quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

A ignorância da imprensa nacional relativamente à indústria audiovisual


No lixo electrónico, que às vezes deixo acumular no "desktop", encontro um "recorte" de que já nem me lembrava nesta minha contemplação do lamentável estado a que chegou a imprensa portuguesa.

É isto:




É do "Público", do passado dia 26, e traz-me à memória uma época, na década de 1990, em que se tornou patente o que me parece ser ainda um enviesamento na imprensa nacional: a grande maioria de quem escreve sobre cinema desconhece, ou ignora, o enquadramento industrial, histórico e cultural da produção audiovisual.

São pessoas, e eram, que limitam o que escrevem aos seus gostos e às suas preferências pessoais, que vivem das exibições privadas de filmes organizadas pelas distribuidoras, e que, quanto à televisão, pode-se imaginar não beneficiem de ofertas diversificadas de séries. As empresas que depreciativamente designam por "serviços de 'streaming'" não lhes devem passar cartão e é natural que os órgãos de comunicação onde escrevam, ou peroram, não lhes paguem esses serviços, nem DVDs, nem nada que se pareça. E, por si só, não vão, nem querem, ir mais longe.

O título do "Público" acerta, mal, no que foi uma expressão (a televisão de "prestígio") que nasceu a partir de um largo conjunto de séries, lançadas sobretudo pela então HBO (agora HBO Max, ainda, em alguns países e, oficialmente, Max), que se distanciavam das séries de produção industrial que abastecem a grande maioria dos canais de televisão. 

"The Wire", naturalmente, e tantas outras ("Os Sopranos", "Sete Palmos de Terra", por exemplo, nos EUA) trouxeram temas, pontos de vista, actores e actrizes muitas vezes da chamada "lista A", realizadores, argumentistas e produtores de qualidade e o indispensável apoio orçamental a um sector onde predominavam as séries quase eternas de baixo investimento.

Os canais por cabo, por serem pagos e gerarem uma clientela mais selectiva, acabaram por ser substituídos pelos tais "serviços de 'streaming'", numa iniciativa de novo tipo: são empresas que produzem as suas próprias séries e longas-metragens e que compram e financiam outras séries e longas-metragens e cujo acesso está reservado a quem paga. HBO (agora HBO Max ou já Max em alguns países), Netflix, Prime Video (da Amazon), Disney+ (do grande complexo industrial que é a Walt Disney Company) e Apple TV (da empresa tecnológica Apple) são as principais.

Se tomarmos como referência "The Wire" (HBO Max, para mim, em certa medida, a mais importante série desta nossa época, que foi lançada em 2002), estamos a falar num período de vinte anos, num horizonte onde não há a tendência para, como no cinema, fazer "reboots", ou seja, produzir e lançar uma nova versão de uma história já filmada. 

Todos os grandes temas da ficção, em todos os seus domínios, foram explorados em, praticamente, todas as grandes séries desses primeiros anos. É difícil retomar, reinventar ou relançar temas já desenvolvidos. Sobretudo quando nos circunscrevemos a uma única indústria. Se olharmos apenas para os EUA, vemos que tem predominado uma nivelação por cima, ou uma espécie de "normalização". O mesmo aconteceu no Reino Unido, no conjunto dos países escandinavos (onde o "nordic noir" quase se esgotou). Nos países europeus tem havido uma recuperação, com a indústria audiovisual a reorientar-se agora mais para a televisão. Falar em "programação insípida" é uma confissão da mais absoluta ignorância.

Podemos continuar a encontrar nestes países produções de grande qualidade, que começam a encontrar-se na área das mini-séries e que rivalizam com o cinema. Mas é conveniente ir mais longe, num horizonte não alcançável por este tipo de jornalismo, para se ver como floresce a síntese da "televisão de prestígio" e do espectáculo cinematográfico (das imagens em movimento), destacando-se, sobretudo, a produção sul-coreana. 

Quem a quiser ver com atenção poderá encontrar, e será um dos seus melhores exemplos, uma extraordinária série de 21 episódios com o modesto título "Vincenzo" (Netflix). A "televisão de prestígio" está, toda ela, aqui: na história de um jovem coreano que cresceu no seio de uma família mafiosa em Itália e que regressa à sua terra de origem... O que se segue é um festival audiovisual onde desfilam quase todos os géneros do cinema. 

Aliás, foi também da Coreia do Sul que chegaram também outras séries tão admiráveis, nas suas diversas vertentes, como "Sweet Home" (Netflix), "Woo, Uma Advogada Extraordinária" (Netflix) ou "Snowdrop" (Disney+). Basta ir vê-las.

Mas, aqui chegados, talvez nos devamos interrogar: quem escreve o que o "Público" assim divulga gosta de cinema? Não, acho que não, e o problema também é esse.




O mundo vai acabar mais cedo...

E teremos mais um "rio atmosférico" ou mais "calor extremo" ou qualquer outra coisa da moda... apenas porque os sacos de plástico "leves" e "muito leves" ainda não vão ser pagos, o que vai, evidentemente, agravar as "alterações climáticas"





Porque, ficamos todos a sabê-lo, os sacos de plástico deixam de ser poluentes quando começam a ser pagos pelos clientes-contribuintes. E como ainda não podem ser pagos... a poluição vai agravar-se, drasticamente, e fazer com que o fim do mundo aconteça alguns milhões de anos antes da data prevista pelos "estudos" sagrados dos "especialistas".


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Os cães e os outros

 

Cinco: é este o número de cães que passaram pela minha família, considerando o núcleo original e os seus descendentes. Dos cinco, três já não estão connosco, por doenças diversas e em circunstâncias sempre muito tristes. Restam dois. Não sei se haverá mais. 

A existência de cães obrigou a determinadas condições fundamentais e uma delas foi dar-lhes sempre a devida atenção e de uma forma crescentemente activa, porque, em tudo o que se refere aos seres vivos, os cães não trazem livro de instruções e nós, os humanos que nos interessamos por eles, estamos sempre aprender. Comer e beber, sítio onde dormirem os sonos mais profundos e confortáveis à medida das suas necessidades, cuidados médicos, brincadeiras e passeios e... companhia. De tudo isto precisam, é tudo isto que devemos dar-lhes.

Os cães são seres vivos eminentemente sociais, e sociáveis no que se refere aos seres humanos, e sempre considerei que deviam acompanhar os "seus" humanos quando os períodos de separação são superiores ao que estimo como razoáveis em matéria de horas, impedindo situações de tensão. Porque é impossível pô-los com "os avós" ou explicar-lhes que a nossa ausência é temporária.

Nunca, por comodidade humana, os nossos cães foram enviados para "hotéis" ou outros serviços de alojamento. Nem mesmo quando, em Novembro do ano passado, a casa ficou inabitável na sequência de um incêndio doméstico. Estivemos sempre juntos. E mesmo em pequenas viagens de carácter turístico não têm ficado para trás, porque hoje já se encontram muitas ofertas de alojamento onde são aceites cães. E onde há pessoas amáveis e atenciosas que nos dizem que o facto de serem três cães e não dois é problema nosso, porque nos acolhem sempre, ou que (agora são três e não dois..), jovialmente, que "não faz mal, porque a minha filha é veterinária". Têm toda a nossa gratidão. 

E se há amigos, a quem sempre estaremos também gratos, que nos aceitam e aos nossos cães,  há, às vezes, incompreensões. 

Por exemplo: há quem nos tenha aceitado com cães uma vez, para depois nem voltar a pôr a hipótese e, no entanto, nem houve problemas. Há quem sugira que é melhor não, quando noutras ocasiões já pôde ser. Há quem exclua. Os cães e nós, por extensão, claro. E não me refiro a estranhos (às vezes, até, mais disponíveis) mas a pessoas bastante mais próximas. Incluindo familiares.

E, abstendo-me relativamente à estima ou ao grau de parentesco, sentindo-me cada vez mais indiferente, dou por mim a pensar que é verdadeiro, e nada exagerado, o que às vezes se diz: quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos cães. Estes, pelo menos, são leais até ao fim. E eu tenho de ser leal para com eles. Não pode ser de outra maneira.



sábado, 30 de dezembro de 2023

Banha da cobra


Compreendo a necessidade do uso das máscaras faciais em algumas circunstâncias. Numa instalação hospitalar em que é necessário salvaguardar doentes e pessoal clínico de alguma contaminação mais perigosa. Por pessoas que têm condições de doença que as tornam especialmente debilitadas. Pelos investigadores numa cena de crime. Ou numa cidade subjugada pela poluição atmosférica, como certas cidades do Oriente. 

Mas não deste modo, como aparece hoje na primeira página do "Correio da Manhã":




E, muito menos, como agora parece que a DGS recomenda: os engripados devem andar por aí mas com máscara, em vez de ficarem em casa?!








Nunca percebi as vantagens do trapo, nem na época delirante dos confinamentos decretados em 2020 e em 2021 pelos políticos que abraçaram o fascismo sanitário, borrados de medo perante a mais sobrevalorizada de todas as pandemias. Nunca ficou provada a eficácia das fraldinhas faciais e o modo como vi tantas vezes a usá-las e a manuseá-las foi revelador de como a grande maioria das pessoas há de ter levado para a boca e  para o nariz a porcaria que se acumulava no chão e nos tabliês dos carros, onde as suas queridas máscaras repousavam.

E não me esqueço dos idosos que vi, nos dias mais quentes de 2020, a arrastarem-se ao sol em ruas quase desertas e de máscara na cara, ofegantes e com evidente dificuldade em respirarem. Nem do homem que, ao entrar num restaurante do Alto Alentejo, espirrou dentro da máscara que tinha na cara, assoando-se em seguida à mesma máscara... e sem a tirar.

O que tenho visto, nas últimas semanas, nada tem a ver com as situações em que o uso da máscara, com todas as suas limitações, pode ser realmente benéfico. Dos supermercados ao ar livre, no campo, e mesmo dentro dos próprios carros, o que vejo são pessoas que parecem razoavelmente saudáveis... mas assustadas.










Tem a ver é com a promoção do medo pela imprensa do lixo e com "apelos" ao uso da coisa por motivos relacionados com o que parece uma grande procura da população dos serviços de atendimento dos hospitais. Que substituem, mal, o que devia ser uma rede de centros de saúde capazes de receberem doentes necessitados de atendimento médico, mas não em situação de emergência.

Numa situação destas, as máscaras, que como os testes serviram para enriquecer muitas empresas e empresários, não passam de banha da cobra e muitos dos seus utilizadores são pessoas quase enlouquecidas pelo medo que tem sido estimulado desde 2020. Paradoxalmente, sem que, como as milagrosas vacinas, as máscaras tenham servido para impedir o alastramento (imunizante) do SARS-CoV-2, e de outros vírus.




sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Notas de prova (Alentejo)







Herdade do Sobroso — Tinto Reserva 2021 — D.O.C. Alentejo
Aragonez (25%), Trincadeira (25%), Touriga Nacional (20%), Alfrocheiro (15%)
e Alicante Bouschet (15%)
Sociedade Agro-Pecuária da Herdade do Sobroso, Vidigueira
14% vol.
(Bebido no restaurante O Recanto, em Caldas da Rainha.)





Vale do Rico Homem — Tinto 2021 — Vinho Regional Alentejano
Sousão
Granacer, S.A., Monte dos Perdigões, Reguengos de Monsaraz
13,5% vol.
(Bebido no restaurante Vale Velho, em Caldas da Rainha.)






Monte Velho — Tinto 2011 — Vinho Regional Alentejano
Aragonês, Trincadeira e Castelão
Herdade do Esporão, Reguengos de Monsaraz
14% vol.


Outeiro dos Pinheiros — Tinto 2021 — Vinho Regional Alentejano
Trincadeira, Aragonez e Touriga Franca
Adega Cooperativa de Borba, Borba
13,5% vol.


Piteira Alicante Bouschet — Tinto 2019 — D.O.C Alentejo
Alicante Bouschet
Amareleza Vinhos, Amareleja
14% vol.







Adega do Passo — Tinto Reserva 2015 — Vinho Regional Alentejano
Sem indicação de castas
Sociedade de Vinhos de Borba, Borba
14% vol.


Bote — Tinto Reserva 2017 — Vinho Regional Alentejano
Touriga Nacional (80%) e Alicante Bouschet (20%)
Casca Wines, Alcabideche
14% vol.



Couteiro-Mor — Tinto Signature 2020 — Vinho Regional Alentejano
Touriga Nacional, Petit Verdot e Syrah
Herdade do Menir, Montemor-o-Novo
14,5% vol.


Dona Julieta — Tinto Reserva 2021 — Vinho Regional Alentejano
Aragonez, Trincadeira, Syrah e Alicante Bouschet
José Maria da Fonseca Vinhos, Azeitão
13% vol.




José de Sousa — Tinto 2019 — Vinho Regional Alentejano
Grand Noir (56%), Trincadeira (32%) e Aragonez (12%)
José Maria da Fonseca Vinhos, Azeitão
14,5% vol.
(Bebido no restaurante Vale Velho, em Caldas da Rainha.)




Monsaraz — Tinto Reserva 2020 — D.O.C. Alentejo
Alicante Bouschet, Trincadeira e Touriga Nacional
Carmim, Reguengos de Monsaraz
15% vol.





Monte das Servas — Tinto 2021 — Vinho Regional Alentejano
Aragonez (35%), Alicante Bouschet (30%), Trincadeira (25%) e Syrah (10%)
Serrano Mira, S.A., Herdade das Servas, Estremoz
14,5% vol.
(Bebido no restaurante O Recanto, em Caldas da Rainha.)





Passo dos Terceiros — Tinto 2018 — Vinho Regional Alentejano
Syrah
Sociedade de Vinhos de Borba, Borba
15% vol.




terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Ler jornais já não é saber mais (199): Biden pode tentar coagir a imprensa que não faz mal...

O presidente dos EUA, na Casa Branca, deu um raspanete à imprensa e disse aos jornalistas que deviam dar as notícias sobre a economia "da maneira correcta".

O presidente é Biden e está tudo bem.

Se fosse Trump a dizê-lo já seria um atentado à liberdade de expressão.



























domingo, 24 de dezembro de 2023

Ler jornais já não é saber mais (198): como o "Observador" alinha com a desinformação

 


Um jornal de pouca credibilidade, o alemão "Bild", afirma, a partir de uns genéricos "serviços secretos europeus", que a Rússia vai "atacar" a Europa no "Inverno" de 2024.

O jornal ucraniano "The Kyiv Independent", fiel porta-voz do governo de Kiev, amplia a coisa, porque dá jeito, para encher a narrativa da mão estendida do presidente comediante e para tentar recuperar os favores da opinião pública europeia.

E o excelso "Observador" tuga, cujo rigor jornalístico desandou há vários anos para parte incerta, dá um destaque desmesurado à coisa sem perder um segundo que seja a interrogar-se sobre o grau de veracidade da "notícia".

A começar pela falta de idoneidade da fonte original e a acabar na estranha certeza de que a Rússia, que se dizia ser tão pobre, seria capaz de sobrecarregar ainda mais a sua economia e a sua população para abrir directamente uma segunda frente de confronto, e com data marcada (daqui a 12 meses!) contra a NATO. E numa situação absurdamente fictícia, que até inclui a não menos absurda previsão de um vazio de poder nos EUA entre a eleição de um novo presidente (que já não seria Biden) em Novembro e a tomada de posse do novo presidente (que seria Trump) em Janeiro! Até parece que querem sugerir que o tal "ataque" se dará se Biden não for reeleito... para irmos todos a correr votar no velhinho.

Nada mal, para um órgão de (des)informação que até tem uma secção destinada a combater e a castigar os que espalham informação que não é verdadeira...



sábado, 23 de dezembro de 2023

8h08

Se o quisesse fazer, dificilmente o teria conseguido. A minha intenção de fotografar o sol que se via por uma das portas da sala deu origem a esta imagem, captada pela lente fotográfica de um telemóvel quase básico hoje às 8h08, que parece um postal de Natal e que é, por isso, adequada à "saison".)