quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Não vou escrever o que na realidade penso sobre esta eleição presidencial...


... para me manter nos limites da lei e do bom senso e para não ofender pessoalmente ninguém. 

Mas não quero deixar, mantendo a minha decisão legítima de não votar, de dar voz às minhas impressões sobre um processo eleitoral desastrado que não dignifica a democracia e o Estado que a devia defender.

Comecemos pelo papel que vai servir para os cidadãos votarem.

Não é aceitável que um boletim de voto, numa eleição que assenta em candidaturas individuais à Presidência da República, inclua pessoas que não são candidatas à função porque, parece, não cumpriram os mínimos legais. O Estado tem de ter mecanismos capazes de sustentarem com tempo digno a triagem dos candidatos e de permitirem apenas a inclusão no boletim de voto dos candidatos que preenchem todos os requisitos legais.


Um boletim de voto que é uma falsidade


É tecnicamente possível que os nomes dos falsos candidatos obtenham votos que, politicamente e em quantidade, prejudiquem os verdadeiros candidatos. Classificar esses votos como "nulos" não resolverá, politicamente, o problema se houver candidatos empatados pelo número de votos no acesso a uma provável segunda volta.

Por outro lado, não vejo os candidatos que realmente são candidatos como tendo competências para desempenharem a função de Presidente da República. 

Tomando apenas os cinco nomes que, por vários motivos, poderão chegar ao primeiro lugar, só consigo ver (nesta altura e por ordem alfabética) André Ventura como ministro, António José Seguro como presidente de câmara municipal, Henrique Gouveia e Melo como capitão-de-fragata encarregue da logística da Marinha, João Cotrim de Figueiredo como director-geral de uma empresa de marketing e comunicação e Luís Marques Mendes como ministro adjunto do primeiro-ministro (que já foi). 

Não lhes conheço, nem deles me chegaram (e são os candidatos que devem esforçar-se por ir ao encontro dos eleitores), ideias, propostas, medidas políticas ou iniciativas programáticas. 

Nem consigo dizer se, como é agora típico dos dirigentes europeus, se pronunciaram mais sobre política internacional do que sobre assuntos nacionais. Mas não posso deixar de reter a lamentável afirmação de Cotrim de Figueiredo de que (usando outras palavras) os dirigentes europeus não puseram fim à crise ucraniana por não terem tomates para o fazerem. Não vi, a propósito, nenhuma notícia de que o "liberal" tenha ido, ou esteja a pensar ir, combater para a Ucrânia. Em matéria de figuras tristes, ver os candidatos a dançar para as câmaras de televisão é menos confrangedor do que ler a bravata do azougado liberal.

A ausência de ideias, ou o seu silenciamento, ficou especialmente visível nos "debates" televisivos. Os candidatos sujeitaram-se a servir de animais de circo para fruição de comentadores que, sem correrem riscos, se armam eles próprios em candidatos. Os "debates" televisivos foram uma piores coisas do processo político mais pobre e mais desgraçado de todos os que correram em Portugal desde 1975. A "rua" serviu para expor o pior de cada um.

É possível que as eleições presidenciais não fiquem resolvidas neste domingo. O que levará a uma segunda volta, com os dois mais votados, num período que pode ir até às três semanas a partir desta altura. Imagino quem possam ser os dois derradeiros candidatos. Mas também não irei votar em nenhum deles, nem mesmo numa lógica de mal menor.

Apesar de defender a abstenção como direito político, não me excluo do debate político. E, por isso, voltarei depois ao(s) resultado(s) deste infeliz processo.






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