesa Emily Herbert (ed. Clube do Autor, tradução minha, agora publicado), dá-nos, nessa perspectiva, uma visão global do homem e dos diversos problemas que assombraram a carreira desta lenda do "entertainment" norte-americano, com uma mais-valia interessante: a sua filmografia completa, com indicações suplementares sobre os filmes que passaram em Portugal.

domingo, 25 de janeiro de 2015

"Não beba e caminhe na estrada, que pode ser morto"







Já vi vários avisos sobre a moderação no consumo do álcool mas este é completamente novo: "Don't drink and walk on the road, you may be killed". Ou seja: "Não beba e ande na estrada, que pode ser morto".
É um vinho regional alentejano de Arraiolos que é exportado para a África do Sul.
Terá sido um lapso de escrita ("andar na estrada", mas mesmo assim...) ou algum aviso pensado exclusivamente para África?

Um apontamento politicamente incorrecto sobre a questão das urgências hospitalares


As taxas moderadoras em muitos casos já nada "moderam" porque são frequentemente desproporcionadas: quem ganha 750 euros por mês paga exactamente o mesmo que paga quem ganha por mês 1500, 5000 ou 10 000 euros.
O aumento e a diversificação das taxas moderadoras e as suas receitas permitiria decerto alargar nos hospitais instalações, serviços e horários, comprar mais equipamento e contratar mais pessoal. E, ao mesmo tempo, criar nos centros de saúde (e/ou alargar os seus horários de funcionamento), estruturas de acolhimento de certas urgências que não exigem tratamento hospitalar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O pobre das Caldas que foi comprar um Ferrari

Foi de fato e gravata, barbeado, apresentando-se bem falante e, talvez por um primo ser do mesmo partido do dono da empresa, comprou um Ferrari.
Com crédito, claro, que umas vezes é fácil e outras não. Vai andar de Ferrari por aí mas pagá-lo é que não. A família, que pode até dar umas voltinhas, que se desenrasque com o custo.
Foi um negócio assim que o presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha fez com as Termas das Caldas, com a ajuda do "primo" Governo (que parece ter ficado surpreendido) e uma complacência estranha da Assembleia Municipal. O custo da brincadeira será um milhão de euros por ano. Nós pagamos, claro.
É um negócio de loucos, de quem parece ter muito dinheiro sem no entanto passar de um pelintra. É uma espécie de "de boas intenções está o inferno cheio" e nós que ardamos nele.
O Governo quis livrar-se do hospital termal e do conjunto arquitectónico e paisagístico adjacentes, que não conseguia, ou não queria, gerir e sustentar e fez uma proposta de cedência à Câmara. E esta... foi na conversa. Dá-lhe jeito, internamente. Junta-se a fome à vontade de comer. Mas a refeição é cara.
O presidente da Câmara, que nem sequer terá encontrado parceiro externo para o empreendimento (nem sequer a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), está vagamente ciente dos custos e, talvez num deslize de sinceridade, confessou-se "preocupado às boas almas da Assembleia Municipal que acharam que o essencial seria o património das termas estar "do lado de cá": a brincadeira vai custar um milhão de euros por ano, pelo menos, e durante 50 anos.
Só que os benefícios para o presidente e para o PSD local, que tão bem quer servir, sobrepõem-se, como se sobrepuseram, a outras "preocupações".
Veja-se só: a Câmara conseguiu finalmente ficar com as termas; haverá projectos, concursos, declarações de boas intenções e, com estas e outras (que as oposições não percebem), ganham-se outra vez as eleições autárquicas daqui a cerca de dois anos e meio; com sorte pode haver fundos comunitários, ou um governo outra vez mãos-rotas ou mais projectos, estudos e concursos; ou um qualquer fundo internacional a chegar-se à frente, se tiver investidores...
E haverá hospital termal a funcionar quando? E os decrépitos pavilhões? E o parque? Num horizonte tão longínquo não há problema porque cairão sempre umas chuvadas que justificarão todos os atrasos.
Neste processo, que de certa forma chegou ao fim na reunião da Assembleia Municipal do passado dia 20, as oposições fizeram figura triste.
Talvez intimidadas pelo mal que poderia parecer dizer "não" à aventura, dividiram-se entre o disparate (o CDS/PP e o MVC votaram... a favor!), a versão "cautela e caldos de galinha" (o PS absteve-se, na posição apesar de tudo mais inteligente) e a cassete (o PCP votou contra... porque defende o SNS).
E agora... é esperar pela conta. Um milhão de euros a dividir pelos residentes no concelho dá quanto, por dia?
 
 

 
... E gastar 1 000 000 € por ano com a brincadeira. Pelo menos.
 
 
 


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Porque não gosto dos CTT (90): violação de correspondência



 
A isto chama-se violação de correspondência.
Não sei se foi o carteiro, não sei se saiu assim do posto de distribuição, não sei se alguém abriu a minha caixa do correio para o fazer e depois fechou-a, sem deixar sinal de o ter feito, quando as três chaves da caixa estão, e estiveram, onde tinham de estar.
O rasgão do envelope foi lateral e feito com qualquer instrumento cortante, que não deve ter sido uma tesoura.
A abertura foi a suficiente para poder passar o mais pequeno envelope de cartão selado que continha um cartão telefónico.
Parte do selo, como se pode ver na imagem de baixo, foi levantado mas depois quem o fez não insistiu e não violou o selo. Talvez soubesse, vendo a indicação da associação do cartão a um número telefónico, que o cartão não lhe serviria de nada sem ser activado através do fornecimento de uma informação à entidade emissora. Talvez quisesse apenas demonstrar que o podia fazer.
E talvez não quisesse tirar nada de dentro do envelope mas demonstrar que podia abri-lo despreocupadamente para causar alguma impressão mais desagradável por causa do que escrevo e das reclamações que faço.
Já me desapareceu correspondência. Pode ter havido mais correspondência que desapareceu e de que eu nunca suspeitei que me fosse dirigida.
Mas isto assim, tão descarado, nunca me aconteceu.
Vamos ver o que se segue...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Um outro tipo de abandono (1)


O abandono dos animais domésticos, nomeadamente dos cães, também se manifesta assim, dentro de muros:
 
 



 
Este cão é mantido dia e noite nestas condições numa casa da freguesia rural da Serra do Bouro, em Caldas da Rainha, amarrado numa corrente curta, sem água à vista, talvez só alimentado com comida que é atirada ao chão (vi-o a roer um osso, hoje de manhã), praticamente ignorado pelos habitantes da casa, e seus putativos donos, que nem se dignam olhar para ele por mais que ele implore.
Não é caso único.

Para que servem caleiras assim, sem qualquer tipo de limpeza?





As caleiras instaladas nesta rua da Serra do Bouro pela empresa Cimalha, numa espécie de despique de incompetência com a Câmara Municipal de Caldas da Rainha (a que aqui nos referimos em pormenor) só podiam dar este resultado: enchem-se de folhas e o entulho vai-se acumulando com a ajuda da chuva.
Alguém limpa? De meses a meses aparece alguém a fazer o serviço. No resto do tempo, o interior está longe da vista e longe do coração da ex-Junta de Freguesia e da Câmara Municipal.