domingo, 6 de janeiro de 2019

Vida de cão



Agora, quando cai a noite e o frio aumenta, a E. mete-se em casa. 
É, desde que veio para nossa casa, um cão de casa. E é onde tem as suas duas camas (uma para durante o dia, na sala, e outra para a noite).
Filha legítima de uma raça aperfeiçoada de cães de guarda, de defesa e de pastoreio com grande autonomia e resistência suficiente para viverem nas estepes, a dos cães-castores da Anatólia, a E. é, como se costuma dizer, um "cão de trabalho". 
À noite, porém, este molosso de quase quarenta quilos de osso e músculo põe de lado as suas veleidades de cão de guarda, da propriedade e da família (e da sua mana adoptiva J.), e como que hiberna. Comeu a sua segunda refeição do dia, andou a passear, ladrou o que queria e agora fecha-se ao mundo. Até amanhã. 
Já a J., que gosta mais de estar dentro de casa, fica acordada até mais tarde, à espera da última migalha, mais "gourmet" e mais atenta do que a E. Mas depois também se fecha ao mundo. 
Não é vida de cão, a delas. A minha é que é, que trato das duas manas e o melhor que é possível, com dois passeios diários e o mais que lhes faz falta. A vida delas, sempre curta, é esta e só podemos ficar satisfeitos quando as vemos assim, descontraídas e descansadas, a sonharem sabe-se lá com que paraísos caninos. Sem muitos gatos, claro, porque os seus sonos são invariavelmente calmos.



sábado, 5 de janeiro de 2019

"Ratas e Mulheres"


E chegará o dia em que o PAN, o BE ou os dois irão propor que os títulos também mudem de sexo, para evitar a "discriminação de género" e esse tipo de coisas.
Como se trata de gente pouco culta, os resultados hão de ser interessantes.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ler jornais já não é saber mais (43): a amante por conta


Titula o "Público" (a propósito da tomada de posse do novo presidente brasileiro): "A ultradireita chegou ao Planalto".
O uso da palavra "ultradireita" em quase manchete e sem explicações, que talvez existam na edição em papel ou mesmo no respectivo site, suscita-me alguma curiosidade. Mas a opção vagamente ideológica do "Público" e a sua alegre militância política dissuadem-me de procurar uma explicação: calculo o que seja ("ultra" é pior do que "extrema", etc.) e escasseia-me o tempo para coisas mais importantes. 
Portanto, ficamos assim, no chavão, no vagido radical, no pronunciamento rebelde que no dia seguinte já se esqueceu e sem um pingo de má consciência pela preferência dada logo na primeira linha à opinião, em vez da informação.
O "Público" da Sonae, herdeiro legítimo (como outros, ocasionalmente) de "o diário" que alguns lá dentro hão de ter vituperado, faz lembrar aquelas senhoras, em geral educadas, mantidas por conta pelos capitães da indústria, cavalheiros bem casados mas com amantes fixas para as respectivas "mudas de óleo". 
É chique, é um poucochinho irreverente, dá prazer pela ousadia, ajeitam-se bem nas contas, sentem-se bem de pernas abertas e depois vai cada um à sua vida, mas tendo elas sempre elas o dono fixo que lhes dá de comer.
Não se costuma dizer que cada um é para o que nasce?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O meu populismo é melhor do que o teu


Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, não deve ter lido “O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista”, escrito pelo mais célebre, e com razão, secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal. Talvez também não saiba da experiência “eurocomunista” dos partidos comunistas francês e espanhol que, tal como os seus secretários-gerais George Marchais e Santiago Carrillo, praticamente se extinguiram. É ainda possível, também, que não tenha lido o que o matutino português “o diário”, igualmente extinto, publicou sobre os males dos governos “PS sozinho”.
Só estas lacunas explicarão o entusiasmo com que foram para a cama (governativa) com o PS socratista de António Costa e o BE em 2015, numa aliança governamental dos derrotados das eleições desse ano.
No que se refere ao BE, é possível que tenham lido mais do que Sousa leu, e mais do que peças de teatro, pelo menos nesta encarnação que nasceu da convergência citadina, elitista e snob dos principais grupos trotzquistas, maoístas e ex-comunistas em Portugal.
A base teórica destes políticos é débil e, não havendo nos “clássicos” do marxismo-leninismo (e podemos incluir aqui o “Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista”) sustentação ideológica para a aliança PS-PCP-BE, deveremos procurar algures as raízes do que os “clássicos” também definem como “desvio oportunista de direita” – ou seja, alianças reformistas que já só são movidas pela sobrevivência.
A recente deliberação do Governo português de subir em 2019 o salário mínimo da função pública para 635 euros, quando o salário mínimo para o sector privado é de 600 euros, foi a medida mais marcante de um rumo político que, desde 2015, se traduziu no atirar de dinheiro para vários sectores bem específicos, com uma subida sem paralelo da carga fiscal. Em 2019 há eleições legislativas em Portugal e o quadro é este: a diferenciação do salário mínimo mostra o que é, e tem sido, essencial: beneficiar sectores que poderão dar votos.
Tendo o PS a chave do cofre, é este partido (que domina o Governo e o aparelho de Estado) que deverá recolher os louros do benefício. O PCP e o BE invocaram sempre, como agora invocam, a necessidade de se mostrarem como “proprietários” dos benefícios, que seria o fruto da versão política do pacto com o Diabo. Ou seja: o que foi conseguido só o foi graças a eles. Portanto, paguem em votos. Sobretudo os trabalhadores da função pública que, de
certa forma, votam no seu patrão.
A isto chamava-se demagogia: dar ao povo aquilo de que ele gosta e esperar pelo seu reconhecimento. Mas agora até se poderia chamar populismo: dar ao povo aquilo de que ele gosta e esperar pelo seu reconhecimento.
E só não pode porque o “populismo” é mau e, como tal, é sempre o dos outros. Ou, melhor, do “outro”, do adversário que nasce da aplicação do princípio de que “quem não é por nós é contra nós”. É isso que está no discurso dos políticos dos partidos tradicionais e da debilitada imprensa nacional: o populismo e, com ele, a extrema-direita e, até, o fascismo…
A lógica tem sido esta, em matéria de nomenclatura: um movimento reivindicativo que nasça fora dos partidos e que consiga ocupar a rua é “populista”; comprar votos não é; a eleição de Donald Trump e de Jair Bolsonaro é “populista”, a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa não é. Mas todos foram eleitos com votos que ultrapassaram os partidos que formalmente os apoiaram, dizendo o que o eleitorado queria ouvir.
Além disso, se há eleições democráticas que são ganhas por partidos da “direita”, o resultado, sempre condenável, é um governo “de extrema-direita”, ou mesmo “fascista” ou “nazi” (ignorando as especificidades históricas e nacionais). Mas um governo que nasce de uma aliança de três partidos derrotados nas eleições e ao arrepio dos resultados eleitorais, já é uma agremiação de democratas em estado puro.
Esta pobreza linguística e ideológica do discurso dominante não favorece o debate sobre aspectos tão fundamentais como o futuro da União Europeia, o Brexit, as migrações, a mudança do paradigma da globalização, os movimentos políticos e sociais reivindicativos ou as eleições presidenciais praticamente unipessoais.
E é também por isso que, às vezes, há surpresas. O que desaconselha prognósticos. Até por um motivo fundamental: qual dos populismos é que vai vencer?
(Publicado no Portugal Digital)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Notas de prova


Terras do Cartaxo - Tinto 2015 - DOC Tejo
Trincadeira, Castelão e Tinta Roriz
Adega Cooperativa do Cartaxo
14% vol.
Bom.

Notas de prova

Dão - Tinto 1980 Garrafeira - Região Demarcada (Dão)
Sem indicação de castas
Federação do Vinicultores do Dão
Sem indicação de graduação.
Bom.


Notas de prova


Serra Oca - Tinto 2015 - IG Lisboa
Aragonez, Touriga Nacional, Castelão
Quinta do Olival da Murta, Cadaval
14% vol.
Muito bom.
(Bebido no restaurante O Melro, Óbidos)

Notas de prova


Flor do Tua - Tinto 2016 - Superior 17 - DOC Douro

Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz

Costa Boal Family Estates, Alijó

17% vol.
Bom!

Feliz Ano Novo, 7h12.





[«Nos seus cadernos de apontamentos, Leonardo há de descarregar todo o seu furor contra os poetas. Um poeta pode inventar palavras? Pode, mas um pintor pode expressar o que as palavras não contêm.», Kia Vahland, Leonardo und die Frauen.]