segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Quando do ocaso português só restou a alheira


Em 1492 os judeus foram expulsos do reino de Espanha, tendo passado a fronteira para Portugal, onde puderam ficar até 1497. Nessa altura, foram obrigados pelo rei português D. Manuel I a converterem-se ao cristianismo ou a saírem do outro reino da Península Ibérica. Em 1532 o seu sucessor, D. João III, proibiu os judeus que ficaram em Portugal de deixarem o país. Em 1536 a Inquisição instalou-se em Portugal. As perseguições e os assassinatos já tinham começado antes: as autoridades desconfiavam dos convertidos e atacavam os que apenas fingiam que se tinham convertido.
O historiador inglês Simon Schama narra, na sua monumental e magnífica “História dos Judeus” (dois volumes até agora, em edição portuguesa da Temas e Debates/Círculo de Leitores, tradução minha), o caminho de sofrimento, mas também de engenho, dos judeus portugueses. E destaca dois pormenores: um que é comum às muitas perseguições que tiveram os judeus por alvo e outro que é uma das grandes causas do ocaso português logo a partir do século XV.
Os judeus que optaram pelo comércio fora dos seus países beneficiaram de uma situação excepcional: uma rede de contactos no Oriente e em África, com pessoas que falavam a mesma língua, que tinham a mesma cultura e a mesma religião. Não havia barreiras a vencer e os muitos negócios a que se dedicaram tendiam a correr muito bem. O resultado enriqueceu muitas famílias (e convém ter presente que houve redes de ajuda das famílias ricas aos muitos judeus pobres que iam fugindo dos infernos cristãos). O empréstimo de dinheiro estava proibido aos cristãos. Mas não estava proibido aos judeus, e os reis ocidentais não estavam proibidos de pedir empréstimos para financiar os seus exércitos e as suas próprias cortes. O pior era pagar. E a opção foi a versão medieval da bravata “fazer tremer as pernas aos banqueiros alemães” (do século XXI português) e do Holocausto alemão (do século XX europeu): expulsar ou eliminar os judeus a quem deviam dinheiro. E, com eles, todos os outros.
A descrição que Simon Schama faz da fuga dos judeus portugueses é comovente e exaltante. De Portugal saíram, como puderam, pessoas do povo, mas também banqueiros, médicos, cientistas, eruditos. Tendo Antuérpia como primeiro porto de abrigo, e a ajuda das famílias mais ricas, os judeus saídos de Portugal foram para a Alemanha e para o Oriente, até à Turquia.
Não sei se alguém poderá algum dia fazer, ou se ela até já foi feita, contabilizar de uma forma ou de outra o muito que se perdeu em Portugal da chamada “massa crítica” dessa época. O saber, a ciência, a economia e a medicina praticamente desapareceram. Entre o começo da perda do seu Império, a conquista espanhola, os desmandos da Inquisição e a fuga e o assassinato dos judeus, Portugal entrou num ocaso intelectual e social do qual, verdadeiramente, nunca saiu.
Pode dizer-se, de certa forma, que do desastre só se salvou uma coisa: um pormenor gastronómico. A alheira.
Não comendo carne de porco por imperativos religiosos, os judeus que se instalaram em Portugal no final do século XV não preparavam nem comiam os enchidos, habitualmente feitos com carne de porco. Era o suficiente para se denunciarem, quando as malhas da repressão se apertavam. A alheira foi a solução: a mistura de ingredientes dentro da tripa podia incluir todas as carnes… menos a de porco. E, desse modo, já podiam comer as alheiras.
O princípio da alheira manteve-se até hoje e, nessa perspetiva, é um dos enchidos nacionais de maior criatividade. Porco, aves, caça… até bacalhau e legumes, ou vegetais (sim, já há alheiras para vegetarianos), fazem parte do conjunto de componentes desta iguaria.
Bem feita e bem cozinhada, a alheira é excelente. E a sua confecção tão simples contrasta com o toque de imaginação que esteve na sua origem.
É corrente fritá-la (um corte fino longitudinal permite que a fritura lhe faça saltar a pele) e servi-la com ovo estrelado e batatas fritas, mas há melhor maneira de a cozinhar.
Eis uma sugestão, leitor: enfie um palito transversalmente em cada extremidade, junto ao pequeno anel de metal (um processo quase infalível para evitar que a tripa rebente) e mergulhe a alheira em água que, estando a aquecer, ainda não começou a ferver; deixe-a cozer por alguns minutos em lume brando; deixe-a esfriar e depois, cortada em rodelas (convém estar fria para não se desfazer), pode levá-la ao forno. Ligeiramente assada, é óptima com grelos salteados e batatinhas também assadas.
E, ao apreciá-la, lembre-se de que ela é, na sua simplicidade, um símbolo de sobrevivência e de triunfo sobre a adversidade de um povo que, expulso de muitos países, reencontrou, com todas as dificuldades, a pátria que podia ser, e é, sua.



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