segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Notas de prova


Ô Vignerons - Tinto 2017 - IGP Comté Tolosan
Syrah, Tannat e Cabernet Franc
Vignerons de Saint Sardos, Saint Sardo (França)
12% vol.
Interessante.
(Bebido no restaurante Barricot, Toulouse.)

Notas de prova



Haut-Capitole - Tinto 2015 - DOP Fronton
Négrette
Vinovalie, Brens (França)
13% vol.
Muito bom.
(Bebido no festival Toulouse Polars du Sud, Toulouse.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

15 de Outubro


Há um ano, a minha casa ia ardendo. À tarde começou um incêndio nas arribas da costa atlântica, perto da Foz do Arelho. O vento impeliu as chamas, descontroladamente, para Norte, ao longo da costa, ao longo da Estrada Atlântica. 
Foi até à noite. 
Se o vento se tivesse voltado para oeste, as chamas teriam coberto os terrenos cheios de mato e de árvores em poucos minutos e atingiram a minha casa e as casas de alguns dos meus vizinhos. Nada o teria impedido.
Nessa noite, a do grande incêndio na Serra do Bouro, em Caldas da Rainha, os residentes ficaram sozinhos. Os bombeiros pouco puderam fazer para tentar dominar as chamas. A GNR andava de um lado para o outro sem que se percebesse porquê. E os recém-eleitos presidentes da junta de freguesia e da Câmara Municipal de Caldas da Rainha mostraram, pela ausência, os desprezo que lhes merecemos.
Um ano depois, chove. A temperatura está muito mais baixa. 
Mas os terrenos (poucos foram limpos,mas as ervas depressa cresceram) continuam cheios de mato combustível. As cicatrizes negras deixadas pelo fogo ainda se vêem.
No ano passado escapámos. E na próxima vez?

Toulouse Polars du Sud: uma lança... em França



Na sessão de abertura da décima edição do festival internacional de literaturas policiais, Toulouse Polars do Sud (TPS), que se realizou no passado fim de semana nesta cidade francesa, um pequeno desfile de discursos institucionais terminou invariavelmente em… Espanha. 
Os oradores referiam-se à participação de autores de Itália, Grécia, Espanha e... mais nada. Portugal, e Toulouse até tem uma grande comunidade portuguesa, não existe.
Não surpreende. Por muito que se exibam certos nomes de fama, a literatura portuguesa continua a ser mal conhecida mesmo num país como França e, no caso vertente da literatura policial (o "polar"), ainda menos.
Este festival, que reúne todos os anos muitas dezenas de autores franceses e estrangeiros (com obras publicadas em França), nomeadamente dos países do sul da Europa, teve em dez anos a presença de apenas dois autores portugueses: o portuense Miguel Miranda (que também escreve para o público infanto-juvenil) há dois anos e eu, este ano, com a particularidade de o meu "Mort sur le Tage" ter chegado à "finalíssima" do grande prémio do TPS, o prémio Violeta Negra.
E foi por isso que na mesa-redonda em que participei, com o tema "A paisagem do 'polar' ibérico", eu tive de explicar que não havia um "polar" ibérico mas sim espanhol, obviamente dominante, e nenhum português. Por vários motivos, dos quais alguma responsabilidade cabe às editoras e outros são sistémicos.


Com os meus colegas escritores de Espanha, Agustin Martinez, Carlos Salem, Carlos Zanon e Alexis Ravelo.

É também por isso que a publicação de "Mort sur le Tage" em França (em primeira edição pela Chandeigne e, em segunda, pela Livre de Poche), a que se seguirá "O Clube de Macau", tem importância para as letras portuguesas. 
Neste domínio, o pequeno país do fundo da Europa ainda existe, mesmo que drasticamente reduzido a um autor que optou por não escrever outras coisas ou, de forma mais abrangente, a autores que às vezes se dedicam ao género.
Toulouse, na sua multiculturalidade tão vasta, foi, de certo modo, o local emblemático ideal para o reafirmar. E o TPS o cenário também emblemático. 
O festival Toulouse Polars du Sud é um festival informal, simpático,  amável, bem organizado e com apoio de empresas e entidades oficiais locais. E com muito público, que acorre a Basso-Cambo (uma espécie de subúrbio onde se chega por uma linha de metro com pequenos comboios de velocidade impressionante e sem condutores) para comprar "policiais" diversificados, que interpela os autores, que lhes pede autógrafos descontraidamente e que vai às sessões e às diversas mesas-redondas, bem organizadas e esclarecedoras.
Talvez o TPS precise ainda de alargar tecnicamente alguns horizontes (os prémios, de modo a poder abranger sensibilidades e situações diferenciadas, ou a ligação da literatura com o cinema e com a televisão contemporânea, por exemplo) mas está sem dúvida no bom caminho. E da melhor maneira. Para este autor, foi, "no pun intended", uma verdadeira lança… não em África, mas em França.
O que também faz com que à editora Chandeigne, à editora Livres de Poche e aos muitos leitores, livreiros e "bloggers", se junte agora o TPS aos agradecimentos devidos pelo autor.



O autor, com os seus livros da primeira edição francesa, 
na zona das "dédicaces", ou seja, dos autógrafos. E foram muitos...


TAP: indignidade





Voo Lisboa - Toulouse na sexta-feira: uma hora de atraso na partida do aeroporto de Lisboa, sem explicações aos passageiros, amontoados como um rebanho à espera do "favor" de poderem embarcar no avião e fazerem a viagem que compraram. 
No voo Toulouse - Lisboa, no domingo, só não foi a mesma coisa porque o tempo de espera alargou-se, de uma hora para uma hora e vinte minutos.
Durante mais de duas horas, este voo da TAP esteve no painel das partidas sem uma única informação. Foi o único em branco, entre dezenas e durante várias horas. Como se o voo da TAP fosse um voo fantasma, uma espécie de "Mary Celeste" aeronáutico. 
Há quem defenda a TAP como "companhia de bandeira". Não vejo qual é o orgulho que se pode ter com situações destas.
Sobretudo quando os passageiros (os clientes) são tratados como gado, sem direito a qualquer tipo de informação, sem direito a um pedido de desculpa, sem um gesto de cortesia.
Estas duas viagens na TAP foram uma indignidade que não tenciono repetir.
Há quem goste. Mas eu não gosto.







quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A cabra morreu



Está morta, no fim de um pequeno declive, já inchada, numa nuvem de mau cheiro. 
E o cabrito desapareceu. Ou pode estar enfiado em qualquer nicho de vegetação, igualmente morto. De nada lhe valeu a pose orgulhosa de mãe recente, a firmeza com que defendeu, pelo menos enquanto terá sido possível, a cria recém-nascida.
Cães, ou um cão, talvez não um ser humano, um acidente por ter sido acossada, doença… Tudo é possível. Não lhe valeu o pastor, nem os seus cães,
À distância, o cadáver não apresenta sinais de lesões. A não ser a disposição mole das pernas e do pescoço. 
Não me aproximei para ver melhor, por mais até que a J. e a E. me puxassem, loucas com o cheiro e com a curiosidade que as agita.
Ficará ali, numa sepultura a céu aberto, onde o tempo e a vegetação a encobrirão para sempre.
Há cabras que merecem esta sorte. Esta seguramente que não a merecia.



domingo, 7 de outubro de 2018

Uma cabra ao caminho



Ao fim da tarde, no passeio com a J. e a E., aparece-nos ao caminho esta cena da vida quase selvagem: uma cabra com o seu cabrito. Imóvel a mãe, trôpego o filho (ou filha?), branco sujo, a pequena cauda a abanar, pernas ainda muito instáveis e cordão umbilical pendurado. A mãe, vigilante, enfrenta desafiadoramente os cães, primeiro a J. e a E., que ladram, bem seguras pelas trelas, e depois o cão do vizinho, mais arisco e completamente à solta.
Afasto-me com as minhas e o cão do vizinho fica a ladrar sem parar.
A cabra deve pertencer a um rebanho que anda aqui pela zona, com pastor e cães, de onde às vezes se extraviam ovelhas e cabras.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Reconhecimento

Em Óbidos, aqui ao lado, decorrem umas festividades literárias com o nome de "Fólio". Não sei se metem chocolate ou coisas medievais. 
Em Alcobaça há, ou vai haver, qualquer coisa sobre literatura e cinema. 
Não fui convidado para nenhuma destas atividades. 
Aliás, nunca fui convidado para nenhum evento desta natureza em Portugal, nem mesmo quando uma das pessoas que o conseguiria fazer me publicou alguns dos meus dez livros, nenhum deles (note-se) edição de autor.
No próximo fim-de-semana estarei na cidade francesa de Toulouse a convite do festival Toulouse Polars du Sud. Bastou, em França, a publicação de um único livro.







terça-feira, 2 de outubro de 2018

Serra do Bouro






Há manhãs de céu limpo em que fica uma camada retardatária de nevoeiro sobre as terras mais baixas, que formam um vale pouco profundo, entre a cidade de Caldas da Rainha e esta zona da Serra do Bouro. 
O que se vê parece uma paisagem de fantasia, algo de irreal que parece só emergir, ou desaparecer, com o nevoeiro, como se pertencesse às mais antigas mitologias.
A beleza da Serra do Bouro não é só composta pela costa atlântica, pelo mar e pelos campos que a pacóvia elite urbana ignora e despreza. É também esta visão de grandeza, que deixa a ilusão de estar ainda imaculada e livre do lixo.
É o que os J. Varelas, tontinhos desta vida e de todas as outras, nunca serão capazes de compreender.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Um ano perdido... como já se esperava

Jorge Varela, ladeado pelos seus antecessores: a degradação tem rosto

Foi há precisamente um ano que o advogado e professor do ensino superior Jorge Varela foi eleito presidente da aberração que é a União de Freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro do concelho de Caldas da Rainha, "união" que mistura uma freguesia rural (Serra do Bouro) com uma freguesia no centro da capital do concelho, com uma terceira freguesia pelo meio.
Não alimentei ilusões de que alguma coisa pudesse melhorar. Quando o candidato apareceu, proclamou que queria "embelezar" a Serra do Bouro. Depois apresentou uma lista de promessas das quais, no mínimo, se pode dizer que tomava por estúpidos os eleitores da Serra do Bouro.
Um ano depois, e salvo algumas frioleiras localizadas (sempre, mas sempre) na cidade e não na freguesia rural, a Serra do Bouro está mais abandonada, desmazelada, desprezada e mal servida. Como sempre tem estado… mas ainda não tinha visto nenhum candidato na campanha do "embelezamento" todos os dias negado.
Foi um ano perdido para a Serra do Bouro.
E o melhor ícone desta gestão (?) incompetente e ofensiva para os eleitores da Serra do Bouro é esta espécie de chafariz público, na aldeia do Cabeço da Vela, por onde, no Verão, passam dezenas de turistas nacionais e estrangeiros. Está assim há mais de um ano.
Não deve custar muito arranjar um painel de azulejos e disfarçar esta coisa remendada, mas este deve ser o conceito de beleza de Jorge Varela.
Não que me surpreenda mas, sinceramente, não pensei que pudéssemos descer tão baixo.





O Terceiro Mundo da Serra do Bouro