A última vez em que fui ao cinema nestas salas do La Vie terá sido em 2012 e deve ter sido, também, a última vez que, fora do âmbito do Festival Internacional de Cinema do Porto/Fantasporto, entrei numa sala de cinema. Com lugares apertados, barulho de conversas e de telemóveis e pessoas a entrarem e a sairem durante a exibição do filme, fiquei sem vontade de voltar a uma sala de cinema.
Além de uma sala destinada a filmes "de arte e ensaio", no Centro Cultural e de Congressos da cidade, o concelho de Caldas da Rainha só tinha cinema nestas salas do centro comercial. Em tempos, os planos existentes de alargamento do supermercado Continente pareciam incluir um multiplex, mas não chegaram a passar à prática.
O público que há de ter faltado a estas salas da Cineplace, e a muitas outras, só em parte se queixará, como eu, das incomodidades que me pertubaram na sala de cinema. Está-lhes no comportamento. Sendo quase irrelevante o que podem querer ver, tanto lhes faz ver uma coisa qualquer na televisão (mesmo os produtos audiovisuais de melhor qualidade) ou no cinema. Junta-se, talvez, a fome à vontade de comer: talvez fraqueje o poder de compra fraqueja e os exibidores (e distribuidores) não conseguem tornar mais atraente a ida ao cinema.
A Cineplace, que está a aplicar um Plano Especial de Revitalização (o que é revelador de problemas de liquidez e fiscais), é uma marca da empresa brasileira Grupo Orient que tem um acordo com a portuguesa Sonae Sierra para a exploração de salas de cinema nos centros comerciais da Sonae. Em 2025, a Cineplace mantinha 62 salas de cinema em 12 centros comerciais, sendo a segunda maior empresa distribuidora depois da NOS Lusomundo Cinemas, que mantém 218 salas. Aparentemente, o negócio do cinema não lhes sorri. Nem à Cineplace nem, calcula-se, a todas as outras.
Ingenuidades
À tendència para chorar sobre o leite derramado, culpar a proliferação de séries de televisão de qualidade e (no que toca ao Governo) prometer seja o que for para resolver a crise, haverá que contrapor que o problema é geral, que tem raízes profundas (económicas, sociais e culturais) e que dificilmente terá solução. A incapacidade de perceber este fenómeno leva, no entanto, a atitudes de grande ingenuidade.
O "Expresso" de 2 de Fevereiro publicou duas matérias sobre a rarefação das salas de cinema no interior do País e nela encontram-se aspectos que reflectem a mesma postura ingénua sobre o assunto.
A ministra da Cultura, talvez pela sua tenra idade (mas com traquejo político para saber que criar comissões é sempre a melhor solução para empurrar os problemas com a barriga), anunciou a criação de um grupo de trabalho para "encontrar" "medidas para atenuar as desigualdades regionais no acesso ao cinema".
Helena Inverno, "cineasta premiada e artista multidisciplinar", afirma: "o pouco cinema e a cultura em geral, que agora passa no Alentejo, é por iniciativa das autarquias. E o que elas exibem são os 'blockbusters' de Hollywood. Estão a formatar as nossas crianças com a cultura americana. Estão a criar uma monocultura dentro da criança. E quando isso acontecer, as nossas crianças não vão conseguir desenvolver percepções e as nuances da sua própria cultura e do território onde estão. Sim, estamos a dar-lhes um imaginário que não é o delas. E esse imaginário, normalmente, é o imaginário da indústria da guerra."
Quando ainda era estudante, na Faculdade de Letras de Lisboa, tive a ideia de levar sessões de cinema alemão contemporâneo (com a colaboração do Instituto Alemão) à faculdade, em complemento de aulas do curso de Filologia Germânica/Estudos Germanísticos (agora Línguas e Literaturas Modernas). As sessões tiveram bom acolhimento por parte de professores e de alunos.
Algum tempo mais tarde, no Ministério da Educação, ajudei a organizar a ida de alunos dos ensinos básico e secundário ao cinema para verem duas longas-metragens que lhes interessavam e, no Porto, a ida de grupos escolares a sessões adequadas do Fantasporto. O interesse foi, também, generalizado.
Acredito que a oferta de filmes cativantes (e pouco importa se são "blockbusters" ou se são "de Hollywood", desde que não sejam "de arte e ensaio") aos jovens ainda pode fazer mais do que as propostas de grupos de trabalho ou a eterna subsidiarização estatal de filmes "de arte e ensaio" para ajudar a criar públicos para o cinema. Por exemplo.
(Imagens de fonte aberta de acesso público.)


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