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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"Os Sopranos"


James Gandolfini: não voltou a brilhar
depois de ter sido Tony Soprano
Não acompanhei "Os Sopranos" quando esta série passou na televisão portuguesa e só agora a vi, no conjunto das suas seis temporadas e cerca de 77 horas de emissão. Mas, como se costuma dizer, mais vale tarde do que nunca.
"Os Sopranos", que a HBO produziu entre 1999 e 2007, é contemporânea de "The Wire", também da HBO, e é um dos marcos da nova vaga da produção televisiva, combinando as histórias de "gangsters", o drama e a comédia social.
David Chase, o seu criador (que não parece ter conseguido obter outro êxito como este), apresentou-a como "A família redefinida" e a expressão aplica-se às mil maravilhas a este prodígio televisivo. Que, no entanto, termina num num final ambíguo que permite todas as leituras, inclusivamente a de que David Chase não conseguiu sair do labirinto criativo em que se enredou na segunda parte da sexta temporada.
Não obstante, é uma série notável, admiravelmente bem construída e melhor interpretada, que o passar dos anos em nada prejudicou.
 
David Chase:
desaparecido em combate
depois de "Os Sopranos"

 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

A ignorância da imprensa nacional relativamente à indústria audiovisual


No lixo electrónico, que às vezes deixo acumular no "desktop", encontro um "recorte" de que já nem me lembrava nesta minha contemplação do lamentável estado a que chegou a imprensa portuguesa.

É isto:




É do "Público", do passado dia 26, e traz-me à memória uma época, na década de 1990, em que se tornou patente o que me parece ser ainda um enviesamento na imprensa nacional: a grande maioria de quem escreve sobre cinema desconhece, ou ignora, o enquadramento industrial, histórico e cultural da produção audiovisual.

São pessoas, e eram, que limitam o que escrevem aos seus gostos e às suas preferências pessoais, que vivem das exibições privadas de filmes organizadas pelas distribuidoras, e que, quanto à televisão, pode-se imaginar não beneficiem de ofertas diversificadas de séries. As empresas que depreciativamente designam por "serviços de 'streaming'" não lhes devem passar cartão e é natural que os órgãos de comunicação onde escrevam, ou peroram, não lhes paguem esses serviços, nem DVDs, nem nada que se pareça. E, por si só, não vão, nem querem, ir mais longe.

O título do "Público" acerta, mal, no que foi uma expressão (a televisão de "prestígio") que nasceu a partir de um largo conjunto de séries, lançadas sobretudo pela então HBO (agora HBO Max, ainda, em alguns países e, oficialmente, Max), que se distanciavam das séries de produção industrial que abastecem a grande maioria dos canais de televisão. 

"The Wire", naturalmente, e tantas outras ("Os Sopranos", "Sete Palmos de Terra", por exemplo, nos EUA) trouxeram temas, pontos de vista, actores e actrizes muitas vezes da chamada "lista A", realizadores, argumentistas e produtores de qualidade e o indispensável apoio orçamental a um sector onde predominavam as séries quase eternas de baixo investimento.

Os canais por cabo, por serem pagos e gerarem uma clientela mais selectiva, acabaram por ser substituídos pelos tais "serviços de 'streaming'", numa iniciativa de novo tipo: são empresas que produzem as suas próprias séries e longas-metragens e que compram e financiam outras séries e longas-metragens e cujo acesso está reservado a quem paga. HBO (agora HBO Max ou já Max em alguns países), Netflix, Prime Video (da Amazon), Disney+ (do grande complexo industrial que é a Walt Disney Company) e Apple TV (da empresa tecnológica Apple) são as principais.

Se tomarmos como referência "The Wire" (HBO Max, para mim, em certa medida, a mais importante série desta nossa época, que foi lançada em 2002), estamos a falar num período de vinte anos, num horizonte onde não há a tendência para, como no cinema, fazer "reboots", ou seja, produzir e lançar uma nova versão de uma história já filmada. 

Todos os grandes temas da ficção, em todos os seus domínios, foram explorados em, praticamente, todas as grandes séries desses primeiros anos. É difícil retomar, reinventar ou relançar temas já desenvolvidos. Sobretudo quando nos circunscrevemos a uma única indústria. Se olharmos apenas para os EUA, vemos que tem predominado uma nivelação por cima, ou uma espécie de "normalização". O mesmo aconteceu no Reino Unido, no conjunto dos países escandinavos (onde o "nordic noir" quase se esgotou). Nos países europeus tem havido uma recuperação, com a indústria audiovisual a reorientar-se agora mais para a televisão. Falar em "programação insípida" é uma confissão da mais absoluta ignorância.

Podemos continuar a encontrar nestes países produções de grande qualidade, que começam a encontrar-se na área das mini-séries e que rivalizam com o cinema. Mas é conveniente ir mais longe, num horizonte não alcançável por este tipo de jornalismo, para se ver como floresce a síntese da "televisão de prestígio" e do espectáculo cinematográfico (das imagens em movimento), destacando-se, sobretudo, a produção sul-coreana. 

Quem a quiser ver com atenção poderá encontrar, e será um dos seus melhores exemplos, uma extraordinária série de 21 episódios com o modesto título "Vincenzo" (Netflix). A "televisão de prestígio" está, toda ela, aqui: na história de um jovem coreano que cresceu no seio de uma família mafiosa em Itália e que regressa à sua terra de origem... O que se segue é um festival audiovisual onde desfilam quase todos os géneros do cinema. 

Aliás, foi também da Coreia do Sul que chegaram também outras séries tão admiráveis, nas suas diversas vertentes, como "Sweet Home" (Netflix), "Woo, Uma Advogada Extraordinária" (Netflix) ou "Snowdrop" (Disney+). Basta ir vê-las.

Mas, aqui chegados, talvez nos devamos interrogar: quem escreve o que o "Público" assim divulga gosta de cinema? Não, acho que não, e o problema também é esse.




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Uma conversa com Margarida Rodrigues nas suas Tertúlias à Lareira


Perguntas ao autor e respostas no blogue Tertúlias à Lareira, com Margarida Rodrigues. Um excerto:

Foi jornalista. De que modo isso o incentivou para a escrita dos seus próprios livros?

Ajudou-me a ter disciplina de escrita, a utilizar melhor a língua portuguesa e a conhecer mais aprofundadamente a realidade nacional. Estes três elementos foram essenciais para começar, e continuar, a escrever romances.

Para terminar, deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Leiam livros “policiais”, leiam “thrillers”.

O “thriller” é um dos géneros ficcionais que melhor permite abordar praticamente todos os problemas sociais, e até políticos e culturais, e – quando tem qualidade – é um entretenimento magnífico que nunca se abstrai da nossa vida de todos os dias.

Leiam os meus livros mas procurem ler também, em português ou (se puderem) em inglês, obras de Ruth Rendell, John Le Carré, Lee Child, Carl Hiaasen, Karin Slaughter, James Ellroy, Harlan Coben e Peter Robinson.

Vejam as boas séries televisivas, em DVD ou (o que é bastante mais difícil) na próprio televisão, como “The Wire”, “Forbrydelsen/The Killing”, “Os Sopranos”, “Boardwalk Empire”, “Damages”, “NCIS”, “The Good Wife”, “Game of Thrones” e até “Mad Men”.

Vão ao cinema. Ou vejam-no em casa, sem preconceitos. E sintam-se com o direito de gostar e de não gostar.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Oz"









"Os Sopranos" (1999)? "Sete Palmos de Terra" (2001)? "The Wire" (2002)? "Roma" (2004)? Não. 
Onde, verdadeiramente, a televisão contemporânea começou, na HBO, foi em "Oz".
Esta série começou a ser exibida em 1997 e prolongou-se por seis temporadas, terminando em Fevereiro de 2003 com o seu 56.º episódio. 
É uma espécie de "memórias do cárcere" numa prisão de uma localidade chamada Oswald (daí Oz), com uma zona especial, designada por "Cidade Esmeralda" que parece ter sido concebida como uma qualquer experiência de reinserção social. A narrativa, que é pontuada por uma intervenção de um reclusos, como o coro de uma tragédia grega, destinada aos espectadores, é violenta, crua, visualmente bastante explícita, às vezes desconchavada. 
É também uma preciosidade (disponível na HBO). Está muito marcada pela estética cinematográfica dos anos noventa. Tem pontos de contacto com o telefilme "The Glass House" ("Homens sem Amanhã", 1972, exibido em cinema em Portugal e tendo Truman Capote como co-autor do argumento), e também com as séries "Prison Break" (2005) e "Orange is the New Black" (2013) e uma relação curiosa com "The Wire".
Aliás, Tom Fontana e David Simon, os criadores, respectivamente, de "Oz" e de "The Wire" cruzaram-se na série "Homicide: Life on the Streets" (1993 - 1999) como guionistas e há uma grande quantidade de actores de "Oz" que aparecem depois em "The Wire". Na pesquisa que fiz sobre "Oz" encontrei uma observação sugestiva: "Oz" é "The Wire" dentro de uma penitenciária. Parece, realmente.
Tom Fontana não tem, no seu currículo, nada de tão interessante como "Oz" depois desta série. É mais um caso, porque, às vezes, os criadores de grandes séries que podem ser, justamente, consideradas obras-primas, acabam por não conseguir fazer melhor, ou igual.
Apesar dos quase vinte anos que passaram sobre "Oz", a série mantém todo o seu interesse e, no seu imenso painel de actores, destaca-se J. K. Simmons, um "secundário" notável que, literalmente, domina a cena… até encontrar um desfecho inesperado numa representação de "Macbeth".

quarta-feira, 1 de junho de 2016

"Peaky Blinders"


Steven Knight é argumentista e é especialmente conhecido por "Promessas Perigosas" , de David Cronenberg com Viggo Mortensen, e "Locke".
Cillian Murphy, actor de presença discreta mas marcante, entrou nos três "Batman" de Christopher Nolan.
São eles, o argumentista e o criador, os cabeças-de-cartaz da série televisiva "Peaky Blinders".
Localizada em Birmingham e depois em Londres, a história desta série britânica tem a habitual base de drama familiar, de ambição e de conquista de posições e de violência entre gangues. Mas não só. Iniciando-se depois da Primeira Guerra Mundial, em que entraram quase todos os protagonistas de destaque, "Peaky Blinders" traz uma impressionante recriação cenográfica da época, uma atmosfera quase mágica (e a ascendência cigana da família Shelby ajuda) e um enquadramento político e histórico (a questão irlandesa e Winston Churchill) sugestivos.
Cillian Murphy entra em cena com o seu ar quase angelical, na pele do chefe do clã Shelby, e transforma-se, gradualmente, num chefe criminoso de um cinismo e de uma brutalidade assinaláveis. É o grande motor desta série, onde não faltam Tom Hardy e Sam Neil, e onde a prevalência do argumentista Steven Knight, como criador e produtor, não é um obstáculo à linearidade da narrativa audiovisual, que tem momentos surpreendentes (como o extraordinário clímax da primeira temporada) e uma banda sonora de primeira linha onde se destaca a canção do genérico inicial, "Red Right Hand", de Nick Cave". 
Produção da BBC, "Peaky Blinders", agora na terceira temporada (onde convergem influências bem aproveitadas de "O Padrinho", "Sons of Anarchy" e "Os Sopranos" e alguns excessos de câmara-lenta), nunca foi exibido nos canais portugueses de televisão. É uma omissão que diz muito sobre a ignorância dos seus responsáveis.





(Vi as temporadas 1, 2 e 3 de "Peaky Blinders" em DVD, numa edição BBC legalmente adquirida.) 

terça-feira, 9 de março de 2021

A grande revolução cultural do Ocidente



Quando, no próximo dia 18 de Março, a HBO estrear “Zack Snyder’s Justice League” em todo o mundo, ficará fechado o primeiro ciclo, de 20 anos, da maior revolução cultural do Ocidente: a ascensão da televisão como meio de síntese e de excelência do audiovisual.

A revolução começou em 1999 na empresa produtora de televisão HBO com a série “The Sopranos”. Foram 86 episódios e oito anos a contar a história de uma família da Mafia, com James Gandolfini a fazer de “padrinho”, explorando com todos os pormenores uma história com ramificações e pormenores que não caberiam no formato de hora e meia a duas horas de uma longa-metragem, numa linguagem adulta e sem limites.

As duas principais características desta televisão de tipo novo já aí estavam: tempo para desenvolver uma história e as suas personagens, ausência de limitações ditadas pela eventualidade sensibilidade dos espectadores ou por questões etárias. Com o passar dos anos, as potencialidades viriam todas ao de cima: a possibilidade de ver os episódios todos de seguida (por estarem sempre disponíveis), o alargamento dos temas e a entrada em cena de actores e actrizes da chamada “lista A” de Hollywood, além de realizadores e de argumentistas vindos do cinema. 

A HBO foi a grande pioneira e foi desta empresa que saíram as primeiras grandes séries: a tragicomédia familiar “Six Feet Under” (2001); a portentosa e dickensiana “The Wire” (2002), que foi ainda mais longe na inovação narrativa e na ligação da ficção à realidade social; “Deadwood” (2004) e a sua formidável revisitação do western; e a brilhante mas fracassada “Roma” (2005).

Os caminhos abertos pela HBO não foram explorados apenas por empresas que chamaram a si a produção de séries e a co-produção de séries estrangeiras, como a Netflix (numa inteligente lógica de videoclube), e, mais tarde, a Amazon Prime ou a Disney+.

Várias foram as companhias produtoras que se lançaram também nas séries, o que nos deu obras tão excepcionais como a reinvenção “motard” de “Hamlet” que é “Sons of Anarchy” (2008), a dupla “Breaking Bad” (2008)/”Better Call Saul” (2015) ou “Prison Break” (2005) e “Damages” (2007). E isto aconteceu tanto nos EUA, onde é mais forte a indústria do entretenimento audiovisual, como noutros países: da Suécia saiu a magnífica “Forbrydelsen/The Killing”, 2007), do Reino Unido saíram as admiráveis “Line of Duty” (2012), “Peaky Blinders” (2013) e “Happy Valley” (2014), de França, “Engrenages”(2015);  da Alemanha, “Babylon Berlin” (2017); da Coreia do Sul, “Bimilui Soop/Stranger” (2017); de Israel, “Fauda” (2015). De certa forma, a longa-metragem acaba por ser quase a tradução
de um conto para o ecrã e a série é o romance; no primeiro caso, o tempo da narrativa é curto; no segundo, não é.

Houve quem visse na proliferação da grande ficção televisiva uma menorização do cinema. É certo que a produção independente acabou por ser atraída pela televisão, ao mesmo tempo que ficava afastada dos grandes circuitos de distribuição, onde há receitas de bilheteira. Aí triunfaram as grandes produções cinematográficas. Por outro lado, o cinema também chegou à televisão com a Netflix a produzir longas-metragens, de qualidade alta, média e baixa.

Mas, nisto, o que mais interessa em termos de receptividade do público é a percepção: o cinema também sofreu com a crise sanitária. A campanha de medo que começou há um ano e os encerramentos das salas de espectáculo nos vários países adiaram muitas estreias e atiraram para a televisão muitas obras pensadas para o grande ecrã.

Foi esse o caso de “Zack Snyder’s League of Justice”. Produtor e realizador, Snyder estava a relançar os super-heróis da DC (Super-Homem e Batman, além de outros) e uma tragédia familiar levou-o a abandonar o que seria o seu filme sobre a Liga da Justiça (que juntaria, além dos primeiros, Flash, Cyborg, Wonder Woman e Aquaman), na sequência de “Batman v. Super-Homem: O Despertar da Justiça” (2016). Snyder saiu de cena e foi substituído pelo
realizador e argumentista Joss Whedon, que lhe alterou o projecto inicial. A longa-metragem que daí resultou (“A Liga da Justiça”, 2017) não foi bem recebida pelo público e Snyder acabou por regressar.

É assim que nasce “Zack Snyder’s League of Justice”. A versão de 2017 tinha duas horas de duração e esta tem quatro, com sequências acrescentadas e filmadas de novo. Snyder pôde fazer o que quis e o resultado ver-se-á depois. O mais interessante nisto é que o seu filme aparece agora como mini-série (de quatro episódios) e, em vez de se estrear no cinema, entra no “upgrade” da HBO que é a HBO Max.

Prevista para o segundo semestre na Europa, a HBO Max já começa a ter algumas das suas séries na HBO “normal”, como é o caso da portuguesa e é aí que entra a já anunciada “Zack Snyder’s League of Justice” e, muito possivelmente, a nova versão de cinema (e televisão?) de “Dune”, além de outros filmes.

Tal como aconteceu com “The Irishman”, de Martin Scorsese, na Netflix, as fronteiras começaram a esbater-se, e é natural que assim seja. Tal como é natural ver que, caso da HBO, a sua maleabilidade nesta matéria provém da sinergia com a grande produtora cinematográfica Warner Bros, fazendo as duas parte do mesmo grupo empresarial, a Warner Media.

O que divide a nova televisão e o cinema pode vir a ser apenas um problema tecnológico (e económico): como é que se pode transpor para o ambiente doméstico o ambiente mais concentrado da sala de cinema? De qualquer modo, em locais onde não há salas de cinema (ou se as há sem condições de qualidade), a alternativa será sempre disfrutar do entretenimento audiovisual em casa. Mesmo quando, e se, as democracias ocidentais voltarem a ser sociedades de liberdade.





Publicado no Portugal Digital





quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"The Night Of": a banalidade que inspira a arte


Podemos recordar a incontornável "The Wire". Podemos recordar "The Killing/Forbrydelsen". Ou "Os Sopranos". Ou "Breaking Bad". Ou a shakespeareana "Sons of Anarchy". Ou ainda "Peaky Blinders". Ou talvez mesmo  "True Detective" (a temporada 1). Mas a galeria do melhor que se tem feito em televisão tem de ser alargada e arranjar espaço para "The Night Of".
São oito episódios que compõem uma mini-série criada pelos argumentistas e escritores Richard Price e Steven Zaillian a partir de uma mini-série inglesa ("Criminal Justice", ou "Injustiça Criminal", quando passou em Portugal, num dos canais AXN).
O ponto de partida, comum, é simples: uma pessoa emerge de uma noite passada com outra, sem se recordar do que aconteceu, e a outra pessoa foi assassinada. No caso de "The Night Of", é um jovem de ascendência paquistanesa a pessoa que fica viva e... é ele o culpado?





"The Night Of" tem aquilo que hoje caracteriza a melhor televisão: tempo.
Há tempo para observar os protagonistas, para os ouvir, para vivermos no seu silêncio. E para desenvolver uma história filmada em tons sombrios, quase sempre soturnos, que ganha um estranho esplendor nos episódios-chave, no primeiro e no último, prolongados (quase hora e meia, que não se senta passar). O cinema, no desenvolvimento das histórias, é limitativo. A televisão, no seu melhor, não é.  
E há, claro, actores destacados: John Turturro na pele de um advogado com uma condição epidérmica difícil e uma condição profissional ingrata; Michael Kenneth Williams (o memorável Omar de "The Wire") na pele de um criminoso influente, mesmo a partir da prisão; e Riz Ahmed, o jovem e "alegado criminoso" Nasir, em prisão preventiva à espera de um julgamento que, por definição, lhe vai correr mal.
"The Night Of" é um prodígio, com um comentário acertado: num bar, um homem defende a sua ideia de uma série policial com um investigador criminal com pernas artificias e o outro diz que é má ideia e que o melhor é uma série onde tudo é (quase) banal. Como a vida, claro.
E eis a arte desta e de outras séries: partir de uma banalidade social para uma grande história. A boa televisão dos nossos dias é isto mesmo: a transformação da banalidade em arte.




Michael Kenneth Williams e Riz Ahmed: quase pai e filho na cadeia

John Turturro e Riz Ahmed: a caminho de um fim inesperado





(Vi "The Night Of" no canal TV Séries da televisão por cabo.)

sábado, 26 de março de 2016

"Ray Donovan": Myron Bolitar em versão "lado negro da Força"





Ray Donovan (Liev Schreiber, "calmo, frio, com ligações") é uma espécie de réplica maligna da famosa personagem de Harlan Coben, Myron Bolitar, mas na sua versão mais sinistra. Bolitar é um agente desportivo. Mas Donovan é um agente... de tudo. Um facilitador, um negociador e um mestre de expedientes no mundo dos famosos e dos poderosos de Hollywood. O seu arranque, no modo como Donovan resolve, misturando, os problemas de duas "estrelas", é magistral.
Criada por Ann Biderman (argumentista e criadora da malograda série "Southland"), "Ray Donovan" é mais uma das muitas séries da televisão dos nossos dias a ganhar pontos nos domínios da criatividade, da representação e da abordagens das várias realidades sociais em que o cinema tem, de certa forma, perdido terreno.
É também uma crónica familiar (como "Os Sopranos" ou "Sons of Anarchy"), onde Ray Donovan se vê emaranhado nos problemas da sua própria família (mulher e dois filhos adolescentes), dos seus irmãos disfuncionais e de um pai que também parece ser oriundo do "lado negro" do seu mundo: Mickey Donovan, interpretado por Jon Voight, que domina cada cena em que aparece.
"Ray Donovan" seguiu uma dada direcção nas primeira e segunda temporadas mas, à terceira, depois de Ann Biderman se distanciar, mudou de ritmo e corrigiu o seu rumo.
Ray Donovan ficou quase como mais um dos muitos detectives particulares de métodos sombrios que habitam a ficção americana mais do que um Myron Bolitar "from hell". Mas isso, sobretudo depois dos primeiros episódios, não prejudica o desenrolar da história.
As três primeiras temporadas são de grande qualidade. A quarta temporada começa no Outono deste ano.

("Ray Donovan" passou no canal de televisão por cabo TV Séries. Vi as três temporadas em DVDs legalmente adquiridos, em edições Showtime.)


domingo, 19 de agosto de 2018

As vozes de burro podem não chegar ao céu, mas ao "Expresso", obviamente, chegam

A criatura que escreveu estas linhas que a seguir transcrevo faz parte de uma manada imorredoura de jornalistas (antigos, recentes, assim-assim) que se acham mais do que habilitados para escreverem sobre cinema e, no que parece contraditório mas por nenhum motivo o é, sobre a televisão contemporânea. 
Muitas vezes lhe vi (e revi) textos em bruto e abrutalhados, nos idos de 80, e, para bem de todos e do próprio jornal, até consegui substituí-lo na cobertura de um festival de cinema.
Registemos o que escreve, dando-lhe eu o benefício de a coisa se poder explicar pelo facto de ter prestado pouca atenção a menos séries de televisão do que aquelas que até os meus cães já viram:

"(...) Começarei por dizer que ando cansado da monótona rotina das séries de televisão. O que vou escrever a seguir não será simpático, nem para um habitual seguidor de séries, como eu, mas começa a consolidar-se em mim a ideia de que, no geral, são muito reacionárias. Calma. Também poderia ir por aí, mas nem me estou a referir a questões políticas ou ideológicas. Fico-me, por agora, apenas pela constatação de que na reprodução dos seus modelos narrativos, revelam um conservadorismo confrangedor. De alguma forma, repetem à exaustão estruturas narrativas, muito ao estilo das novelas do século XIX, sem qualquer arrojo estético. Sem capacidade, vontade, ou interesse em suscitar questionamentos passíveis de afastarem espetadores. Tudo muito regular, muito dentro da norma, Nada de colocar em causa o 'status quo'. Algumas exceções, como 'Black Mirror', na Netflix, confirmam a regra. (...)"


Ou seja: "The Wire", "Treme", "The Deuce", "House of Cards", "Os Sopranos", "Sons of Anarchy", "Breaking Bad", "Better Call Saul", "Orange is the New Black", "Damages", "Billions"?... Para o iluminado, nunca existiram.



segunda-feira, 7 de março de 2022

O que a HBO teve e a Prime Video tem

 






"The Wire", "Os Sopranos", "Deadwood", "Roma", "Boardwalk Empire" ... Estas séries, e outras, marcaram o início da nova ficção televisiva de alta qualidade no princípio deste século. E foi a HBO que, muito deliberadamente, as lançou, num rasgo pioneiro que é indissociável desse progresso.

Hoje, porém, em plena evolução para a mais abrangente HBO Max (que não alterará substancialmente a oferta de conteúdos), a HBO é uma pálida imagem desse período dourado. E as suas séries originais (as que produz) são, quase invariavelmente, suaves, bem comportadas e desprovidas de grandes inquietações ou ousadias.

Ao contrário, a Prime Video (da Amazon) tem-se revelado muito melhor e com uma oferta de qualidade muito assinalável. As suas séries originais "The Man in the High Castle", "The Boys", "Goliath", "Bosch" (uma verdadeira surpresa!) e mesmo "Reacher" vivem dessas inquietações, ousadias e destemores e garantem um lugar muito especial à Prime Video no moderno panorama da ficção televisiva. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O meu "ranking" das melhores séries de TV (desde 2000)


Sofie Gråbøl em "Forbrydelsen/The Killing"

A ausência de um cinema de jeito no concelho para onde me mudei há alguns anos levou-me a prestar mais atenção às séries televisivas, beneficiando também de uma verdadeira época de ouro da produção de televisão (que não se reflecte, aliás, na ficção portuguesa).
Directamente dos canais por cabo ou por DVD (todos eles comprados, nunca nenhum oferecido) e nunca sem ter feito o respectivo "download", por questões de princípio e de viabilidade prática (até há pouco tempo a irrelevância do serviço de internet de "banda larga" estreita).
Ao cabo de algum tempo, já dá para fazer esta lista muito pessoal, que aqui deixo aos meus leitores, incluindo nelas séries produzidas depois de 2000 ou iniciadas antes e terminadas já neste século, com uma valorização que, no caso das séries ainda em exibição, pode vir a alterar-se.
Dividi-as por três categorias: as melhores de todas, as que já atingiram um nível de qualidade muito elevado e as outras que, não se enquadrando nesses dois patamares são, mesmo assim, muito interessantes, ordenando-as alfabeticamente.
Para quem preferir o sistema de estrelas, o equivalente poderá ser este: 5 estrelas, 4 estrelas e... 3 estrelas e meia (seguindo um critério norte-americano que também foi adoptado pelo falecido Roger Ebert).
 
 
As melhores
 
Breaking Bad (EUA, 2008)
Deadwood (EUA, 2004)
Forbrydelsen/The Killing (Dinamarca, 2007)
Game of Thrones (EUA, 2011)
The Sopranos (EUA, 1999)
Treme (EUA, 2010)
The Wire (EUA, 2002)
 
 
Quase tão boas como as melhores
 
Boardwalk Empire (EUA, 2010)
Damages (Sem Escrúpulos, EUA, 2007)
Engrenages (França, 2005)
ER (Serviço de Urgência, EUA, 1994)
House M.D. (EUA, 2004)
House of Cards (EUA, 2013)
Rome (Roma, EUA - Reino Unido, 2005)
Six Feet Under (Sete Palmos de Terra,EUA, 2001)
 
 
Muito boas
 
Borgen (Dinamarca, 2010)
Bron/Broen (Dinamarca-Suécia, 2011) 
Downton Abbey (Reino Unido, 2010)
The Good Wife (EUA, 2009)
Justified (EUA, 2010)
Mad Men (EUA, 2007)
NCIS (Investigação Criminal, EUA, 2003)
Sherlock (Reino Unido, 2010)
Southland (EUA, 2009)
The Walking Dead (EUA, 2010)
 
 
Os anos indicados referem-se aos anos de início de cada série.
Quase todas foram exibidas, ou ainda estão a ser, nos canais portugueses. Só um número muito restrito é que teve títulos em português.
No canto superior esquerdo deste blogue há um pequeno espaço em branco com uma lupa estilizada onde o leitor poderá inscrever o título da série e ver o que escrevi sobre ela.
O site International Movie Database (www.imdb.com) fornece (quase) todos os pormenores sobre cada uma delas. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O meu "ranking" actualizado das melhores séries de TV (2015)


As melhores
 
Breaking Bad (EUA, 2008)
Deadwood (EUA, 2004)
Forbrydelsen/The Killing (Dinamarca, 2007)
Game of Thrones (EUA, 2011)
The Sopranos (EUA, 1999)
Treme (EUA, 2010)
True Detective (EUA, 2014)
The Wire (EUA, 2002)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quase tão boas como as melhores
 
Boss (EUA, 2011)
Damages (Sem Escrúpulos, EUA, 2007)
Engrenages (França, 2005)
ER (Serviço de Urgência, EUA, 1994)
Happy Valley (Reino Unido, 2014)
House M.D. (EUA, 2004)
House of Cards (EUA, 2013)
The Knick (EUA, 2014)
The Newsroom (EUA, 2012)
Orange is the New Black (EUA, 2013)
Rome (Roma, EUA - Reino Unido, 2005)
Six Feet Under (Sete Palmos de Terra, EUA, 2001)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Muito boas
 

Boardwalk Empire (EUA, 2010)
Borgen (Dinamarca, 2010)
Braquo (França, 2009)
Bron/Broen (Dinamarca - Suécia, 2011) 
The Good Wife (EUA, 2009)
Justified (EUA, 2010)
Mad Men (EUA, 2007)
NCIS (Investigação Criminal, EUA, 2003)
Southland (EUA, 2009)
Top of the Lake (Margens do Paraíso, Nova Zelândia, 2013)
Vikings (Reino Unido - Canadá, 2013)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A ver
 
American Horror Story (2011)
Arrow (EUA, 2012)
Downton Abbey (Reino Unido, 2010)
Gotham (EUA, 2014)
Sherlock (Reino Unido, 2010)
The Flash(EUA, 2014)
The Walking Dead (EUA, 2010)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Notas:
1. Esta nota actualiza a que publiquei em Novembro de 2013 aqui.
2. Todas as séries citadas foram vistas por mim, por intermédio de um serviço de TV por cabo ou de edições em DVD que comprei legitimamente e escrevi sobre quase todas neste blogue. Não indico aqui séries que não tenha visto.
3. Este "ranking" tem a seguinte equivalência em estrelas: As melhores - *****; Quase tão boas como as melhores - ****; Muito boas - ***1/2; A ver - ***.
4. Relativamente a Novembro de 2013 houve mudanças de divisão devido aos desenvolvimentos de algumas e ao fim de outras.
5. Os anos indicados referem-se aos anos de início de cada série.
6. No canto superior esquerdo deste blogue há um pequeno espaço em branco com uma lupa estilizada onde o leitor poderá inscrever o título da série e ver o que escrevi sobre ela.
7. O site International Movie Database (www.imdb.com) fornece (quase) todos os pormenores sobre cada uma delas.