segunda-feira, 30 de março de 2020

Ler jornais já não é saber mais (79): a crítica de cinema no seu labirinto




Há qualquer motivo (que deve oscilar entre o preconceito, o que me parece ser a inexistência de borlas e a ignorância) para os críticos de cinema não ignorarem ostensivamente a ficção televisiva dos nossos dias. 
A "doença" não é exclusivamente nacional, ressalve-se, porque também encontro esta atitude, embora não tão ostensiva, nas revistas de cinema "Total Film" e "Empire" que há vários anos compro.
O caso do vetusto "Expresso" (que também ainda vou comprando) é um bom exemplo. Até agora, a moderna ficção televisiva que entrava na sua pernóstica revista era em formato de "press releases" e, percebia-se, sem critério interno.
Esta semana, o panorama mudou e já apareceram críticas. Mas de maneira bizarra. Atente-se no exemplo que aqui publico: a longa-metragem "El hoyo" (que nuns países se estreou em cinema e noutros na Netflix) tem um classificação de duas estrelas; duas séries televisivas ("The English Game" e "The Valhalla Murders", ambas também da Netflix) não têm classificação.
O que tolherá a pena dos críticos?


*

A propósito: "The Valhalla Murders" é interessante, mas não tanto. 
Quem viu "Forbrydelsen/The Killing" ou "Bron/Broen" ou quem conhece a "literatura policial" dificilmente se entusiasmará com esta série islandesa. A execução é competente mas o tema é banal. Três estrelas, quanto a mim. 
E quanto a histórias de crianças abusadas e vinganças tardias, até eu já lá fui em "A Cidade do Medo","Vermelho da Cor do Sangue" e "Triângulo".

domingo, 29 de março de 2020

Notas de prova

Quinta da Fata — Tinto 2016 — DOC Dão
Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen
Quinta da Fata - Vilar Seco, Nelas
13,5% vol.
Muito bom!

Notas de prova

Terras de Sto. António — Tinto Touriga Nacional 2013 — DOC Dão
Touriga Nacional
Quinta de Santo António - Fornos de Maceira Dão, Mangualde
14% vol.
Bom.

Notas de prova

Quinta do Encontro — Tinto 2015 — DOC Bairrada
Baga (90%) e Merlot (10%).
Quinta do Encontro/Global Wines - São Lourenço do Bairro, Anadia
13,5% vol.
Bom!

sexta-feira, 27 de março de 2020

Notas de prova


Bota Velha — Tinto Vinhas Antigas 2017 — DOC Douro
Sem indicação de castas.
João Silva e Sousa - Porto
14% vol.
("Unoaked")
Muito bom.

Notas de prova


Quinta da Fata — Tinto Touriga Nacional Grande Reserva 2014 — DOC Dão
Touriga Nacional 
Quinta da Fata - Vilar Seco, Nelas
13 % vol.
(Garrafa n.º 1614, de 2000. Prémio "O Grande Vinho do Dão", 2014)
Magnífico.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Como "The Walking Dead" mas sem zombies




Aqui, no campo, já não se vêem forasteiros a passear, de carro ou a pé. Os vizinhos das três casas mais próximas saem, mas pouco. O ruído dos veículos a passarem depressa numa estrada com lombas, a dois ou três quilómetros de distância, já não se ouve. Uma estrada principal com algum trânsito depois das 9 horas está deserta.
Na cidade, a cerca de dez quilómetros, há menos gente em movimento do que num domingo à hora do almoço. Há ruas de Caldas da Rainha que parecem de uma cidade fantasma. Os supermercados, com as novas regras e menos gente, são um oásis de tranquilidade. E com papel higiénico nas prateleiras.
A ausência de estranhos deixa os bichos à vontade. Os faisões e as perdizes estão mais perto das casas. Na cerca do jardim já vi um esquilo e por duas vezes. Já apareceu um coelho a cobiçar as muitas sementes que os pássaros fazem voar da casa que foi das rolas e que agora é comedouro de numerosas espécies aladas. E um periquito azul já foi avistado por aqui, na semana passada.
É como "The Walking Dead", mas sem zombies. Pelo menos, por enquanto.




segunda-feira, 23 de março de 2020

domingo, 22 de março de 2020

De como o chauvinismo e a xenofobia da "Gazeta das Caldas" matam o nome das pessoas


Joaquim António Silva é músico, professor na Escola Técnica Empresarial do Oeste e maestro responsável pelo Coral das Caldas da Rainha e toca com o músico Pedro Caldeira Cabral; Catarina Impi (ou Catarina Couto, nome de baptismo) é designer e trabalha numa agência de comunicação; Estela Costa é ilustradora e artista plástica. 
Estas três pessoas são oriundas do concelho de Caldas da Rainha têm os seus percursos criativos e o que fazem tem alguma notoriedade pública. E ainda bem.
Conhecemo-las através do semanário "Gazeta das Caldas". 
Mas sem nome, sem individualidade. O jornal, que já foi bastante mais interessante do que é, insiste no "caldense". 
Com isto, as pessoas não têm nome. São "caldenses" ou não existem. 
Presume-se que, um dia, o mesmo jornal enaltecerá qualquer criatura que se destaque seja no que for desde que seja "caldense", seja ele um larápio vulgar de Lineu ou um Problema Nobel.






A "Gazeta das Caldas" gosta de agitar as bandeira do escândalo perante tudo o que considera "xenófobo". 
Ao escolher esta opção, o jornal está a ser xenófobo (os "estrangeiros" ao concelho metem medo, são um perigo ou não prestam) e chauvinista (num nacionalismo de escala diminuta que também explica por que motivo este concelho se desenvolve… para dentro).
Nas relações sociais (e será mesmo necessário sublinhá-lo?!), a origem dos outros será, em geral, irrelevante. Tal como a cor da pele ou as preferências sexuais, ou gastronómicas, ou outras, que possa ter. As pessoas valem pelo que fazem, pelo que dizem, pensam ou escrevem, por aquilo que nos transmitem seja em que circunstância for.
Ao privilegiar, tomando por um valor absoluto, a origem geográfica das pessoas, a "Gazeta das Caldas" está, por omissão, a dizer que tudo o resto não presta.
É uma perspectiva estranhamente distorcida da realidade para a qual não quero contribuir. Com nada e, muito menos, com dinheiro. Isto significa que não quero comprar a "Gazeta das Caldas", nem directamente nem por meio de assinatura como agora faço. 
Não sendo "caldense", que me interessa este jornal que só privilegia os "caldenses"?!



*

O pior exemplo, até agora, desta atitude foi o que já aconteceu nesta primeira página (edição de 21.02.2020).




Repare-se no título: "Caldense vai às escolas falar sobre violência doméstica". Depois há três figuras na única fotografia da 1.ª página… e nem se sabe quem é a/o tal "caldense". Nenhuma das três pessoas tem nome. Não vale a pena, claro. Uma dessas pessoas é "caldense" e as outras… que "aliens" tão imprestáveis serão? (E, para não incorrermos no mesmo disparate, não lhe esqueçamos o nome: Sílvia Abreu, que tem animado diversas actividades contra a violência doméstica.)



sábado, 21 de março de 2020

A falácia do estado de emergência ou como Costa entalou Marcelo



Marcelo Rebelo de Sousa escondeu-se em casa, perdeu protagonismo, percebeu que estava a ficar para trás e quis fazer figura de "duro" com o estado de emergência. 
António Costa deu-lhe o estado de emergência uma semana depois e recuperou o protagonismo, arrumando o Presidente da República num canto do salão. 
Como é que isto se vai repercutir nas eleições presidenciais?


3 de Março - Uma turma de uma escola de Felgueiras onde foi detectado um aluno doente com o coronavírus esteve no Palácio de Belém e foi recebida pelo Presidente da República (PR).
6 de Março - O PR e o primeiro-ministro (PM) estão numa cerimónia no Teatro de São João, no Porto, no meio de uma multidão.
8 de Março - O PR, assustado com uma hipotética exposição à doença, isola-se na sua casa de Cascais. Faz um teste e, uma semana depois, um segundo teste. Ambos são negativos: o PR, e comandante supremo das Forças Armadas, primeira figura do Estado, não tem o coronavírus. Mas durante uma semana, fica metido em casa, de cuja varanda assoma. A dedicar-se às coisas domésticas, em especial. É uma semana em que só o Governo ocupa o espaço mediático. O "dos afectos" está escondido.
15 de Março - Depois de tentar convencer o PM a decretar o estado de emergência, o PR faz uma comunicação artesanal e atabalhoada "ao País" pelo Skype. Quer regressar ao palco mediático. Faz saber que vai convocar o Conselho de Estado. Pode ser que sejam mais fáceis de convencer do que o PM. O PM diz que "não se oporá". O tema vai sendo debatido em público durante três dias. Entretanto, "o País" já anda resguardado e metido em casa.
18 de Março - O Conselho de Estado dá ao PR o que ele quer. O PR anuncia "ao País" que o estado de emergência começa nesse dia à meia-noite. Recuperou o protagonismo!
19 de Março - A Assembleia da República, pouco entusiasmada, dá ao PR o que ele lhe pediu: o estado de emergência. O Governo começa a debater a coisa. O PM regressa às televisões com o Governo. Mas agora o protagonismo é do PM.
20 de Março - O Governo produz um decreto-lei de 28 páginas. O protagonismo continua a ser do PM e do Governo.
21 de Março - O estado de emergência, regulamentado em 28 páginas, entra em vigor à meia-noite, já no dia 22 de Março. Ou seja: o PM deu ao PR o que ele queria, com uma semana de atraso. E não como ele queria: o que lhe deu foi um estado de emergência mitigado, que enquadra legalmente, regulamentando, o que toda a gente já começara a fazer. 


Esperamos que seja o princípio do fim.

Sem palco mediático, sem multidões, sem afectos e "selfies", o PR regressa às sombras do Palácio de Belém. O PM fez o que não queria fazer, da maneira que quis e não como o assustadiço PR o quis.
O PR foi duro com o Governo por ocasião dos piores incêndios de que há memória. Agora, a menos de um ano das eleições presidenciais, tentou fazer igual e não conseguiu. Ainda por cima, nem pôde aproveitar as vítimas.
Pode ser um dilema político, apenas político, mas Costa fica agora à vontade para promover, apoiar, não rejeitar ou aceitar uma candidatura do PS, oficial ou oficiosa, contra este PR. Não impedirá a reeleição (ele até lhe dá jeito, apesar de tudo, mais do que outros) mas vai tornar a vida mais difícil a Marcelo. É suficientemente vingativo para isso. E, neste caso, até se justifica.
A política, às vezes, é mesmo assim: mais animada, mais clara e mais estimulante do que parece.

*

Justifica-se, a propósito, uma recomendação de leitura: de um post publicado no Facebook por Alfredo Barroso, ex-PS, familiar de Mário Soares, conhecedor há muitos anos dos meandros da política e do jornalismo. (Quem estiver no Facebook pode ler, no original, aqui.)


Chega a ser patético, direi mesmo lamentável, o esforço que o semanário Expresso continua a fazer - em conjugação com uma misteriosa «fonte de Belém» (risos) - para apagar da história (ou recuperar para ela?) os 14 dias de 'quarentena auto-imposta' em que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve pura e simplesmente 'desaparecido em combate'. E desta vez, na edição do Expresso de 21 de Março, é o próprio director do semanário, João Vieira Pereira, que vem reforçar mais uma 'historieta da Carochinha' que todas as semanas nos quer impingir a 'porta-voz' de Marcelo PR na Redacção do jornal, Ângela Silva, recém-promovida a essa 'célineana' «voyage au bout de la nuit» que é o programa da SIC Notícias 'Expresso da Meia-Noite'...
O texto intitulado «Marcelo chama Centeno a Belém para o convencer a ficar» (na página 8), mistura o delirante, patético e risível com a contradição e a leviandade. Por exemplo, afirma que, «no recato da quarentena, Marcelo começou a preparar o contra-ataque». Mas contra-ataque em relação a quem? A todos os que lhe dirigiram «uma chuva de críticas por ter saído de cena apesar de assintomático» (e eu fui um deles)? Contra o cartaz do Chega, de André Ventura, a dizer que «Um Presidente não foge»? Contra o 'protagonismo' do primeiro-ministro, que não impôs a si próprio nenhuma quarentena - apesar de ter estado em contacto pessoal com um Marcelo PR cheio de 'cagufa' - e que se limitou a cumprir o seu dever de chefe do Governo, assumindo, com firmeza e serenidade, a coordenação da luta contra a pandemia do Covid-19?
Depois, mais adiante, no texto assinado pelo director do semanário e pela sua subordinada, afirma-se que «o clima de ansiedade e medo não é compatível com jogos políticos». Mas sempre se vai salientando que, «no essencial, o PR já tinha, no entanto, começado a ganhar a guerra» (sic), dado que «o PR admitia vir ele próprio a 'tomar a iniciativa'» (sic). E a «iniciativa» de quê?!
Ora, chegados a este ponto de tão mau jornalismo, é legítimo perguntar: de que «jogos políticos» e de que «guerra» é que estão a falar? Afinal, Marcelo PR está envolvido em «jogos políticos» e apostado em promover uma «guerra» contra o «protagonismo» do primeiro-ministro António Costa e do seu Governo, com o servil contributo do semanário Expresso (de cujo 'proprietário', Francisco Pinto Balsemão, o Marcelo comentador chegou outrora a dizer que estava «lé lé da cuca», entre muitas outras 'patifarias')?!
A falta de vergonha - do semanário Expresso e da misteriosa «fonte de Belém» (risos) - vai ao ponto de afirmar que o «PR impôs o fecho das escolas», foi ele que «forçou a decisão». E logo ele, que só ao cabo de 14 dias 'desaparecido em combate' considerou que era urgente «decretar o estado de emergência». Então e durante a quarentena que Marcelo PR, cheio de 'cagufa', impôs à sua excelsa pessoa, não havia urgência nenhuma? Ou terá sido, antes, a necessidade urgente de 'ressuscitar' politicamente dos 14 dias em que esteve 'desaparecido em combate', que motivou Marcelo PR - com a solícitude colaborante do semanário Expresso, lamentavelmente transformado em órgão oficioso do Palácio de Belém?!
E tudo se percebe ainda melhor quando, às tantas, o director e a porta-voz do PR lembram «o ano de presidenciais que aí vem», salientam que «o Presidente puxa pela sua autoridade na gestão da crise» (topam?) e estão em crer que «o PR quer federar para a reeleição»... Sem esquecer que, noutra página, Paula Santos coloca Marcelo PR nos «Altos» - dir-se-ia até: nos píncaros - por ele ter dado «um sinal de determinação a merecer nota positiva». E ainda que o ex-director do Expresso Henrique Monteiro, na página com o seu nome, descreve - nada tartamudo mas algo tartufo - «o dia em que Marcelo se lembrou de como se joga xadrez, e ganhou», pois claro! Que pândegos me saíram estes jornalistas...
É triste ver o estado a que chegou, em Portugal, certo tipo de jornalismo que pende para hagiografia, sem o distanciamento e o sentido crítico que seriam desejáveis e recomendáveis. É um jornalismo feito por gente que odeia a esquerda - ou que já a ela pertenceu e agora a repudia - e que acha que a melhor arma para a combater, e para a derrubar, é a 'lata' e o desplante de Marcelo PR...

Campo d'Ourique, 22 de Março de 2020