sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ler jornais já não é saber mais (257): como a CNN cumpre a agenda de Kiev... e do ISW



Três "notícias" e três títulos, da CNN de cá:

"'Impasse não é favorável à Rússia'. Como a Ucrânia está a 'moer' a nova ofensiva russa" (26 de Março), "Forças russas estagnaram perto do 'Cinturão de Fortalezas' ucraniano e é 'pouco provável' que o consigam conquistar este ano" (30 de Março) e "Rússia diz ter conquistado Luhansk mas as mudanças na linha da frente são 'mínimas'" (2 de Abril).

Os três textos podem ser lidos, respectivamente, aqui, aqui e aqui.














O ataque de Israel e dos EUA ao Irão fez passar para segundo plano o conflito na Ucrânia num período em que se notou mais um avanço da Rússia no terreno que pareceu ser mais lento. A opção estratégica da Rússia (a "morte por mil cortes", evitando ao mesmo tempo uma acumulação de baixas desnecessárias), o Inverno e o degelo dos campos do Donbass, com os seus mares de lenha, permitiram a proliferação de algumas interpretações, que chegaram ao ponto de incluir os relatos, sem sequência, de que a Ucrânia "recuperava" centenas de quilómetros.

O governo de Kiev precisa, desesperadamente, de fazer prova de vida e prefere sacrificar as vidas dos seus soldados em batalhas inglórias a admitir recuos e derrotas. Em especial, para ver se consegue continuar a receber dinheiro da União Europeia e armas dos EUA. 

Nessa perspetiva, a narrativa do "impasse" é-lhe muito útil, porque permite fazer de conta que a Ucrânia não está a sucumbir ao avanço russo nem ao desgaste das suas Forças Armadas e a Rússia não consegue fazer... o que parece não querer ainda fazer (a "ofensiva da Primavera"). Portanto, a Ucrânia até estaria a vencer e a Rússia não poderia fazer outra coisa senão recuar.

Quem quiser ir ler estes textos publicados pela CNN, e há mais, verificará que neles há uma única fonte: o Instituto para o Estudo da Guerra (Institute for the Study of War, ISW, com sede em Washington, criado em 2007). Um dos textros é assinado por um português e os outros têm "CNN" como assinatura.

O problema com o sempre muito citado ISW é a sua parcialidade. É um think-tank como muitos outros, com ligações orgânicas e não só ao sector político norte-americano dos "neoconservadores" (os "neocons"), que têm sido o motor da promoção da Ucrânia como "arma" contra a Rússia. E basta ir ao seu site para perceber o que faz correr o ISW.

Aliás, o ISW nem disfarça. É quase um empreendimento familiar, criado e dirigido por Kimberly Kagan, casada com Frederick Kagan, irmão de Robert Kagan que, por sua vez, é o marido de Victoria Nuland, a diplomata que foi subscretária de Estado para os Assuntos Políticos e o principal rosto de entre os americanos que tudo fizeram em 2014, na Ucrânia, para mudar o governo, afastando o Presidente eleito e abrindo caminho à ascensão da extrema-direita e do seu presidente, Zelensky. E as principais empresas que financiam esta organização, que é "não lucrativa", são empresas que fabricam equipamento militar. Ou seja, armas.

O ISW tem muitos "estudos" e o tipo de intervenções que fazem a delícia de jornalistas que gostam do jornalismo tipo "pronto-a-vestir" e que não gostam de pensar. E com figuras: mapas, neste caso. Mas se os mapas parecem ser bons, o pior é o resto.

E é no ISW que a CNN se baseia para estes três textos. A CNN não recorre a fontes ucranianas porque lhe basta o ISW. E não recorre a fontes russas ñão se sabe porquê. Em termos práticos, a CNN está a colar-se a uma única fonte e a fazer sua a agenda do ISW e de Kiev, sem sequer salvaguardar um mínimo de decoro técnico com, pelo menos, um "segundo o ISW" à cabeça... O jornalismo, no entanto, não é isto.

Veremos como, nos próximos dias, a realidade vai desmentir a CNN...








(Imagens de fonte aberta de acesso público.)

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