quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Barbarians Rising": uma fritada mista


Fraco, muito fraco...

"Roma" foi, há 11 anos, uma excelente ideia e poderia ter sido uma grande série de televisão.
Mas esta história romanceada do Império Romano, com dois plebeus como personagens principais, foi prematura. A violência e o sexo deram cabo dela. A HBO, a produtora, fez-lhe as exéquias finais. 
Se a virmos tendo presente o magnífico "Gladiador", de Ridley Scott, temos um padrão de qualidade. "Vikings" anda lá perto, com um tom shakespeareano e a evocação de "Ivan, o Terrível". "Barbarians Rising" (canal História) poderia, ao menos, ter tentado chegar a estes calcanhares mas não: anda longe, muito longe.
A ideia de retratar, ao longo de uma dúzia de episódios, os chefes das nações "bárbaras" que debilitaram o Império dos Césares e acabaram por fragmenta-lo, é bondosa. Talvez tivesse dado uma grande série vagamente realista (pode recordar-se aqui a "idade de ouro" da BBC e a sua série "Os Césares"). Mas o certo é que não deu.
"Barbarians Rising" (apesar do seu carimbo "científico") resume-se a ilustrações de algumas sequências mais animadas (pois, só podia) desses chefes bárbaros e comentários, ou excertos de comentários, de uma falange de personalidades que servem de alibi mais ou menos científico para a coisa mas que adiantam menos do que os mapa animados que inseriram no primeiro episódio.
E esse, sobre o cartaginês Aníbal, é fraco.
O segundo, sobre o lusitano Viriato (e que série não daria esta figura para a miserável televisão portuguesa!...), é uma colecção de meias-tintas. 
A avaliar por estes dois primeiros episódios, "Barbarians Rising" não passa de uma fritada mista: uma misturada de fragmentos de erudição com fragmentos de cenas de acção de qualidade abaixo da média. Em nada se recomenda. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A indignação contra “Eu e os Políticos”: uma lição de hipocrisia



Há por aí, segundo consta, um livro que conta “segredos sexuais” ou “revelações sexuais” dos políticos. Parece mal, há até quem diga que é crime, todos aqueles que exigem “transparência” aos políticos choram lágrimas de indignação. 
Trata-se de “Eu e os Políticos”, de José António Saraiva (ed. Gradiva), que foi director do “Expresso” e do “Sol”, que (suscitando todas as mais piedosas inquietações) até tem um buraco de fechadura na capa e uma apresentação algo sensacionalista: “O que não pude (ou não quis) escrever até hoje – O livro proibido”.
Fui comprá-lo e lê-lo, tendo assim cometido um pecado, um sacrilégio ou um crime (depende do grau da indignação encenada). Encontrei 260 páginas de apontamentos memorialistas sobre 42 figuras públicas, das quais nem todas são políticos. E encontrei “segredos sexuais”? Bom, nas 260 páginas informa-se o leitor de que:
1. P. P. é homossexual – como se não corresse há anos a informação, e nem foi necessária a reportagem do jornalista Rui Araújo no “Le Point”, e duas outras figuras públicas do PS e do BE (A.G. e F. L.) não o tivessem já insinuado com grosseria;
2. E. R. (que não é político) e P. S. L. tinham algumas inconstâncias de natureza amorosa – o que não é exactamente uma novidade;
3. M. F. e  J. A. D. tiveram um “caso”; 
4. F. C. e A. L. (nenhum deles políticos) se faziam fotografar quando tinham relações sexuais e que a empregada da primeira viu as fotografias; e que
5. E. F. R. aparecia mencionado no “processo Casa Pia” – o que nem é novidade.
Estes são, em menos de meia-dúzia de páginas, os “segredos sexuais” dos políticos, que tantas boas almas indignram, ou o quiseram aparentar, do Facebook à imprensa dita “de referência”. E até podia haver bastante mais. Quando o autor se refere a “O Independente” podia ter esclarecido o enigma da célebre pasta, com fotografias de meninos nus, que pertencia ao ministro E. M. e um dia ficou esquecida, ou o motivo que levou o ministro V. O. a demitir-se do Governo quando o famoso “Bibi” foi preso. Ou o namoro mais picante entre o deputado M.A. e a deputada H.R. Por exemplo.
A indignação, no caso deste livro, é uma hipocrisia, uma parvoíce ou uma ingenuidade quase comovente. 
O que aqui se lê é o que José António Saraiva conta (com a candura de “outsider” do “milieu” que o caracteriza) sobre os contactos presenciais e pessoais com políticos que até davam informações em primeira mão ao “Expresso”. E, também, como recusou ou contornou certas pressões. Este testemunho é mais relevante do que as apregoadas “revelações sexuais” da treta. E seria bom que quem, no meio jornalístico e intelectual, se mostrou tão indignado contasse o que sabe ou o modo como também obtinha, e obtém, as suas próprias informações.  
Aliás, o tráfico de informações entre o poder politico, judicial e económico e o jornalismo é que merece maior escrutínio do que a vida privada das pessoas públicas e, em numerosos casos, a devida indignação.
É sintomático que disso não se fale. E, aliás, também se percebe como as notas de José António Saraiva parecem, até, ser contidas. 
Quanto ao resto, “Eu e os Políticos” até se lê bem. Não passa de um registo memorialista interessante, capaz de interessar mais ao leitor que mais conhece ou melhor memória tem. Quanto ao pequeno mundo nacional (onde os facilmente indignáveis emprenham ansiosamente pelo ouvido), merecia mais. A bem da transparência da vida pública.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

12 meses



A campanha eleitoral dele já começou

Falta um ano para as eleições autárquicas de 2017.
Não se nota, em Caldas da Rainha, que o CDS, o PS, o PCP ou o MVC tenham interesse nesta eleições ou queiram derrotar a imprestável maioria absoluta do PSD, cujo candidato (e presidente da Câmara Municipal) já está em campanha eleitoral há várias semanas.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pode a sexualidade valorizar o currículo?



Na capa da revista do "Expresso", 10.09.16

F.L., professor, poeta e tradutor, está a traduzir uma nova versão da Bíblia. É um facto cultural relevante embora, para todos os efeitos, nada vença a Bíblia dos Capuchinhos, de consulta fácil e à distância de meia-dúzia de cliques.
O jornal “Expresso”, talvez para variar da recente moda jornalística de entrevistar actores, actrizes e apresentadores e apresentadoras (não é assim que se deve escrever?), resolveu entrevistá-lo. E na capa da sua revista apresenta assim o entrevistado: “(…) Um dos mais brilhantes intelectuais portugueses, homossexual assumido e autor da primeira tradução da Bíblia a partir do grego. Uma questão de fé.”
Não se percebe bem a eventual relevância da última frase sobre a fé mas aqui o que interessa é a relevância da sexualidade do entrevistado. “Homossexual assumido” é, pela ordem de construção do textículo da capa, mais importante até do que a tradução do grego. 
Mas quando se penetra no texto da entrevista, a dúvida adensa-se. São 69 as perguntas (eu contei-as) e, delas, só 7 têm a ver com o exercício social (e é só) da sexualidade do entrevistado. E nessas 7 o mais longe que a entrevistadora vai é na opinião do cônjuge quando ao excesso de trabalho do entrevistado. Portanto, qual é a relevância da sexualidade e do facto de ela ser “assumida”? 
É possível que o pormenor da sexualidade do entrevistado tenha a ver com qualquer opção do jornalismo do “Expresso”. Aliás, é um aspecto que porá qualquer alma atenta a pensar se os passados e futuros entrevistados do “Expresso” também vão ser apresentados pela sua sexualidade.
De qualquer modo, é um precedente interessante. E, sabendo-se da importância que a imprensa em geral tem junto dos decisores políticos dos vários escalões, até pode vir a fazer lei. Lei, mesmo, ou norma social e profissional.
Aplicável, obviamente, aos currículos. 
Parece ser hábito dos jovens (e menos jovens?) inundar com currículos empresas e tudo o que parece ser empresa (até eu já recebi “candidaturas espontâneas” para o modesto blogue pessoal que mantenho). E também parece ser hábito nas empresas nem olhar com profundidade para a chuva de “candidaturas espontâneas” que lhes chegam por correio electrónico, tal é a quantidade (e a qualidade…)
No entanto, à luz do precedente aberto pelo “Expresso”, talvez seja útil aos candidatos incluírem a sua sexualidade no currículo, de preferência com a sua classificação ("assumidos" ou, sei lá, "no armário"). Seria, decerto, um elemento sugestivo para captar a atenção dos destinatários dos currículos e, já agora e em nome da transparência, aumentar até as possibilidades de contratação, por interesse personalizado de quem contrata. 
E isto seria só para começar, porque há muitos outros pormenores pessoais que se podem sempre incluir…


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Falta de cuidado


Quando comecei a vir regularmente para Caldas da Rainha e antes mesmo de me fixar aqui, optei por assinar um dos jornais regionais, a "Gazeta das Caldas", para o ter na caixa do correio quando chegava ao fim-de-semana e saber, pelo menos, uma parte do que se passava no concelho.
Tornei-me assinante do outro, o "Jornal das Caldas", mais tarde.
Continuo a manter-me assinante, acho que o devo ser (como jornalista que já fui, não posso deixar de ter um fraquinho pelos jornais regionais que, com óbvias dificuldades, vão cumprindo as suas obrigações informativas e pelos seus profissionais) mas quando, como ontem, fui renovar as assinaturas e me deparei com as edições desta semana... bem, às vezes quase me arrependo.





Não é desta semana mas tem sido constante: a campanha eleitoral (nem vale a pena usar o eufemismo "pré-eleitoral") do presidente da Câmara Municipal, que o quer ser outra vez. Todas as semanas aparece várias vezes no conjunto dos dois jornais.
Há sessões oficiais e outras que nem tanto, há protocolos e outras coisas parecidas, há a mais descarada das acções de propaganda que imaginar se possa... e ele lá está.
A "Gazeta" e o "Jornal" poderão ter favores a pagar, podem não arranjar maneira de se distanciarem, podem com toda a convicção apoiar o PSD local (e contraditoriamente, no caso da "Gazeta", abominar o PSD nacional).
Mas, caramba, há eleições daqui a um ano. E este presidente é candidato.
É claro que os restantes partidos andam completamente alheados da coisa e talvez até já tenham como certa a vitória do PSD local. Ou ela lhes convenha. Mas o alheamento dos outros protagonistas não justifica o excesso. Nem o descuido da falta de objectividade.





"A colheita das pera já começou", "As peras têm de colhidas com pé e colocadas com cuidado no balde", "Após ser colhida das árvores para o balde, são depositadas deste no palote"... Isto são legendas de algumas das fotografias de uma reportagem sobre a apanha da pera rocha no "Jornal das Caldas".
Interessante, a reportagem é um paradigma do que não se deve fazer. Não são só as legendas. É o facto de no seu espaço aparecer um anúncio da empresa agrícola onde é feita a reportagem, sugerindo que a reportagem está mais no campo da publicidade do que no do jornalismo.
Mas pior é o retrato dos que andam à apanha e, em especial, de duas pessoas.
Com nome e fotografia, confessam que estão desempregadas e o fazem pelo dinheiro. É um mecanismo social e económico natural. Mas... estarão estas pessoas a receber subsídio de desemprego? Se estiverem, fica exposta a prevaricação.
Este é um problema da imprensa regional: a falta de cuidado e de algum profissionalismo. O "Jornal das Caldas", que demonstra uma postura mais simpática do que a arrogante direcção da "Gazeta", pode decerto resolvê-lo. 


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Fernando Antunes




Foi no extinto "O Jornal", onde havia gente melhor a trabalhar do que a mandar, que conheci Fernando Antunes.
Fazia parte, como Fernando Assis Pacheco ou Afonso Praça, de um grupo de profissionais que cumpriam com o mesmo brio e com o mesma satisfação os deveres burocráticos da profissão de jornalista e os momentos de maior criatividade.
Um pouco contra vontade, Fernando Assis Pacheco e Afonso Praça tiveram de ser chefes mas isso não os diminuiu nem lhes limitou as imensas qualidades que tinham. 
Destacado para o Parlamento, Fernando Antunes escapou-se a essas funções, ocupou-se das coisas parlamentares como poucos e nunca perdeu as suas qualidades humanas.
Era um dos poucos que, à quinta-feira, dia de fecho de "O Jornal", chegava à redacção, na Avenida da Liberdades, por volta, ou mesmo antes, das 8 horas. 
Numa dessas quintas-feiras em que lá nos encontrámos, veio ter comigo para eu ler e lhe dar a minha opinião sobre uma das suas crónicas parlamentares, antes de a entregar para publicação. Era uma época em que ninguém, entre os melhores camaradas de redacção e de profissão, se considerava auto-suficiente. Ou acima dos restantes.
Já nem surpreende, por isso, que a notícia da morte de Fernando Antunes tenha ficado limitada a este apontamento (na "Visão", ao que parece, que ironia!). 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"The Night Of": a banalidade que inspira a arte


Podemos recordar a incontornável "The Wire". Podemos recordar "The Killing/Forbrydelsen". Ou "Os Sopranos". Ou "Breaking Bad". Ou a shakespeareana "Sons of Anarchy". Ou ainda "Peaky Blinders". Ou talvez mesmo  "True Detective" (a temporada 1). Mas a galeria do melhor que se tem feito em televisão tem de ser alargada e arranjar espaço para "The Night Of".
São oito episódios que compõem uma mini-série criada pelos argumentistas e escritores Richard Price e Steven Zaillian a partir de uma mini-série inglesa ("Criminal Justice", ou "Injustiça Criminal", quando passou em Portugal, num dos canais AXN).
O ponto de partida, comum, é simples: uma pessoa emerge de uma noite passada com outra, sem se recordar do que aconteceu, e a outra pessoa foi assassinada. No caso de "The Night Of", é um jovem de ascendência paquistanesa a pessoa que fica viva e... é ele o culpado?





"The Night Of" tem aquilo que hoje caracteriza a melhor televisão: tempo.
Há tempo para observar os protagonistas, para os ouvir, para vivermos no seu silêncio. E para desenvolver uma história filmada em tons sombrios, quase sempre soturnos, que ganha um estranho esplendor nos episódios-chave, no primeiro e no último, prolongados (quase hora e meia, que não se senta passar). O cinema, no desenvolvimento das histórias, é limitativo. A televisão, no seu melhor, não é.  
E há, claro, actores destacados: John Turturro na pele de um advogado com uma condição epidérmica difícil e uma condição profissional ingrata; Michael Kenneth Williams (o memorável Omar de "The Wire") na pele de um criminoso influente, mesmo a partir da prisão; e Riz Ahmed, o jovem e "alegado criminoso" Nasir, em prisão preventiva à espera de um julgamento que, por definição, lhe vai correr mal.
"The Night Of" é um prodígio, com um comentário acertado: num bar, um homem defende a sua ideia de uma série policial com um investigador criminal com pernas artificias e o outro diz que é má ideia e que o melhor é uma série onde tudo é (quase) banal. Como a vida, claro.
E eis a arte desta e de outras séries: partir de uma banalidade social para uma grande história. A boa televisão dos nossos dias é isto mesmo: a transformação da banalidade em arte.




Michael Kenneth Williams e Riz Ahmed: quase pai e filho na cadeia

John Turturro e Riz Ahmed: a caminho de um fim inesperado





(Vi "The Night Of" no canal TV Séries da televisão por cabo.)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

"Despachei um ou dois policiais"


A frase do título deste post, de fino recorte literário, aparece no contributo de um participante nos comentários de um estimável blogue literário sobre aquilo que ele leu neste período.
Os "policiais" que "despachou" não têm direito a nome de autor ou título.
Esta pérola que puxei para título expressa bem o snobismo intelectual e a iliteracia literária de muitos que, sabe-se lá porquê, se acham superiores aos outros: não foi um livro, não foram dois; foram "um ou dois". 
É o desprezo: não leram, "despacharam". 
E depois, claro, há outros livros e autores que já têm títulos e nomes, citados como se os escritores tivessem andado no infantário com quem escreveu a citada frase.
Esses livros, deverá supor-se, há de ter lido, relido, sublinhado e insistido na exegese. Como muitos dos outros participantes que, numa situação um pouco absurda, parecem querer enfeitar-se com os amplos conhecimentos literários que derramam.
Não é de agora, infelizmente, que isto acontece e, nesta versão canhestra e pirosa, expressa bem o que pensam muitos editores de um género literário que, como todos, merece respeito quando é bem escrito e bem cultivado e que não o merece quando não é. 


*

Por estas e por outras é que digo que, na realidade, não valem a pena o esforço e o investimento de escrever ou fazer mais alguma coisa pela literatura policial em Portugal.