sábado, 12 de setembro de 2026

O primado das percepções na narrativa do País das Maravilhas



Um amigo de longa data (bem, talvez não fosse assim tão amigo) decidiu cortar relações comigo porque, em seu entender, eu sou de extrema-direita.

A., chamemos-lhe assim, encontrou prova da minha “deriva” na minha decisão de votar em André Ventura contra António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais.

A. não quis saber do que eu escrevi, e do que me levou a rejeitar o candidato António José Seguro (por o ter conhecido e por acreditar que ele vai ajudar o PS a regressar ao poder). Nem quis perceber que eu também poderia ter votado no Tino de Rans se fosse este o opositor da segunda volta, sem ter qualquer interesse em ser calceteiro. Aliás, durante mais de um ano nem sequer tivemos oportunidade de debater o assunto. Mas bastou-lhe esse meu voto para me classificar: sou de extrema-direita. Imagino que me deve ver vestido de SS a queimar judeus.

Se me refiro a este caso, tão pessoal, é porque tinha A. na conta de pessoa inteligente e capaz, mesmo contra o seu próprio sectarismo de marés diversas, de raciocinar com clareza. Mas foi uma ilusão minha e A. acabou por ser, para mim, o símbolo de uma das mais preocupantes consequências e uma das piores características da mixórdia que é a fusão do jornalismo televisivo dito “de causas” com uma perspectiva ilusória de um mundo de maravilhas que em nada tem a ver com a realidade e onde vigora, subliminarmente, o lema “Quem não é por mim, é contra mim”.

Nesta mixórdia (onde convergem gente da imprensa, políticos, indivíduos ideologicamente motivados e idiotas profissionais) não interessa a realidade. Nem a História. Nem o conhecimento da política. 

A ignorância e uma militância de secretária, de origem ou quando se instalam, são essenciais para acreditarem na narrativa que inventem ou a que aderem. E em que acreditam piamente, porque corresponde ao que querem ver. E quando não gostam do que imaginam estar a ver, acreditam que devem intervir e alterar aquilo a realidade que os incomoda e que lhes ameaça um mundo que acham que deve ser perfeito, à sua própria imagem.

A raiva contra o Chega, da imprensa nacional e de pessoas capazes e incapazes de raciocinarem, é um outro exemplo. 

Partido de debilidades diversas (e a falta de quadros e de opções claras não é a menor), o Chega foi admitido pelo Tribunal Constitucional no sistema político nacional, foi a votos várias vezes, é a terceira força política representada na Assembleia da República e... se for mais longe (Governo, por exemplo), bem podem os seus dirigentes e, em especial, André Ventura agradecer à imprensa nacional e aos militantes do Facebook o destaque lhe têm dado. 

Contra os que pensam, e praticam, que quem não pensa como eles está contra eles, devo, de passagem, dizer que não sou eleitor do Chega, e por vários motivos. Além das debilidades que citei, a sua opção, em termos de política internacional, é radicalmente oposta àquilo que defendo.

E se eu sei o que defende o Chega, pelo menos em parte, há quem não saiba. Ou que, de forma desonesta, faça que não sabe. Como o actual ministro português dos Negócios Estrangeiros que, às vezes, até parece ter os favores de parte da esquerda por motivos que não têm a ver com a política.





A pergunta que esta criatura faz, numa construção saloia, é retórica. Mas lá está, joga com as percepções.

Paulo Rangel, que já foi um dirigente partidário estimável, sabe que André Ventura e o Chega não gostam da Rússia e que estão bem na União Europeia e no seu parlamento. Mas, mesmo assim, prefere a demagogia. Sem hesitações.

Porque o outro partido a que se refere, o partido nacionalista alemão Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD, que saiu vitorioso de uma eleição parlamentar recente), mostra-se favorável ao retomar de laços com a Rússia (cujo gás natural ajudou ao desenvolvimento industrial da Alemanha até à loucura das sanções contra a Rússia, que só prejudicam a UE) e à saída da Alemanha da UE. E como o Chega se reclama de boas relações com o AfD, a narrativa do País das Maravilhas impõe que se atire tudo contra a "extrema-direita" em geral. 

Nunca é demais recordar este abominável paradoxo: o que gente como esta diz é que a "extrema-direita" que na Europa da União Europeia se submete ao voto popular é um perigo e que, por exemplo, a extrema-direita neonazi da Ucrânia já é uma coisa adorável e fofinha. Os Azov, e os outros, para eles, são como gatinhos que é maravilhoso ter no sofá a fazerem-lhes companhia. Sabe-se lá o que poderia dar uma fusão entre Rangel e Biletsky, por sinal bem apessoado e de porte viril.

Não deixa de ser curioso, por outro lado ver como é a própria situação social e económica (no caso do AfD, a desindustrialização alemã e as suas consequências sociais) a impulsionar as escolhas do eleitorado de que os fanáticos das percepções não gostam. Tendo na sua origem, em grande medida, as fabulosas sanções à Rússia... que só prejudicam a UE.

Se os partidos nacionalistas continuarem a ganhar força na União Europeia, e é natural que assim aconteça, os paladinos desta narrativa ainda hão de querer pôr em prática a ironia de Bertoldt Brecht: o melhor é dissolver o povo e arranjar outro povo...






(Imagem de fonte aberta de acesso público.)

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