quinta-feira, 16 de outubro de 2014

"Vikings": Michael, o Terrível



"Vikings", de Michael Hirst: Travis Fimmel é Ragnar Lothbrok

 
Michael Hirst é um classicista. E gosta de "Ivan, o Terrível", um dos muitos grandes filmes que fez o grande Serguei Eisentein. Mostrou-o nos corredores sombrios percorridos pela rainha Isabel I (a Elizabeth interpretada por Cate Blanchett no filme de Shekhar Kapur, que Hirst escreveu) e agora na recriação da figura semi-lendária do conquistador e rei viking Ragnar Lodbrok, na série televisiva "Vikings"
"Vikings" (duas temporadas por agora, teremos a terceira no próximo ano) é mais um momento  épico de televisão.
Hirst, que também escreveu e produziu o menor "Os Tudors", salvou esta aventura de recorte clássico da banalidade que deu cabo do "Spartacus" televisivo e ergueu uma história de poder e famílias quase fascinante. E conseguiu-o pelos ambientes, pelo enquadramento musical (à excepção da canção do genérico), pelas cores e pela actuação que impôs ao actor australiano Travis Fimmel.
O seu Ragnar Lothbrok é, nas melhores de todas as cenas, uma recriação do Ivan, o Terrível, de Eisenstein, abrigando-se nas sombras, conspirando sozinho ou com os seus aliados de ocasião, perigoso e alucinado, de olhar turvo e enviesado, senhor de grande poder mas com um aspecto por vezes frágil.
É uma interpretação que felizmente faz esquecer algumas sequências domésticas, como aquela a que, talvez num momento de indecisão da história (e da História), se entrega este Ragnar, o Terrível, na paz familiar com um cabritinho ao colo.
"Vikings" já foi comparado, por exemplo, a "A Guerra dos Tronos" pela violência.
Mas é uma violência menos visível do que parece e o melhor de todos os exemplos é a notável cena de tortura da "águia de sangue", em que as costas da vítima são abertas verticalmente, em cada flanco, as costelas lhes são partidas com um machado e os pulmões lhe são arrancados... pelas costas.
Se a vítima não gritar, irá para o Valhalla. Se gritar ficará para sempre condenada. Nós pouco vimos. Mas sabemos, antecipadamente, como vai ser. O tormento do espectador mais sensível é muito pior.
Depois de "Elizabeth" (e esqueçamos o filme que se lhe seguiu), Michael Hirst tem em "Vikings" a sua melhor criação. Já tem direito ao Valhalla dos produtores e argumentistas. Tal como Ragnar Lothbrok.

Travis Fimmel e Michael Hirst já têm direito ao Valhalla

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