terça-feira, 6 de janeiro de 2026

The End: acabam as salas de cinema, mas as ingenuidades não







Era "A Hora Silenciosa" um dos filmes que se ia estrear mas... silenciosas foi como ficaram as salas de cinema do pequeno multiplex de Caldas da Rainha, situado no centro comercial La Via e gerido pela empresa Cineplace (que também fechou as salas que mantinha na Guarda). Caldas da Rainha e a Guarda ficaram, portanto, sem cinemas.

A última vez em que fui ao cinema nestas salas do La Vie terá sido em 2012 e deve ter sido, também, a última vez que, fora do âmbito do Festival Internacional de Cinema do Porto/Fantasporto, entrei numa sala de cinema. Com lugares apertados, barulho de conversas e de telemóveis e pessoas a entrarem e a sairem durante a exibição do filme, fiquei sem vontade de voltar a uma sala de cinema. 

Além de uma sala destinada a filmes "de arte e ensaio", no Centro Cultural e de Congressos da cidade, o concelho de Caldas da Rainha só tinha cinema nestas salas do centro comercial. Em tempos, os planos existentes de alargamento do supermercado Continente pareciam incluir um multiplex, mas não chegaram a passar à prática. 

O público que há de ter faltado a estas salas da Cineplace, e a muitas outras, só em parte se queixará, como eu, das incomodidades que me pertubaram na sala de cinema. Está-lhes no comportamento. Sendo quase irrelevante o que podem querer ver, tanto lhes faz ver uma coisa qualquer na televisão (mesmo os produtos audiovisuais de melhor qualidade) ou no cinema. Junta-se, talvez, a fome à vontade de comer: talvez fraqueje o poder de compra fraqueja e os exibidores (e distribuidores) não conseguem tornar mais atraente a ida ao cinema.

A Cineplace, que está a aplicar um Plano Especial de Revitalização (o que é revelador de problemas de liquidez e fiscais), é uma marca da empresa brasileira Grupo Orient que tem um acordo com a portuguesa Sonae Sierra para a exploração de salas de cinema nos centros comerciais da Sonae. Em 2025, a Cineplace mantinha 62 salas de cinema em 12 centros comerciais, sendo a segunda maior empresa distribuidora depois da NOS Lusomundo Cinemas, que mantém 218 salas. Aparentemente, o negócio do cinema não lhes sorri. Nem à Cineplace nem, calcula-se, a todas as outras.


Ingenuidades 


À tendència para chorar sobre o leite derramado, culpar a proliferação de séries de televisão de qualidade e (no que toca ao Governo) prometer seja o que for para resolver a crise, haverá que contrapor que o problema é geral, que tem raízes profundas (económicas, sociais e culturais) e que dificilmente terá solução. A incapacidade de perceber este fenómeno leva, no entanto, a atitudes de grande ingenuidade.

O "Expresso" de 2 de Fevereiro publicou duas matérias sobre a rarefação das salas de cinema no interior do País e nela encontram-se aspectos que reflectem a mesma postura ingénua sobre o assunto.

A ministra da Cultura, talvez pela sua tenra idade (mas com traquejo político para saber que criar comissões é sempre a melhor solução para empurrar os problemas com a barriga), anunciou a criação de um grupo de trabalho para "encontrar" "medidas para atenuar as desigualdades regionais no acesso ao cinema". 

Helena Inverno, "cineasta premiada e artista multidisciplinar", afirma: "o pouco cinema e a cultura em geral, que agora passa no Alentejo, é por iniciativa das autarquias. E o que elas exibem são os 'blockbusters' de Hollywood. Estão a formatar as nossas crianças com a cultura americana. Estão a criar uma monocultura dentro da criança. E quando isso acontecer, as nossas crianças não vão conseguir desenvolver percepções e as nuances da sua própria cultura e do território onde estão. Sim, estamos a dar-lhes um imaginário que não é o delas. E esse imaginário, normalmente, é o imaginário da indústria da guerra."

Quando ainda era estudante, na Faculdade de Letras de Lisboa, tive a ideia de levar sessões de cinema alemão contemporâneo (com a colaboração do Instituto Alemão) à faculdade, em complemento de aulas do curso de Filologia Germânica/Estudos Germanísticos (agora Línguas e Literaturas Modernas). As sessões tiveram bom acolhimento por parte de professores e de alunos.

Algum tempo mais tarde, no Ministério da Educação, ajudei a organizar a ida de alunos dos ensinos básico e secundário ao cinema para verem duas longas-metragens que lhes interessavam e, no Porto, a ida de grupos escolares a sessões adequadas do Fantasporto. O interesse foi, também, generalizado.

Acredito que a oferta de filmes cativantes (e pouco importa se são "blockbusters" ou se são "de Hollywood", desde que não sejam "de arte e ensaio") aos jovens ainda pode fazer mais do que as propostas de grupos de trabalho ou a eterna subsidiarização estatal de filmes "de arte e ensaio" para ajudar a criar públicos para o cinema. Por exemplo.



(Imagens de fonte aberta de acesso público.)

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