terça-feira, 30 de outubro de 2012

A protestar é que a gente se entende: o exemplo da Ocidental


Neste país nada se consegue sem protestar. É a conclusão que frequentemente tiro perante as dificuldades de toda a ordem que surgem no relacionamento das empresas em geral, e dos serviços públicos, com os consumidores. Ninguém escapa...
Desta vez, o brilhante exemplo vem da Ocidental - Companhia Portuguesa de Seguros, SA.
Quando lhes comprei um seguro, num balcão do Millenniumbcp (que faz parte do mesmo grupo), disseram-me que podiam entregar os documentos relativos a "sinistros" na dependência bancária. Assim fiz.
A certa altura, a empresa InterPartners Assistance (já a ela me referi), deu-me parcialmente razão numa reclamação e disse que pagava mas que não tinha os documentos originais na sua posse. Ou seja: os mesmos documentos que eu tinha entregado no banco para a Ocidental!
Achei que era preferível perguntar à Ocidental se podia continuar a entregar os documentos que lhes eram dirigidos no mesmo balcão ou se devia enviar para qualquer outro local e expliquei porquê. Perguntei por duas vezes, e por carta, nos dias 29 de Agosto e 20 de Setembro.
Não me responderam.
No dia 15 deste mês reclamei junto do Instituto de Seguros de Portugal contra a falta de informação da Ocidental.
E com data de 22  (mas a carta só hoje a recebi) a Ocidental já me respondeu: que podia entregar em qualquer sucursal ou enviá-los directamente.
Custava muito ter respondido à minha primeira carta? Se calhar. Preferem a reclamação à entidade reguladora e e este registo público? É a vida... 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"The Killing" - a novelização em português


Eis uma ousadia editorial interessante: o lançamento da monumental novelização da série dinamarquesa "Forbrydelsen" ou "The Killing" (a que já nos referimos aqui, aqui e aqui) e que, entre nós, foi apenas exibida num canal fechado da televisão por cabo.

Sarah Lund (Sofie Gråbøl) e a camisola-fetiche 
 
"Forbrydelsen/The Killing" (e podemos manter o título original com o título traduzido que se popularizou) é uma das melhores séries "policiais" dos últimos anos e um exemplo magnífico do que pode ser feito para a televisão na Europa, encontrando um equilíbrio admirável entre os padrões anglo-americanos do "thriller" e a ficção europeia.
O êxito desta série em Inglaterra levou à novelização pelo escritor David Hewson, com experiência na matéria, e o resultado, segundo a crítica nacional, foi muito proveitoso.
Com mais de seiscentas páginas na edição de capa dura - que está na minha lista de leitura desde Julho -, o seu lançamento por Publicações Dom Quixote, e em dois volumes, é uma aposta arriscada mas é de esperar que represente mais um ponto de viragem na abordagem complexa (e às vezes complexada) que os editores fazem da literatura "policial".

Na minha lista de espera

"Forbrydelsen/The Killing" teve a sua primeira temporada em 2007. A segunda, mais curta, passou em 2009. E a terceira, que Søren Sveistrup, o seu autor, diz ser a última, começou a ser exibida em Setembro deste ano.
A adaptação americana (com o mesmo título, num "remake" quase de fotograma por fotograma) está a ser agora exibida na Fox portuguesa mas talvez nem valesse a pena: os produtores acabaram ingloriamente com a série ao fim da segunda temporada e sem a inesquecível Sofie Gråbøl também não valia a pena.
O original (primeira e segunda temporadas da série dinamarquesa) existe em DVD e recomendo-o vivamente.

domingo, 28 de outubro de 2012

O abandono e os maus tratos de animais domésticos (2): algumas ideias e propostas

Eis algumas ideias e propostas para combater o abandono dos animais domésticos denunciar (e envergonhar) os que o fazem, partindo do princípio de que haverá certamente pessoas com capacidade e poder de decisão que, acreditando numa causa destas e sendo capazes de tratar bem os animais, podem disponibilizar "pro bono" os recursos que têm à sua disposição:
 
- É possível unir boas vontades e pessoas socialmente e culturalmente influentes para criar a base de uma campanha nacional que seja pedagógica, directa e crítica.
- É viável chamar figuras públicas que, com sinceridade e bons exemplos, dêem a cara pelo tratamento digno de cães e de gatos.
- É relativamente fácil conseguir a participação de empresas com algum grau de responsabilidade social, ou com responsáveis que gostem de animais, para porem ao serviço de uma campanha desta natureza os meios e os recursos - de painéis publicitários a capas de livros (sobre animais, pelo menos) - que têm à sua disposição.
- É possível exigir às autarquias que disponibilizem os meios e os recursos - dos serviços municipais de veterinária aos instrumentos informativos - que são seus para alcançar estes objectivos.
- É desejável mobilizar voluntários para, nos supermercados, obter comida para animais - desde pequenos "snacks" às rações secas e às latas -, a exemplo do que tem sido feito pelo Banco Alimentar.
- É vantajoso envolver numa iniciativa destas, que deveria ter dimensão nacional, as clínicas veterinárias... que também ganharão, a outro nível, com um potencial aumento de clientes.
- E é indispensável garantir a efectiva colaboração das autoridades policiais para, como é seu dever, aplicarem a lei (que, convém recordá-lo, prevê penas de multa cujas receitas revertem para o Estado).

Será possível transferir pelo menos uma parte do activismo social que eclodiu em Setembro para uma causa destas? Talvez baste começar...

A caca da caça

Acredito que seja difícil - embora pudesse ser divertido de ver - caçar rolas, coelhos, perdizes, faisões e sabe-se lá o que mais conseguirão apanhar, com uma simples faca e de patas da frente no chão. Mas a atitude desses energúmenos que andam por aí aos tiros, bem armados, bem montados e rodeados de cães normalmente maltratados a matarem pequenos animais assustados, transforma-os em cobardes sem perdão.
Não são caçadores. São verdadeiramente cacadores.

sábado, 27 de outubro de 2012

O abandono e os maus tratos de animais domésticos (1)

É possível que o abandono de animais domésticos (cães e gatos) tenha aumentado com a crise, ou que a crise possa servir de pretexto a esse acto.
Mas é uma prática - hedionda e criminosa - que está infelizmente enraizada no comportamento português há muito tempo e que é gémea de outra: o mau tratamento a que são quotidianamente submetidos muitos animais (e, em termos de animais domésticos, os cães são as maiores vítimas por estarem mais dependentes dos seus donos, ou "proprietários") e com os mais variados níveis de violência e de desconsideração.
A cidade esconde muitas misérias, e actos miseráveis, deste calibre: cães fechados em apartamentos, sem espaços próprios, empurrados para as varandas sem qualquer tipo de afecto, com doses mínimas e ocasionais de comida e água, tratados como objectos sem sentimentos e emoções.
Mas quem vive em zonas rurais, como eu, vê mais claramente a outra face da moeda: as casotas de cimento em quintais ou em verdadeiras celas sem tecto onde estão aprisionados e acorrentados cães que, um dia, podem ter sido recebidos em casa talvez com mais curiosidade do que afecto antes de serem condenados à morte lenta, com comida que se esgota, com água que vai secando ao longo do dia, sujeitos às temperaturas mais extremas. E, nas estradas, os cães parados que olham para os carros como se acreditassem que os donos que os abandonaram os vêm buscar.
Este tipo de atitude encontra-se em todo o tipo de seres humanos.
Podem ser pessoas muito esclarecidas, podem ter uma consciência social muito aperfeiçoada, podem alardear os sentimentos mais nobres e jurarem a pés juntos que adoram crianças e animais e serem politicamente correctos e convictamente "de esquerda" ou "de direita".
Mas depois, com a impunidade que a sociedade portuguesa lhes garante, são capazes de largar na estrada ou num sítio mais longínquo, e muitas vezes imobilizado, um cão ou um gato que um dia até os encarou com afecto ou com simpatia e que acreditou que podia depender deles para ser feliz à sua maneira.
O Facebook permitiu a divulgação de muitos casos monstruosos. Esta semana, uma revista de dimensão nacional, dedicou a capa à história de cães e de gatos que conseguiram sobreviver e que, infelizmente, devem ser uma minoria. São sinais de alguma consciência social genuína.
Sendo o abandono de animais um crime punido pela lei, havendo tantas expressões de repúdio perante esse tipo de atitude e mostrando tantas pessoas que são capazes de se mobilizar civicamente e de o fazerem em manifestações nas ruas, talvez fosse possível pensar em ir mais longe e unir esforços e vontades para combater com empenho e com convicção o abandono.
E, ao mesmo tempo, denunciar e envergonhar os miseráveis que o fazem.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Para a Turismo do Oeste, a Linha do Oeste já não existe?!

 
António Carneiro, que infelizmente ainda deve ser o chefe da Região de Turismo do Oeste (RTO), tem sido uma espécie de entidade divina ouvida com particular reverência pelos jornais das Caldas, por motivos que se desconhecem.
Mas agora estalou o verniz devido à omissão tonta no site da RTO da Linha do Oeste como forma de acesso à... Região Oeste. A "Gazeta das Caldas", que tem dedicado grande atenção à Linha do Oeste, faz a denúncia na sua edição de hoje (ainda sem link), ressalvando que ainda há ligações ferroviárias directas a Lisboa e a Coimbra.
Depois das queixas do presidente da Junta de Freguesia da Foz do Arelho ao desinteresse da RTO, há mais esta crítica pública que se regista.
Na visita que fiz ao fracote site da RTO, descobri mais motivos de queixa. A eles regressarei.

Silêncio... porquê?

A bizarra decisão da Assembleia Municipal de Caldas da Rainha de unir freguesias à força, mesmo sem qualquer relação territorial, justificava que a "Gazeta das Caldas" e o "Jornal das Caldas" ouvissem sobre o asusnto opiniões que não fossem exclusivamente dos "donos" do poder autárquico.
O que agora foi decidido é mais importante do que, por exemplo, a Linha do Oeste, que teve direito a páginas infindáveis antes de toda a gente chegar aparentemente à conclusão de que ela já não tinha salvação possível.
O silêncio mostra, pelo menos, uma de duas coisas: o desinteresse pelo assunto (mas a quem mora na cidade pouco importa se é preciso uma freguesia rural pular por cima de outra para se integrar à força numa freguesia em que não se ousou mexer...) ou o medo de o debater.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um problema do IMI como diganóstico para a comunicação social

 
Se isto é verdade (e confesso o meu actual desconhecimento dos pormenores do código do IMI), bem se pode considerar que a situação da Imprensa em geral e de muitos comentadores e opinadores em particular é muito mais grave do que se poderia pensar, tendo em atenção a muita gritaria que o assunto suscitou.

Actualização às 6h40 de 26.10.12: A notícia desapareceu, entretanto, da "primeira página" do "Expresso" "on line" mas continua activa. Se é verdadeira, a sua importância torna o desaparecimento um pouco estranho. Se é falsa, teria sido preferível eliminá-la, ou corrigi-la. A dimensão do sintoma é agravada por este estranho desaparecimento...

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"Cada Dia, Cada Hora", de Nataša Dragnić

Já me tem acontecido, como tradutor, deparar-me com livros que são uma surpresa muito agradável e que muito possivelmente não compraria e nunca leria por estarem fora do meu "radar" de leitor com interesses específicos.
Foi o que aconteceu com "Cada Dia, Cada Hora" ("Jeden Tag, jede Stunde"), da escritora croata Nataša Dragnić, cuja edição portuguesa, da Porto Editora, é posta à venda esta semana.
É uma história de amor muito bem escrita, narrada com humor e ternura e com duas personagens (Dora e Luka) que são difíceis de esquecer, uma mais forte e resoluta do que a outra e a outra... tão fraca como afinal tantas vezes acontece, quando o ser humano sucumbe às suas limitações e às suas fraquezas.
A narrativa de "Cada Dia, Cada Hora" é linear como a vida (sem tiradas filosóficas e sem angústias existenciais) e, por isso mesmo, fascinante.
Nataša Dragnić vai apresentar "Cada Dia, Cada Hora" em Lisboa (no dia 6 de Novembro, no Instituto Goethe) e no Porto (8 de Novembro, no bar Labirinto).
A autora tem o seu site aqui.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Reflexões sobre a literatura "policial" (7)

A destruição do avião em que seguia Sá Carneiro foi causada por um acidente ou por um atentado? O ex-deputado português Duarte Lima assassinou, ou não, a milionária portuguesa Rosalinda Ribeiro no Brasil? O que aconteceu realmente nos bastidores do "caso Casa Pia" e qual foi (ou é, ainda) a dimensão da exploração sexual e da prostituição de menores e do seu impacto social e político?
Estes enigmas com implicações políticas, e que incluem crimes (ou suspeitas de crimes) violentos, já teriam dado origerm, noutro país ocidental, a várias obras de ficção, escritas ou filmadas (para cinema ou televisão). Por cá, houve um filme (o estimulante "Camarate", de Luís Filipe Rocha, de 2001) e um romance (o meu "O Clube de Macau", de 2007, sobre o "processo Casa Pia").
Produzir um filme é caro, um telefilme (ou mesmo uma mini-série) sê-lo-á menos e editar um livro custa bastante menos e tem receitas mais garantidas. Mas o certo é que nada mais existe no domínio da ficção. E é pena.
É impossível não pensar que o "pântano" político-cultural português (e, a propósito, o primeiro-ministro que fugiu ao "pântano" tê-lo-á feito por causa do "processo Casa Pia"?) faz germinar muitos temores que limitam, de uma maneira ou de outra, a liberdade de criação e de expressão.