“Passear pelas ruas de Caria é passear pela história. Em Caria, em cada rua, em cada casa, é possível observar marcas deixadas por populações anteriores. São os brasões, as datas, os elementos arquitectónicos reutilizados, os grafitos que atestam a passagem dos soldados franceses em 1808 (…)”
Bem, na realidade, não é assim. E sei-o por experiência prática porque passei nesta vila, que é uma freguesia do concelho de Belmonte, quase uma semana.
As palavras que cito são retiradas de uma espécie de guia, da responsabilidade da Junta de Freguesia de Caria. Tem um mapa da vila, com algumas indicações úteis, e indica alguns espaços de interesse histórico e documental como a Casa da Torre – Centro de Estudos Arqueológicos, a Casa da Roda e a Casa Etnográfica (quase sempre fechada). O guia é completado pelo site, muito informativo, da Junta de Freguesia, que inclui elementos estatísticos relevantes.
Por eles ficamos a saber que Caria tem uma área geográfica de 39.03 quilómetros quadrados, 1744 habitantes, 947 agregados familiares e 1951 “fogos – habitação”. Dos 1744 habitantes (o número é dos Censos de 2021), 301 são jovens até aos 24 anos. Acredito, sem ter ido à procura, que a maioria da população há de ter uma idade bastante mais avançada.
O optimismo da Junta de Freguesia não é coisa que o visitante ocasional de Caria consiga compreender.
Tendo ficado alojado numa casa no que pode ser considerado o centro histórico, de alojamento local, tive oportunidade para, várias vezes por dia, “passear pelas ruas de Caria”. E o resultado não me entusiasmou.
Caria terá todos os elementos necessários para poder ser uma interessante vila de perfil medieval, com as suas casas de granito e as suas ruas de grandes pedras.
A casa onde fiquei (com a designação de Cantinho de Caria, via airbnb) manteve a traça original e as pedras bem espessas e foi objecto de uma remodelação que a tornou confortável e acolhedora. Não será caso único, calculo, mas rodeiam-na casas que terão sido objecto de obras mais práticas e visualmente menos atraentes e, sobretudo, um impressionante número de casas em ruínas, degradadas pelo tempo, pela desinteresse ou pela incapacidade dos seus proprietários, num sítio que, sendo rico em História, é pobre social e economicamente. E quase fica a impressão de que vivem no centro mais gatos do que pessoas.
Na vila há quatro ou cinco restaurantes que parecem viver, ou sobreviver, graças às pessoas que passam pela vila ou que trabalham na vila ou nos arredores. Têm o mínimo indispensável (frango ou entremeada) e, ao almoço, parecem ter comida “de tacho”. À noite, para quem insiste em ficar aberto, será uma sorte se conseguirem ter clientes. Fui ao Mira Serra e ao Carrocel e, sem entusiasmo, dei-me por satisfeito. Nos arredores, acessível só de carro, há o Bebiana, mais caro e mais criativo e, mais longe, mas também convidativo, O Bernardo.
Uma mercearia acanhada, um “mini-mercado” pouco interessante, um talho de oferta modesta (mas com alheiras e morcelas que recomendo), uma papelaria (que parece servir vários fins comerciais) e, vá lá, um multibanco são os serviços básicos à disposição de residentes e visitantes. Mas, a avaliar pela escassez de pessoas (é possível que a maioria dos seus habitantes não se encontre no centro da vila), a procura também será reduzida.
E será esta reduzida afluência de público que explica a diferença entre os equipamentos “históricos” e a sua acessibilidade?
A igreja, o cemitério, a construção imponente da Casa da Torre – Centro de Estudos Arqueológicos e a Casa Etnográfica são interessantes… mas, entre um extremo e outro, a igreja é mantida fechada e a Casa Etnográfica (com um espaço exterior bem concebido, mas degradado) não respeita o horário de abertura.
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A História, digamos assim, está “fechada”. E mal cuidada, afinal.
Como na sede do concelho, Belmonte, o imponente castelo implantado num espaço igualmente bem concebido e bem mantido está também fechado ao visitante ocasional.
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| Castelo de Belmonte: fechado |
Acredito que seja difícil aos poderes públicos manter estes espaços abertos e acessíveis e que talvez não haja tantos visitantes que justifiquem o investimento. Mas se esse esforço não existir… também não será possível captivar visitantes, tanto turistas nacionais como estrangeiros.
Neste breve apontamento de viagem, e passando do factor histórico para a gastronomia, há nos arredores de Caria dois motivos suplementares de interesse: a Quinta dos Termos, que tem uma vasta produção vinícola de grande qualidade e com preços razoáveis (mas sem provas disponíveis para o comprador que lá se desloque), e o Museu do Queijo, interessante pela recriação do processo de fabrico e com venda de alguns queijos da região, em Peraboa, a cerca de seis quilómetros de Caria.







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