segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os amanhãs que já começam a cantar

Já se vai percebendo que vai haver mais dinheiro em 2015 (alterações em sede do IRS e nos cortes das pensões, aumento do salário mínimo nacional e reposição dos cortes nos salários da função pública) porque o PSD e o CDS vão tentar não perder as eleições do próximo ano.
Agora também se pode calcular que em 2016 vamos continuar a ter mais dinheiro. António Costa e a clique do PS que o viu como uma boa "barriga de aluguer" para regressar ao poder (e que o deve conseguir fazer nas eleições de 2015) vão pôr oficialmente fim à política de austeridade e dar-nos a todos mais dinheiro para 2016 e para os anos seguintes, para garantir um bom resultado nas eleições presidenciais e para continuarem no Governo.
A conta da estadia no paraíso dos "amanhãs que cantam" deve chegar-nos uns três anos depois. Como já é hábito.

domingo, 28 de setembro de 2014

Sobre a necrofilia, a propósito de "Alabardas"

Uma obra criada por um autor é, para mim, um objecto completo.
Como leitor ou espectador de cinema, interessa-me a história completa, o livro tal como o escritor o escreveu e foi depois publicado, o filme tal como o realizador, o argumentista e o produtor o tornaram possível. É desse modo que um e o outro objecto são postos à disposição do público.
Posso ter interesse no livro ou no filme inacabados, no "director's cut" de um filme ou no romance que, por razões alheias à arte, o editor não publicou. Mas, nestes casos, a minha curiosidade advém do conhecimento que possa ter das outras obras do autor e da curiosidade de confrontar uma obra incompleta com todas as outras ou da sua relevância histórica, cultural ou mesmo política.
Serguei Eisenstein teve planos, aparentemente, para um terceiro "Ivan, o Terrível" e desse projecto só restou um fragmento. As suas filmagens no México deram origem a duas versões diferentes, construídas já depois da sua morte com vinte anos de distância. Vi uma delas e não me entusiasmou como "Ivan, o Terrível" ou "O Couraçado Potemkin" ou mesmo "Alexander Nevsky". Não era Eisenstein, era apenas uma parte de um seu trabalho.
José Saramago deixou uma história inacabada que seria, as informações não coincidem, novela ou romance. Melhor: a história, com três capítulos, não está inacabada. Está apenas começada. Haverá quem queira conhecer o texto, haverá quem, sabendo que ele não termina, não o queira conhecer.
As herdeiras de Saramago e a editora que agora detém os direitos das suas obras não foram dessa opinião e os três capítulos aparecem agora em livro. Não por si, como uma obra completa, mas acompanhadas (pela descrição) de vários outros textos que já permitem transformar três capítulos num livro... comercializável.
E é aí que nasce a dúvida. Estes três capítulos representam na sua integralidade o projecto do autor (morto antes de poder dar seguimento à história)?
Sabemos, aparentemente, qual é a última linha de diálogo com que a história terminaria mas nunca a leremos. Porque não existe.
E, nesse caso, não teria sido preferível respeitar a natureza e respeitar o autor, mantendo a reserva sobre uma história por escrever?
Ou, então, optando-se pela sua divulgação (para a qual o autor não foi consultado), não teria sido de maior lisura oferecer os três capítulos aos potenciais interessados, disponibilizando-os gratuitamente? Poderá dizer-se que, desse modo, o autor não seria remunerado pelo trabalho feito. Mas o autor, já ausente deste mundo, nunca poderia usufruir dos seus proventos. E, sendo Saramago um vigoroso combatente do capitalismo, não se justificaria que, em sua memória, prescindissem o editor e as herdeiras dos lucros da publicação, que será decerto muito mais aliciante para os estudiosos da sua obra e para os seus fãs indefectíveis?
É que, não sendo esse o caso, a iniciativa da publicação de "Alabardas", a versão curta do que seria o título original ("Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas") da história que ficou por escrever, assemelha-se a um exercício de necrofilia. Obviamente lucrativo.  

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A gazeta do conúbio


As obras na Praça da Fruta de Caldas da Rainha deviam estar prontas no final deste mês (Setembro), data que já representava um atraso significativo relativamente ao previsto (Junho). Estarão prontas no fim de Outubro.
O faraónico parque de estacionamento subterrâneo devia estar pronto no final de Outubro. Não está, será só em Novembro.
O conjunto de obras municipais que transformou a cidade em estaleiro começou antes do Verão de 2013. Devia estar tudo acabado até 31 de Dezembro deste ano. Não está. Vai tudo até 31 de Março de 2015.
O presidente da Câmara Municipal invoca a chuva com o mesmo fervor com que os antigos olhavam para o céu e viam manifestações divinas nos fenómenos meteorológicos.
Este presidente de câmara é uma desgraçada vítima das intempéries e dessa coisa misteriosa que é a chuva. Só pode.
Deve ser por isso que a "Gazeta das Caldas", que dá sempre a notícia dos sucessivos atrasos com a solenidade de uma mensagem de Natal do Chefe do Estado, não critica o faraó caldense. Só pode.
Porque, na mesma página em que dá notícia (mais uma vez) destes novos atrasos, a "Gazeta" critica, com a fúria de quem não acredita que há vozes que não chegam ao céu, dois ministros.
Pelas coisas que terão feito e que provocaram, nas suas áreas de competência, aquilo a que se chama... atrasos.
O conúbio entre o presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha e a "Gazeta das Caldas" há de ter um motivo que transcende, decerto, a amizade (coisa complexa na política), uma identidade de confissão ou de profissão de fé ou uma convergência de interesses económicos.
Só pode.
Porque é tão óbvio, tão descaradamente óbvio, que eu, como leitor e assinante do periódico (e com todo o respeito profissional pelos jornalistas profissionais que nele trabalham), até me sinto às vezes embaraçado quando vejo isto...





Fenómenos da natureza?
 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Esclarecimento a alguns idiotas


Parece que há quem duvide da legitimidade do autor deste blogue para se pronunciar sobre o que se passa na pequena freguesia da Serra do Bouro, no concelho de Caldas da Rainha, a propósito de algumas coisas  que se vão passando (como esta) e que se vão agravando desde que a freguesia foi, na prática, estupidamente anexada por uma freguesia da cidade que é a capital do concelho.
Acontece que a Serra do Bouro é território português e que, embora haja quem não goste (como foi o caso de um pouco ético ex-presidente de junta e da sua falange de apoiantes), os direitos e as liberdades constitucionais aplicam-se a esta freguesia e ao concelho de Caldas da Rainha (o que, pelos vistos, também desagrada aos "patrões" da Câmara Municipal).
Acontece ainda que estou recenseado, e desde Julho de 2007, na freguesia da Serra do Bouro (com o número B-1033) e que, como é evidente, pago neste concelho os meus impostos e as taxas a que estou obrigado.
Não sendo necessário dizê-lo para me pronunciar sobre aquilo que quero, com uma boa latitude de aceitação de comentários, fica aqui o esclarecimento.
Com uma nota adicional, já agora: penso que a minha intervenção, até pelo modo como se percebe que incomoda os interesses instalados da "nova dinâmica" e dos seus aliados, tem a vantagem de ser por vezes mais eficaz do que a participação em reuniões públicas; e que, além do mais, tem uma vantagem ainda muito maior, que é a de não me obrigar ao acto pouco saudável que seria o contacto directo com os idiotas a quem endereço este esclarecimento.
 
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Porquê?


As inundações da passada segunda-feira na capital do concelho de Caldas da Rainha foram, inevitavelmente, notícia no "Jornal das Caldas" que saiu hoje (e que por acaso chegou à minha caixa de correio...).
 
 



A descrição é sucinta, as fotografias são vagamente ilustrativas e os casos mais evidentes nem merecem referência.
Mas, mesmo assim, falta saber uma coisa: porque é que isto aconteceu?
Só que saber o "porquê" das coisas que têm directamente a ver com a incompetência dos gestores da Câmara Municipal de Caldas da Rainha é areia demais para a camioneta da comunicação social caldense.


Cagando e andando... mas desportivamente

Num local da cidade de Caldas da Rainha foi criado um "parque fitness" com equipamentos para actividades desportivas.
A iniciativa foi da estrutura municipal agora designada por União das Freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro, cujo presidente (de junta de freguesia) garante, todo contentinho da Silva, ser "sem dúvida uma mais-valia na promoção de hábitos de vida saudáveis que incluem a prática regular de actividade física".

O "Jornal das Caldas", que publicou a notícia, também não deve saber
que há mais vida fora da cidade

Acontece que a dita união engloba duas freguesias: uma na cidade, Santo Onofre, e a outra de fora da cidade, Serra do Bouro (à intransponível distância de cerca de 15 quilómetros da cidade, que é capital do concelho), "unidas" por cima de uma terceira freguesia e no mais absoluto desprezo por quem ficou fora da cidade.
Aliás, e como neste caso se percebe, a coisa só aproveita a quem mora na cidade.
Os residentes da distante freguesia da Serra do Bouro (longe da vista, longe do coração...) podem dedicar-se, como desporto, a... limpar as valetas que os poderes públicos não limpam, por exemplo.



E se o presidente da União de Freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro
viesse fazer um bocadinho de desporto à Serra do Bouro a desentupir as valetas?

Este é um dos resultados da idiota "agregação de freguesias" de Caldas da Rainha, que só aproveita (por esta ordem ou outra) a quem mora na cidade e a quem abichou os cargos. Nunca aos munícipes.
Em termos práticos, e no que se refere ao desprezo votado às freguesias do interior rural, estamos definitivamente no regime do "cagando e andando". Desportivamente, claro...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Infantilidades coloridas

 
Quem visite o site do que agora se chama Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) não decifra facilmente os "alertas" coloridos que se banalizaram desde que foram adoptados pela imprensa.
Sabe-se dos "alertas amarelos" e dos "alertas laranjas" (os mais comuns), não me lembro de ouvir falar em "alerta vermelho" (mas é natural que já tenha sido usado por ser o mais excitante) e do "alerta verde" (se há....) nunca ouvi falar. É possível que a explicação esteja aqui mas nada o garante.
O certo é que os "alertas" se tornaram coisas banais e parecem, até, ter substituído qualquer tipo de notícia sobre o estado do tempo.
É mais fácil dizer que a região X "foi posta sob alerta amarelo" do que dizer que pode chover na mesma região X.
A banalização atingiu ontem o paroxismo com a polémica entre um responsável (é como se costuma dizer...) da câmara de Lisboa a dizer que o IPMA forneceu um "alerta" com a cor errada e o IPMA, pelos vistos, a amuar em versão "alerta laranja" para uso interno.
Como as circunstâncias são sérias (as imagens da capital devastada pela chuva e os muitos prejuízos que hão de ter sido provocados), seria melhor que o debate, sempre útil, fosse feito com alguma maturidade e não com infantilidades coloridas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O que realmente interessa em Caldas da Rainha

 
Caldas da Rainha devia ser notícia pela herança de Bordallo Pinheiro, pela sua magnífica frente de mar (de elevado valor turístico), por uma Lagoa de Óbidos salva da destruição e devidamente reabilitada, pelo seu hospital termal.
Mas não é.
Há semanas foram notícia, num jornal nacional, as obras que a Câmara Municipal de Caldas da Rainha quis fazer todas ao mesmo tempo na capital do concelho numa lógica de destruição maciça.
Hoje foram as inundações que alagaram também a capital do concelho, num local sem altos e baixos, sem rio perto, longe do mar.
Ou seja: o que existe no solo, se é que ainda existe alguma coisa de jeito, não foi capaz de escoar a água da chuva.
E é significativo que a chamada "fonte das rãs" (até ver, a única marca "bordalliana" de uma iniciativa que corre o risco de se afundar no charco da incompetência municipal), inaugurada com pompa e circunstância sem que o pavimento em redor tenha sido refeito, tenha apresentado hoje este sugestivo aspecto:
 
 

Os gestores municipais de Caldas da Rainha não conseguem fazer nada bem feito (foto retirada do blogue de tanto estarem..., de José Rafael Nascimento,
cuja visita e leitura recomendo)

domingo, 21 de setembro de 2014

O medo (das palavras) também já chegou ao Conselho Nacional de Educação...


Do meu artigo, "Homens com medo", publicado no n.º 19 (15.09.14) do e-magazine "Tomate" (que pode ser lido aqui na íntegra):
"(...) Até é possível que, globalmente, não haja professores a mais. Mas ninguém pode dizer, com veracidade, que não há professores a mais. Em função da diminuição do número de alunos, por força da diminuição da natalidade, num país pequeno onde há câmaras municipais capazes de se endividarem para fazerem obras sumptuárias sem cuidarem de encontrar, em articulação com o Governo, incentivos à fixação no interior, a questão deveria ser analisada e debatida.
(...) Só uma pequena parte dos professores contratados dos nossos dias é que poderá entrar no sistema nos próximos anos, por mais professores do quadro que se reformem ou que peçam a rescisão dos seus contratos. E isso devia obrigar os professores contratados a perceber uma coisa: ninguém, a não ser o Estado gigantesco e falido de que a 'esquerda' gosta mas que não quer suportar, contrata trabalhadores para eles não fazerem nada. Por muitos anos de trabalho que já tenham.
E isso mete medo. Mete medo aos próprios, a quem ninguém dirige um discurso de verdade. Como mete medo aos sindicatos dos professores, que praticamente já só vivem dos professores contratados. Já pouco têm a oferecer aos outros professores. E cada vez temem mais perder esse apoio, ou seja, as suas quotas. É delas que vivem os sindicatos e os seus dirigentes.
O problema também mete medo ao Governo, que foge de levantar uma questão inevitavelmente controversa e onde os sindicalistas berram mais do que o ministro, andando sempre no bolso com casos humanos pungentes e prontos a servir. 
O medo, sabe-se, emperra o raciocínio. Conduz ao desespero. Mário Nogueira e Nuno Crato são homens com medo. Pelas posições que ocupam, esperar-se-ia melhor deles, e das suas cortes."
Da introdução ao documento "Estado da Educação 2013" (19.09.14), do Conselho Nacional de Educação (que pode ser lido aqui na íntegra), com a curiosidade que é a variedade de leituras que pode ter uma formulação estilística redonda como "extremamente favorável": 
"(...) Mantém-se a tendência de diminuição da população escolar com especial incidência no Ensino Básico. Desde 2007 que o número de crianças matriculadas pela primeira vez na escolaridade obrigatória tem vindo a decrescer. Considerando a evolução das taxas de natalidade, não é previsível que essa tendência da população escolar venha a inverter-se de forma sustentada. (...) A população escolar total da educação e do ensino não superior regista uma quebra de 83 mil alunos relativamente a 2001.
(...) O número de professores em exercício no ensino público sofreu uma redução, durante os dois últimos anos letivos, de cerca de 22 mil efetivos. A estes teremos ainda de acrescentar 2,8 mil professores do ensino privado, o que perfaz um total muito próximo dos 25 mil professores a menos no sistema de ensino. As quebras mais acentuadas registaram-se entre os professores do 3º ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário (cerca de menos 13 mil professores) e do 2º ciclo (cerca de menos 7 mil).
Em comparação com os efetivos registados em 2001/2002 identifica-se que o movimento de redução começou por incidir nos professores do 1º ciclo e só mais recentemente se alargou aos restantes ciclos.
Mesmo assim, a relação entre o número de alunos por cada professor no 2º e 3º ciclos e especialmente no Ensino Secundário continua a ser extremamente favorável (...)"



Há alguém capaz de explicar?





Haverá alguém (no Governo, na SPA, na Assembleia da República, nas empresas... de música) que consiga explicar como é que os autores (todos eles) vão receber os proventos do novo imposto da "cópia privada", se exercerem o direito constitucional de não estarem filiados na SPA nem em outras entidades do género?