Carlos Brito.
Comecemos por ele, nestas notas que devem ser de mais fácil leitura do que o título deste modesto post. Carlos Brito (1933 - 2026) era e não era do PCP. Nome destacado entre os dirigentes do PCP que emergiram da clandestinidade depois do 25 de Abril, tornou-se mais conhecido pelo seu trabalho como deputado.
A visibilidade que ganhou tê-lo-á ajudado a afirmar-se como um dos militantes comunistas de primeiro plano que, a partir da queda do Muro de Berlim (em 1989), defenderam uma renovação política e, de certo modo, ideológica do partido. A ala "renovadora" entrou em choque com a direcção partidária onde Álvaro Cunhal continuou a ser influente até morrer, em 2005. Suspenso da sua actividade partidária em 2002, Carlos Brito, que era membro do Comité Central, declarou-se auto-suspenso no ano seguinte. E assim se manteve nos vinte e três anos seguintes.
A ala "renovadora", animada por muitos militantes que se foram afastando do PCP, não era um movimento homogéneo e nem todos se aproximaram do PS da "terceira via" de Guterres. Carlos Brito defendeu uma aproximação ao PS, e a outros sectores de esquerda, mas manteve a sua independência.
Carlos Brito talvez não andasse longe do movimento conhecido como "eurocomunismo" (onde se destacaram o espanhol Santiago Carrillo e o francês George Marchais), que ajudou a afundar diversos partidos comunistas por toda a Europa... incluindo em Portugal. Em 2015, com Jerónimo de Sousa à cabeça, na qualidade de secretário-geral que aplicou a doutrina eurocomunista sem a querer identificar, o PCP juntou-se ao PS e ao BE no malfado governo da "geringonça". Carlos Brito manteve-se auto-suspenso, mas não deixou de apoiar aquilo que os clássicos do marxismo-leninismo classificariam como uma "santa aliança".
Carlos Brito não teria impedido o descalabro da "geringonça", o vampirismo do PS e o afundamento do PCP, mas teria, indubitavelmente, feito melhor figura do que Jerónimo de Sousa.
Na pequena polémica que rodeou a sua morte (com uma declaração do PCP que não terá sido feliz), estes pormenores (aqui resumidos) desaparecem nas brumas nevoentas da memória. Da memória política, da memória jornalística e da memória da população.
Este nevoeiro, por onde emerge uma iliteracia que devia preocupar as pessoas que ainda são capazes de raciocinar, abate-se sobre tudo o que diz respeito à Rússia e ao seu presidente, Vladimir Putin.
A imprensa oficial apresenta o que, em tudo, parece ser uma agenda única sobre a crise ucraniana.
A Rússia e Putin estão sempre mal. Ora são comunistas, ora não o são. Ora são fascistas, ora não o são. Não conseguem obter o controlo dos territórios russófonos da Ucrânia anterior a 2022, mas vão avançando sempre no terreno. Hão de chegar a Odessa (e, sabe-se lá, a Kiev) e a imprensa oficial ainda há de dizer que nada avançaram desde Fevereiro de 2022. Não conquistam cidades, mas elas já ficaram para trás. A economia está em desagregação, mas a Federação Russa continua pujante, económica, política e geoestrategicamente. E, nesse mês, não recuaram diante de Kiev porque Macron pediu a Putin que o fizesse para faciliar as negociações com o regime de Kiev, mas porque perceberam que não conseguiam conquistar a Ucrânia em "três dias", "boutade" de um chefe militar da NATO que parece ser giro atribuir a Putin.
A extraordinária mistura de iliteracia e de desinformação, expressa com nuances pela imprensa oficial e pelas diversas camadas da "vox populi", tem a sua melhor representação nos comentários dos frequentadores do "Observador" aos esctritos de algumas figuras (que são quase todas, lá, convenhamos) abertamente favoráveis ao regime de Kiev. Para ler esses escritos, é preciso assinar o dito órgão, mas os comentários, onde a asneira ferve, são de acesso livre. Quem gosta, há de atingir orgasmos mentais a lê-los.
E sobre a Ucrânia? Zelensky é um santo e está tudo dito. Os diversíssimos escândalos de corrupção? A predominância de sectores nazis nas estruturas civis e militares? Os desvios de dinheiro e de equipamento militar? A mobilização de homens à força bruta? A destruição do país? As operações mediáticas que não correspondem à dura realidade? Nada disto existe. Parece que ninguém consegue perceber que uma nação quase destruída e retalhada, desagregada por uma guerra que nunca vencerá, deve entender-se com o seu inimigo quando está a perecer.
Digamos, para retomar uma frase de campanha do extinto "o diário" (do PCP de Álvaro Cunhal e de Carlos Brito), que a "verdade" da actual comunicação social oficial, não é a verdade a que a população tem direito. Não é com ela que as brumas da iliteracia se dissiparão. É sempre mais fácil culpar "as redes sociais" pela desinformação que os próprios praticam.
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