quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"The Night Of": a banalidade que inspira a arte


Podemos recordar a incontornável "The Wire". Podemos recordar "The Killing/Forbrydelsen". Ou "Os Sopranos". Ou "Breaking Bad". Ou a shakespeareana "Sons of Anarchy". Ou ainda "Peaky Blinders". Ou talvez mesmo  "True Detective" (a temporada 1). Mas a galeria do melhor que se tem feito em televisão tem de ser alargada e arranjar espaço para "The Night Of".
São oito episódios que compõem uma mini-série criada pelos argumentistas e escritores Richard Price e Steven Zaillian a partir de uma mini-série inglesa ("Criminal Justice", ou "Injustiça Criminal", quando passou em Portugal, num dos canais AXN).
O ponto de partida, comum, é simples: uma pessoa emerge de uma noite passada com outra, sem se recordar do que aconteceu, e a outra pessoa foi assassinada. No caso de "The Night Of", é um jovem de ascendência paquistanesa a pessoa que fica viva e... é ele o culpado?





"The Night Of" tem aquilo que hoje caracteriza a melhor televisão: tempo.
Há tempo para observar os protagonistas, para os ouvir, para vivermos no seu silêncio. E para desenvolver uma história filmada em tons sombrios, quase sempre soturnos, que ganha um estranho esplendor nos episódios-chave, no primeiro e no último, prolongados (quase hora e meia, que não se senta passar). O cinema, no desenvolvimento das histórias, é limitativo. A televisão, no seu melhor, não é.  
E há, claro, actores destacados: John Turturro na pele de um advogado com uma condição epidérmica difícil e uma condição profissional ingrata; Michael Kenneth Williams (o memorável Omar de "The Wire") na pele de um criminoso influente, mesmo a partir da prisão; e Riz Ahmed, o jovem e "alegado criminoso" Nasir, em prisão preventiva à espera de um julgamento que, por definição, lhe vai correr mal.
"The Night Of" é um prodígio, com um comentário acertado: num bar, um homem defende a sua ideia de uma série policial com um investigador criminal com pernas artificias e o outro diz que é má ideia e que o melhor é uma série onde tudo é (quase) banal. Como a vida, claro.
E eis a arte desta e de outras séries: partir de uma banalidade social para uma grande história. A boa televisão dos nossos dias é isto mesmo: a transformação da banalidade em arte.




Michael Kenneth Williams e Riz Ahmed: quase pai e filho na cadeia

John Turturro e Riz Ahmed: a caminho de um fim inesperado





(Vi "The Night Of" no canal TV Séries da televisão por cabo.)

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