terça-feira, 12 de janeiro de 2016

E quando é que começarão a dizer "Foda!" em vez de "Foda-se!"?!

 
Como a imprensa muito gosta de dizer, "é oficial": o "-se" perdeu, definitivamente, e por motivos que vão para lá da simples evolução da língua.
Não há "evaporou-se", "afundou-se", "reuniu-se", "fechou-se", por exemplo. O que há é isso tudo e sem o esclarecedor "-se", o que também, segundo os cânones, transforma tudo em acções efectuadas por terceiros: a água evaporou alguma coisa ou alguém, a Bolsa afundou alguma coisa ou alguém, o Comité Central reuniu alguma coisa ou alguém, a porta fechou alguma coisa ou alguém.
É uma espécie de epidemia maligna, tipo peste suína, que tende a alastrar, com a qual, conservador na língua e profissionalmente obrigado a respeitá-lo (mesmo no uso do acordo ortográfico quando o cliente legitimamente o determina), não consigo concordar e cuja prática não consigo ver com bons olhos.
E acho que só concordarei com ela, podendo até acatá-la, se ouvir as mesmas pessoas que assim falam a exclamarem "Foda!" em vez de "Foda-se!".
Como (se...) costuma dizer, ou há moral ou comem todas/todas...

domingo, 10 de janeiro de 2016

Ainda se poderá dizer?

Lembro-me de ter ouvido, há muito tempo, a expressão "Não se bate numa mulher nem com uma flor", que tem duas vertentes: a primeira é de que nunca, em nenhuma circunstância, se bate numa mulher e a segunda é que isso não se faz nem mesmo com um objecto tão sugestivo e tão delicado com uma flor.
Hoje, porém, já não se deve poder dizê-la, porque seria decerto encarada como uma afirmação de discriminação sexual e censurada como tal.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Presidenciais: onde está o Wally?


É possível que Marcelo Rebelo de Sousa tenha encarado as eleições presidenciais como um desafio, objectiva e subjectivamente.
Tinha, um dia, de se submeter a uma eleição nacional e fazer por ganhá-la. Com isso desmentiria os que o acusavam de ser só “treinador de bancada” com resultados infelizes quando desceu à arena política (câmara de Lisboa e AD), e culminaria a sua vida pública com o mais elevado cargo do Estado numa altura em que ele, vazio, ficava mesmo a jeito.
Por outro lado, e numa altura em que os resultados das eleições legislativas eram muito incertos, o presidente Marcelo seria, para o eleitorado do PSD e do CDS, a melhor das hipóteses se o PS chegasse legitimamente ao poder.
A sua candidatura era natural. Mas num espectro político que, por referência aos partidos, abrangesse parte o PSD, o CDS e uma parte do PS.
A sua vitória seria segura e talvez ainda mais segura se se afirmasse como uma candidatura individual e “independente”. O sistema constitucional português, nas suas boas intenções, reserva as eleições legislativas aos partidos e as presidenciais aos indivíduos: as candidaturas presidenciais são pessoais e não partidárias. 
Mas, no fundo, esta perspectiva é falaciosa. Nestas eleições presidenciais há dois partidos com candidatos próprios: o PCP e o BE. Por outro lado, o PS, que até oficialmente não tem candidato, consegue o prodígio de ter três candidatos: dois são militantes do PS e um é como se fosse, dependendo da ala do PS que esteja de turno nesse dia (Sampaio da Nóvoa).
Se a “direita” tem um candidato (Marcelo Rebelo de Sousa), a “esquerda” tem cinco (por ordem alfabética: Edgar Silva, Henrique Neto, Maria de Belém Roseira, Marisa Matias, Sampaio da Nóvoa). Depois há quatro candidatos, que oscilam entre o caudilhismo demagógica e a vaidade.
Destas dez figuras, as que realmente importam (e se a democracia permite esta espécie de feira das vaidades, ela também permite dizer que alguns candidatos são relevante e que outros, apesar do penteado ou do discurso, realmente não o são) são as do leque “esquerda”/”direita”, mesmo que a maioria dos cinco da “esquerda” tenham um discurso que revela a sua profunda ignorância dos poderes e do papel do Presidente da República em Portugal.
A fartura de candidaturas pode dar uma imagem pujante da “esquerda”. Mas essa imagem, a existir, só pode ser patética, e não apenas pela sua divisão e pela sua ignorância.
 
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A “esquerda”, com os seus cinco candidatos, poderá vencer as eleições presidenciais? Não, e não será por completo arriscado dizer que nunca o conseguirá fazer, nestas eleições, à primeira volta.
As candidaturas do PCP e do BE visam apenas a fixação dos respectivos eleitorados, com as suas versões algo troglodita das respectivas prestações nas eleições legislativas, com discursos mais caceteiros do que os seus chefes partidários.
O que dizem não é a pensar no exercício do cargo presidencial mas a pensar no que os militantes e eleitores do PCP e do BE querem ouvir. Poderá ser interessante especular sobre o que seriam os mandatos presidenciais de Edgar Silva e de Marisa Matias mas o assunto é mais sério do que isso, já basta o governo que existe actualmente e nenhum deles (nem as suas hierarquias partidárias) pensa na realidade que lá chegará.
E no PS? António Costa conquistou o Governo com uma frieza golpista que se julgava impensável no país dos “brandos costumes”. É possível que nesta fase, enquanto subsistem as ilusões, a escolha da candidatura presidencial fosse feita de maneira mais controlada e com todas as opções bem dentro do redil partidário.
Mas o mal já estava feito. Num retrato também simbólico daquilo que é e sempre foi o PS, os seus três candidatos dão voz a três sensibilidades diferentes: Sampaio da Nóvoa é o candidato da esquerda do PS, da sua “terceira via” actualizada; Maria de Belém Roseira é a candidata dos apoiantes do “bloco central” dentro do PS, de um sector mais conservador; Henrique Neto é o sucessor de muitos outros candidatos derrotados, que se ergueram de margens do PS para onde rapidamente voltaram, uma candidatura marginal que também vive do relativo êxito mediático do candidato e que, ganhando algum ímpeto, pode ir buscar mais votos aos sectores conservadores do PS e a algum eleitorado conservador (que não consegue satisfazer-se com Marcelo Rebelo de Sousa).
Em qualquer dos casos, as eleições presidenciais, pelo menos à primeira volta, serão uma derrota para o PS. Nem vale a pena escondê-lo: a soma dos votos obtidos pelos três candidatos deve ser lida, com alguma maleabilidade, em função dos resultados obtidos pelo PS nas eleições legislativas de Outubro do ano passado, mas também fragmentadamente: qual é a tendência das três que obtém mais votos? E aproveitá-los-á para uso interno?
 
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E Marcelo Rebelo de Sousa conseguirá ganhar as eleições? À partida, sim. Pode dizer-se que tem tudo a seu favor, sobretudo por comparação com os restantes candidatos.
Não é um desconhecido e a exposição mediática está assegurada, pelo menos desde que passou da rádio para a televisão. Conseguiu, diante das câmaras, substituir a postura do professor catedrático e autor de pareceres jurídicos por uma atitude mais simpática e mais afectuosa, moderando-se nos comentários e procurando mostrar que sabe de tudo um pouco, como um divulgador e não um comentador. E até pode ganhar um apoio mais emocional de quem o vê transformado no “bombo da festa” dos restantes nove. Por outro lado, não renegou objectivamente a “família” política e partidária e a popularidade que ganhou também lhe abriu portas na “esquerda”, apesar de se situar no campo da “direita” e não apenas no domínio político.
Mas é aqui que pode estar a sua maior fragilidade.
Da incursão na festa do “Avante!” em vésperas de se apresentar como candidato presidencial ao modo como se foi criando alguma distância relativamente ao PSD e uma aproximação cautelosa ao PS de Costa, Marcelo pode ter perdido apoios e votos entre os eleitores do PSD e do CDS. E, não sendo esse o seu eleitorado exclusivo, é com ele que Marcelo pode contar, nas eleições ou depois, se chegar à Presidência da República.
Esta situação pode levar à abstenção nas eleições de 24 de Janeiro ou à deslocação de votos… talvez para o único candidato que apresenta um perfil mais sério e mais conservador, que é o caso de Henrique Neto.
E se Marcelo não ganhar à primeira volta, ganhará à segunda? Poderá pensar-se que sim, claro, mas tudo dependerá do outro candidato que passar à segunda volta e dos votos que consiga ter por parte do eleitorado dos restantes perdedores.
Portanto, Marcelo precisa mesmo de ganhar à primeira volta. E de ser mesmo o Wally de que ainda anda à procura o eleitorado conservador e/ou mais avesso a aventuras políticas (como a deste governo “das esquerdas”). Ainda haverá tempo para isso?
 
(Publicado, em três partes, no Tomate.)

Que farão eles com o património termal? Nem sabem...

 
Começa a ser completamente transparente aquilo que parecia apenas uma evidência susceptível de confirmação: ninguém em Caldas da Rainha (Câmara Municipal, o que passa por ser a oposição, juntas de freguesia, a ridícula "nomenklatura" citadina) sabe o que há de fazer com o Hospital Termal e com os míticos e arruinados "pavilhões do parque".
Perdem-se em debates, em declarações de pias intenções,em pronunciamentos, em pedidos ao Pai Natal e não sabem por que ponta hão de pegar numa coisa para a qual não há no concelho (nem fora dele, no estado em que as coisas se apresentam) arcaboiço financeiro nem tão pouco intelectual.
Seria patético, se não fosse tão previsível.
 
 
 
Quem é que se arrisca a meter dinheiro nisto,
no estado em que estas veneráveis ruínas se encontram?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Reviver o passado na 5 de Outubro

 
O "Diário de Notícias", sempre o jornal do regime, e até o conspícuo "Observador" desfizeram-se em excitações com títulos como "Governo desfaz em 40 dias política de educação de Crato" e "o novo governo socialista reduziu a pó várias das medidas do anterior governo: na saúde, na educação, mas também na justiça".
Convém recordar que, há apenas dez anos, e no sector da educação, o PS defendia a estabilidade das políticas educativas e se opunha à prática corrente de transformar os alunos e as escolas em cobaias de ministros e secretários de Estado.
Mas agora, deitado fora o bom senso (nem se avaliam as políticas?!) e no "tempo novo" dos delírios políticos, é como se Sottomayor Cardia regressasse à 5 de Outubro, desta vez com o apoio dos sindicalistas do PCP, a quem só interessa o segmento dos professores contratados que ainda neles confia.
 


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Notas em formato de "zapping": transições


The Affair - Devia ser a história de um caso amoroso mas lá conseguiu estender-se para ser uma história de (vários) namoros, tentando os produtores manter a chama do interesse televisivo acesa com um homicídio. Dominic West ("The Wire"), Maura Tierney ("ER") e Ruth Wilson não conseguem, só por si, sustentar uma série que (pelo menos a meio da segunda temporada) parece preferir o ambiente dramático de uma telenovela luso-mexicana e talvez se devesse intitular "Namoro". Mas já há terceira temporada encomendada, o que demonstra que o voyeurismo se vende bem (vista no canal TV Séries).
 
Arrow - A quarta temporada começou com algumas debilidades mas ao episódio 6 (na semana passada) já se notaram melhorias. É um jogo interessante ver como esta série se cruza com outras séries ("The Flash", a malograda "Constantine" e também a anunciada "Legends of Tomorrow") que nos trazem uma parte do universo de banda desenhada da DC, que bate a concorrente Marvel na televisão. Não se percebe é por que carga de água é que o AXN transforma o nome clássico de Arqueiro Verde (nome que ficou de certa forma fixado em língua portuguesa) em "Flecha Verde". Pode ser mais rigoroso relativamente ao original ("Green Arrow") mas com esta opção perdem-se algumas referências (vista no AXN).
 
Downton Abbey - Acabou, portanto, num episódio onde tudo se atamancou e se resolveu apressadamente, chegando ao fim com seis temporadas e desejos mal contidos de um filme de longa-metragem, que serviria não se sabe bem para quê. Foi uma boa ideia e de êxito seguro e duvida-se de que cansasse os seus espectadores mais entusiastas mas o mundo das séries de televisão tem regras de mercado que nem sempre parecem lógicas. E certas soluções encontradas para a história da família Crawley também não tiveram grande lógica, já agora. (vista no canal Fox Life). 

Engrenages - É uma das melhores séries policiais francesas contemporâneas e a sua quinta temporada passou quase clandestinamente na RTP2 no verão passado com o título "Um Crime, Um Castigo". Já aqui me referi a ela, pelas qualidades intrínsecas e pelo facto de poder ser um modelo para uma série portuguesa. Os elogios continuam a justificar-se (vista numa edição em DVD da BBC de 2014, legitimamente adquirida).
 
Fargo - Com a segunda temporada, "Fargo" revelou-se uma das melhores séries do momento, talvez melhor do que a primeira temporada e seguindo a lógica e o estilo do filme que lançou os irmãos Joel e Ethan Coen, "Sangue por Sangue". No modelo da história completa por temporada, bateu a segunda temporada de "True Detective", combinando um traço irónico com uma grande dose de violência explícita em jeito de retrato de época (vista no canal TV Séries).
 
The Flash - Apareceu depois de "Arrow", oriunda dos mesmos produtores, e conseguiu ser melhor do que essa série. A primeira temporada passou também clandestinamente na RTP mas da segunda nada se sabe, o que é pena.
 
The Knick - Um hospital no início do século XX em Nova Iorque, um actor bem conhecido (Clive Owen) e um realizador consagrado e inventivo (Steven Soderbergh): eis "The Knick", uma série que por enquanto se fica apenas pela segunda temporada. Foi um bom trabalho televisivo, que merecia outra atenção (vista no canal TV Séries).
 
 
 
Clive Owen em "The Knick": "ER" e "House" no princípio do século XX

Ano novo, vida velha: um aumento que paga a má gestão e a incompetência

 
O preço da água aumenta este ano no concelho de Caldas da Rainha. Para a Câmara Municipal, é um aumento "só" de 4,8 por cento em média e, garante o presidente camarário que infelizmente nos calhou, um aumento de "aproximadamente" um euro (1€) para 90 por cento dos clientes.
Pode haver um milhão de justificações teoricamente bondosas para este aumento mas, em termos políticos, nada o justifica. A começar pelas perdas registadas (só as registadas) de água da rede pública que é responsabilidade dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento: 37 por cento.
Ou seja, da água comprada pela Câmara Municipal de Caldas da Rainha à Águas do Oeste, há 37 por cento que se perde e, como tal, não é paga. Isto significa má gestão e incompetência. Mas, para a Câmara Municipal de Caldas da Rainha, significa um aumento do preço.
Vamos a um único exemplo prático, a que já aqui me referi, e que é prática velha: durante cerca de três semanas houve uma ruptura séria na rede pública numa rua do interior. Os Serviços Municipalizados foram avisados, a reparação demorou a fazer-se... e foi feita à noite (e já me garantiram que seria uma prática corrente porque esse trabalho é pago como "horas extraordinárias").
Duas semanas depois, o pavimento está por reconstruir e já pouco resta da rua.
 
 
Para que servem as oposições?
 
A decisão de aumentar o preço da água esconde uma falácia: o P.V.P. da água até pode aumentar pouco mas o valor final da factura não inclui apenas esse aumento; inclui também o aumento das parcelas das várias taxas que, no fim, correspondem em geral a 50 por cento do valor da factura. Ou seja, há um aumento duplo: do preço da água e, por percentagem, das taxas cuja verdadeira utilidade nunca se percebeu.
Este aumento é o melhor símbolo do estado a que as coisas chegaram, politicamente, neste concelho, e a menos de dois anos de novas eleições autárquicas.
Neste caso, o PS, o CDS e o PCP votaram em conjunto contra o aumento do preço da água (o que me parece ser inédito) da câmara PSD e o MVC deu um novo passo no seu processo autofágico e votou a favor (a prenunciar, ao que se diz, a sua absorção pela candidatura do PSD em Setembro de 2017).
Além deste aumento, que na prática serve para cobrir o prejuízo das perdas de água de uma rede pública em decomposição, o ano de 2016 traz consigo a continuação da incompetência de que este câmara tem dado mostras: obras mal feitas na capital do concelho com o interior votado ao abandono, projectos falhados (como é o caso do ridículo estacionamento subterrâneo que era a "jóia da coroa" da Câmara), ausência de iniciativas para a reabilitação do concelho e a canalização de todos os recursos para o "buraco" camarário que vai ser o futuro do hospital termal entregue a esta gente.
Tem sido assim graças também ao défice de atenção de que vão fazendo prova as oposições no teatro que representam no pequeno palco da elite política da capital do concelho. Até quando?
 

A rede pública de abastecimento de água tem perdas de água de 37 por cento.
O aumento do preço da água tapa o prejuízo mas não a incompetência,
tal como a terra e areia tapam os buracos nas ruas destruídas pelas rupturas sucessivas.

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Perdeu-se", "fugiu", "desapareceu": o triângulo das Bermudas da incúria





 
Moro numa casa com terreno à volta que está, todo ele, rodeado por uma cerca por opção própria.
O meu cão (e não é o da fotografia) anda à vontade lá por fora mas não sai da propriedade. Quando se abre o portão, fica contido no exterior ou dentro de casa (para não passar para o lado de fora nem haver nenhum acidente). Teve treino canino durante algum tempo (e nunca será demais elogiar o trabalho de quem se dedica a treinar cães e, no nosso caso, os especialistas da Casa do Niko, em Caldas da Rainha) e é razoavelmente obediente. É de uma raça utilizada na caça (e não, não sou caçador) e o olfacto parece funcionar sozinho, em regime de radar, o que faz com que o cão vá atrás de qualquer cheiro mais intrigante. E nunca, mas nunca, deixa de andar à trela fora de casa.
É por tudo isto que me faz uma grande confusão que haja cães que se "perdem", "fogem" ou "desaparecem", grandes ou pequenos, com raça ou sem raça, moradores talvez mais fora de casa do que dentro, com donos idiotas que acreditam que os "seus" cães andarão sempre atrás deles se os soltarem ou que são postos à porta de casa para as suas voltinhas higiénicas porque dá menos trabalho do que andar com eles pela trela ou que, se forem, hão de voltar.
Só que a questão básica é esta: à solta fora de casa e sem trela, os cães afastam-se.
Vão atrás de um cheiro, de outro cão, de qualquer pormenor que os atraia, podem ser atropelados por um carro, perder simplesmente as referências quanto ao local de onde partiram, ser levados por alguém e, talvez, com a melhor das intenções. E depois são cães abandonados (é outra forma de abandono, afinal), perdidos, desorientados, condenados a fins tristes e miseráveis.
O triângulo "perdeu-se" - "desapareceu" - "fugiu" é o retrato da incúria de quem não sabe, porque não quer, tratar de seres vivos que decidiu, sabe-se lá porquê, acolher (e seres vivos que têm uma sensibilidade que os faz às vezes gostar de quem nem sequer os trata bem). E se não for esse o caso, usem ao menos de alguma honestidade: em que circunstâncias é que isso aconteceu? Conseguem confessá-las?

Cá estou


Alguns frequentadores deste espaço manifestaram a sua curiosidade pela minha ausência de uma semana e pela escassez de apontamentos, sobretudo no último mês.
Houve quem, simpaticamente, perguntasse ao que se devia a minha ausência e houve quem, localmente, se regozijasse, na esperança de não continuar a ficar com as orelhas a arder. Aos primeiros digo que cá estou e aos segundos que ainda foi desta que se livraram de mim.
A explicação é simples: não fiz férias nem  me ausentei; estive ocupado, como até este momento nunca estivera desde que, de 2007 para cá, já traduzi mais de meia centena de livros, com a tradução do monumental "The Invention of Science".
E, terminado este trabalho, e no prazo previsto, cá estou eu de regresso.


"The History of Science",
de David Wootton