domingo, 30 de novembro de 2014

O "prato de Petri" dos salvadores da Pátria



 
A sucessão de " casos" que terminaram (as condenações de Armando Vara e de Duarte Lima) e de outros que começaram (as suspeitas sobre Ricardo Salgado e José Sócrates), que corresponde ao funcionamento normal de um dos pilares do Estado de Direito (por coincidência depois de substituído um procurador-geral que ficará para sempre associado ao primeiro primeiro-ministro português detido por suspeitas de vários crimes económicos) abre um vazio quase "espiritual" na relação da população com os partidos políticos.
Enquanto os partidos das "franjas" (o CDS e o PCP) vão passando por entre os pingos, os mais afectados são os do "centrão", o PSD e o PS do "bloco central" de onde saem os governos.
E esse vazio, que precisa de ser corrigido em cada um dos partidos, transforma-se num "prato de Petri" onde medram todos os salvadores: o advogado que anda a saltitar à procura do poiso mais lucrativo, o ex-autarca que se transforma em pregador televisivo, o reitor que disse mal da austeridade, o presidente de câmara que de certeza quer vir a ser mais alguma coisa. E até às eleições legislativas de 2015, para já não falar nas presidenciais, ainda há de aparecer mais alguém.
Só que destes salvadores da Pátria verdadeiramente nada se sabe. O que se propõem realmente fazer não passa de "slogans" nem sempre bem escritos. E talvez seja por isso que conseguem arrastar seguidores, iludindo mesmo pessoas que não se pode dizer que sofram de iliteracia política.
O Estado de Direito, que até precisaria de uma constituição mais pragmática e menos doutrinária, sobreviverá e o sistema político parece suficientemente estabilizado para não favorecer os aventureiros. Mas há riscos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Porque não gosto dos CTT (87): serviço "Siga" não, vá bardamerda e volte amanhã

 
A empresa CTT apregoa o maravilhoso serviço "Siga", de reencaminhamento; tem os pormenores (nem todos, claro) nos avisos de recepção; tem uma linha telefónica paga por quem telefona onde é hábito esperar e esperar e esperar. Para depois não haver "Siga" para ninguém porque a informação dada (no caso de um registo) é a de que só se pode pedir o reencaminhamento no dia indicado para o levantamento do registo.
É um "bardamerda" em jeito de "volte amanhã", "vá de volta", "não chateie". Porque podia haver uma indicação bem clara logo a começar.
E não há por incompetência, pura e simples, ou porque os números telefónicos "707" também darão dinheiro a quem recebe as chamadas?

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Um primeiro-ministro feroz

... foi uma das personagens (um dos "bad guys", como se costuma dizer) do meu livro "Triângulo", o terceiro andamento da colecção Não Matarás (Asa/Leya) que saiu em 2012.
O caso deste primeiro-ministro ligava-se a uma rede onde se cruzavam negócios vários (lícitos e ilícitos). Depois de "Triângulo", a Leya decidiu cancelar esta série. O seu herói, o inspector Joel Franco, da Brigada de Homicídios da Polícia Judiciária, reapareceu este ano no meu "Morte nas Trevas".



terça-feira, 25 de novembro de 2014

25 de Novembro


 
A minha evocação do 25 de Novembro, com uma história que começa com um homicídio praticado por militares revolucionários, nesse dia tão especial de 1975: "Vermelho da Cor do Sangue", o número dois da série Não Matarás, Asa/Leya, 2011.




A propósito do "caso Sócrates"...

 
Não percebo o porquê de tantas preocupações sobre o que "lá fora" se pensará de Portugal quando um ex-primeiro-ministro é feito arguido e fica preso a aguardar julgamento por suspeitas de branqueamento de capitais, fraude fiscal agravada e corrupção. O certo é que, a confirmarem-se as suspeitas, Portugal demonstrou que podia pedir responsabilidades por atos que terão sido criminais a uma das principais figuras do Estado. Não é que toda a gente tem andado a exigir?
 
É vergonhoso ouvir algumas criaturas do PS, que decerto sabiam mais sobre o ex-primeiro-ministro ora preventivamente detido do que muita gente, a bramar contra a quebra do segredo de justiça. Não faltaram casos de violação grosseira do segredo de justiça nos muitos anos da governação do PS e essas criaturas mantiveram-se sempre indiferentes.
 
Suponho que ninguém acredita que o ex-primeiro-ministro queira ler manuais de filosofia em francês durante a sua estadia prisional em Évora (não é uma leitura nada entusiasmante) mas o pedido de alguns livros desse tipo, relatado pela sua ex-mulher, não deixa de ter graça.
 
Com o ex-procurador-geral da República debaixo de fogo por causa do seu encontro com o ex-primeiro-ministro (e segundo as suspeitas suscitadas por uma escuta telefónica, segundo o "Correio da Manhã"), seria altura, finalmente, de escrutinar o que fez e não fez a Procuradoria-Geral da República sobre as muitas suspeitas que se foram avolumando ao longo dos anos, nomeadamente sobre o "caso Freeport", a licenciatura que nunca existiu e o mais recente "caso 'Face Oculta'". E, claro, sobre o grotesco episódio das tesouradas nas escutas do "Face Oculta". A simpatia que Pinto Monteiro tributa agora a José Sócrates não deve ter nascido ontem.
 
Seria interessante saber o que teriam a dizer Manuela Moura Guedes e António José Seguro sobre tudo isto mas... alguém lhes terá ido perguntar alguma coisa?
 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A irrelevância

 

Nas eleições autárquicas de Setembro de 2013, o Berloque de Esquerda extinguiu-se, eleitoralmente, em Caldas da Rainha, ao perder votos e presença na Assembleia Municipal.
O seu candidato esfumou-se, depois de vários "números", que incluíram um ataque reles ao autor deste blogue.
Hoje, em Caldas da Rainha, o BE é conhecido pelos elogios do seu novo/velho representante ao presidente da Câmara (PSD) e por uma pouco edificante cena de batatada.
É oportuno recordar isto (e que o então berloque-chefe prometeu tirar desforço da minha reação à sua pequena canalhice em Outubro... do ano passado) quando se vê o estado de degradação do BE e a agonia em que entrou.
De uma liderança bicéfala passou a uma coisa partida ao meio e já não parece conseguir impedir que os seus votos sejam absorvidos por alguns abutres políticos.
Não é uma surpresa. É só a confirmação da sua irrelevância.



domingo, 23 de novembro de 2014

O triunfo de Costa: xeque ao rei, com possibilidades de ser xeque-mate


Mais eficaz do que o seu antecessor
a libertar-se de um passado incómodo? 

Reparem bem: o grande triunfador deste fim-de-semana de facas longas, dominado pela detenção do antigo secretário-geral, é o novo secretário-geral do PS. António Costa, entronizado ontem, é um dos grandes beneficiados pela prisão de José Sócrates e pelas acusações que caem finalmente em cima da cabeça do ex-primeiro-ministro.
O PS ainda pode vir a ser prejudicado eleitoralmente por este caso, se a responsabilidade do ex-primeiro-ministro escorrer para outros camaradas seus, mas António Costa já não.
O novo secretário-geral do PS livrou-se da sombra do anterior rei e da sua corte. Com Sócrates isolado, os apoiantes do ex-primeiro-ministro ficam isolados, perdem uma bandeira agregadora, têm de abandonar (pelo menos durante muito tempo) a esperança de um regresso do paladino deles. Candidato a Presidente da República? Não, Sócrates só se levantará (por "feroz" que seja) no caso de uma absolvição absoluta... e daqui a quanto tempo é que isso poderia acontecer? As acusações são pesadas e o que já se vai sabendo é arrasador.
António Costa é advogado de profissão, foi estudante na Faculdade de Direito de Lisboa e, como tal, colega de muitos magistrados e de muitos profissionais ligados ao Direito. Foi quase sempre um estratega cauteloso no seu percurso político. Foi ministro da Justiça, com a tutela do sistema judiciário.
O xeque ao rei que atirou José Sócrates para os calabouços (como a imprensa gosta de dizer) da PSP foi uma jogada perfeita. É natural que se transforme num xeque-mate.
No seu discurso de ontem à noite, no PS onde agora reina em estado de monarquia absoluta, António Costa foi claro.
Não se mostrou contristado mas afirmativo. Não deixou uma palavra ao rei caído em desgraça. Nem estendeu a mãos aos "socratistas". Foi um dia perfeito. O xeque-mate, depois disto, também será dele.
 
 
 
 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

"Happy Valley": se Ken Loach refizesse "The Wire"...



Sarah Lancashire nas ruas de um vale onde a felicidade é poder sair de lá
 
Uma cidade do interior num vale de Yorkshire, no Reino Unido, onde a única alegria é a certeza de sair de lá (segundo a canção de Jake Bugg) é o cenário da mini-série inglesa "Happy Valley", um exemplo grande do "thriller" que, respeitando todos os cânones do género, dá a maior das atenções às questões sociais.
Criada por Sally Wainwright, argumentista, produtora e realizadora, esta mini-série televisiva de seis episódios e 351 minutos tem como grande intérprete a actriz Sarah Lancashire, sargento da Polícia local que, como mandam as regras britânicas, não usa arma de fogo. Começa com um contabilista a precisar de mais dinheiro, o regresso do violador da filha morta da polícia Catherine Cawood, um rapto e tudo começa a correr mal. A toda a gente.
Sarah Lancashire (Catherine Cawood) é uma polícia inesquecível e, pela sua mão, o "thriller" combina-se com o melodrama e com um retrato seco e frio de um ambiente urbano desolado. Há três sequências de grande violência (a morte de outra mulher-polícia e dois embates físicos entre Catherine e o violador da filha, e raptor e homicida, também) e nem um único momento de tranquilidade. A violência não precisa de tiros (os dois únicos tiros são no fim e um pouco à margem do essencial da história) e os rostos, os diálogos e os ambientes mais sórdidos fornecem os elementos fundamentais.
"Happy Valley" pode ser caracterizado por um simples cruzamento de dois factos: se o realizador britânico Ken Loach fizesse um "remake" da grande série "The Wire" em Inglaterra, seria algo muito parecido com "Happy Valley".
 

[Vi "Happy Valley" numa edição em DVD da BBC para o Reino Unido de 2014, legitimamente adquirida.]

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"Fraturado", de Karin Slaughter: Will Trent parte 2

 E aí está o segundo andamento da história de Will Trent, o dinâmico mas complexado (e agora perceber-se-á um pouco melhor) agente federal das histórias de Karin Slaughter, uma das grandes autoras de "thrillers" dos nossos dias.
"Fraturado" (ed. Topseller, tradução minha) segue-se a "Tríptico" e cria uma nova, e estranha, cena de crime para Will Trent investigar: uma mulher chega a casa, encontra-a arrombada, vê a filha morta e o homem que deve ser o assassino atira-se a ela.
Mas a autora, que desta vez é menos exuberante em matéria de revelações espectaculares, baralha a história, os acontecimentos e as personagens e a intriga desenrola-se talvez mais calmamente, em passos seguros, construindo uma teia sugestiva entre as várias personagens e, não menos importante, a ligação entre Will Trent, a sua nova colega Faith e a terrível Amanda... e a mãe de Faith (relação que será mais desenvolvida nas próximas histórias de Will Trent.
Com a tendência de muitas editoras para só apostarem em autores (e autoras) mais recentes, perdem-se outros nomes, às vezes. Karin Slaughter, que já anda nisto há bastante tempo, merece toda a nossa atenção, graças à dinâmica Topseller.

As vítimas esquecidas do Holocausto



O Holocausto, a hedionda tentativa nazi de exterminar um povo inteiro, não foi apenas feito de campos de concentração, de câmaras de gás, de acções deliberadas de brigadas de assassinos uniformizados e de guetos que não passavam de estações intermédias entre a vida e a morte certa.
Houve uma outra faceta desses tempos que se traduziu numa perda de vidas igualmente grave e também de perda de identidades.
Foram as crianças esquecidas, as crianças judaicas que sobreviveram à ocupação nazi na Europa por passarem por crianças cristãs, acolhidas por famílias cristãs ou apenas escondidas do mundo.
Esta é a realidade retratada pela obra "Memórias do Silêncio" (ed. Vogais, tradução minha), do americano Robert D. Rosen, que a descobriu quase por acaso à mesa de um jantar da Páscoa judaica. Tomando como ponto de partida os relatos autobiográficos de três mulheres que, em crianças, mudaram, de certa forma, de identidade (pessoal e religiosa), o autor abre a porta à revelação de um mundo pouco conhecido mas trágico: estas pessoas não sobreviveram apenas à guerra e ao extermínio (e muitas outras não sobreviveram) como carregam consigo a cruz de, sem terem sofrido os horrores dos campos de concentração, serem tão vítimas do Holocausto como todos os outros sobreviventes. São duas vezes vítimas.
"Memórias do Silêncio" expõe um aspecto menos conhecido da Segunda Guerra Mundial e fá-lo de uma forma hábil: o efeito do mal enraíza-se duranta a leitura e só depois é que se faz sentir com mais força, deixando as recordações bem vivas.